Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > COBERTURA ELEITORAL

Os partidários da lavagem cerebral

Por Cristiano Kock Vitta em 12/10/2010 na edição 611

Foi uma semana atípica na área da comunicação particular. O recebimento de recados esdrúxulos bateu todos os recordes. Meu e-mail foi inundado por um tsunami de mensagens supostamente políticas. Eram avisos, em sua maioria, de pessoas das quais nunca ouvi falar. Havia também opiniões desesperadas de conhecidos que não têm a argumentação sociológica como ponto forte. De repente, todo mundo virou especialista em aborto, religião, sistemas políticos e até em lógica aristotélica. Bastou, para isso, a boataria desencadeada por partidários da lavagem cerebral via internet. Das catacumbas da politicagem nasceu mais um sórdido episódio desta eleição.

A tela do computador exibe, para meu espanto, figuras carimbadas do anedotário ideológico nacional. A exótica fauna vai de jurista a sociólogo. Na maioria dos vídeos, ostenta, orgulhoso, seu inconfundível fatalismo, o verborrágico advogado Ives Gandra Martins. Muitos embarcaram no seu discurso. O resultado foi uma enxurrada de e-mails com textos, vídeos do YouTube e fotografias (?) sobre o fim dos tempos. Exatamente com esta expressão: ‘Fim dos tempos’. E não se trata do filme protagonizado por Mark Wahlberg.

No primeiro turno, eu já havia recebido ‘alertas’ sobre a desgraça que atingiria o país se a candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, fosse eleita. A mais louca papagaiada foi uma peça publicitária divulgada com aprovação dos caciques dos PSDB. Na propaganda, à la Hitchcock, rottweillers enfurecidos estariam sendo controlados por Lula. O narrador avisava: assim que o presidente deixar o cargo, o PT fará um esparramo na política brasileira. Vai até pintar o Congresso Nacional de vermelho. A parte surreal da trama é que muito gente acreditou.

Parece um filme de terror

Receio que o marketing político tenha regredido em alguns aspectos. A campanha do PSDB não só ajudou a atrofiar a visão de mundo dos eleitores como também apelou para o que há de mais oportunista e imoral no universo da propaganda. José Serra se tornou um arremedo de si mesmo. E contraditório, já que o tucano condenava um suposto artificialismo da candidata petista e passou a usar sem pudor tal expediente. O pior, no entanto, estava por vir. Com apoio quase total da grande mídia, Serra se sentiu à vontade para liberar seus truculentos marqueteiros. Houve uma onda de maledicência que levou de roldão a ética, o bom senso e o respeito pelo adversário para o fundo do poço. Até a psicanalista Maria Rita Kehl, uma intelectual que dispensa comentários, acabou vítima da neurastenia midiática. Foi demitida pela intolerância editorial de um dos jornais que dizem lutar contra a censura.

Seria melhor combater discursos obscurantistas usando pesquisas e estatísticas. Respeito, porém, a opção do PT pelo pragmatismo. Afinal, a ignorância e a crueldade de certos presbíteros não têm limites. A falta de bom senso é tão grande que até ateus receberam vídeos sobre o ‘fim dos tempos’. É desgastante deparar com uma onda de caça às bruxas tupiniquim em pleno século 21. Pior ainda é constatar que os incentivadores dessa prática são pessoas que concluíram o curso superior. Ler no jornal O Estado de S. Paulo que a mulher de Serra divulga que ‘Dilma quer matar criancinhas’ enche de um abatimento atroz quem procura argumentos sérios para decidir seu voto. Recordei-me da infância, quando latifundiários espalhavam o medo entre os habitantes da minúscula Barra do Turvo dizendo que se Lula vencesse Collor todas as igrejas seriam fechadas. Agora, porém, o discurso mistura não só ideologia, mas também teses sombrias, como práticas de satanismo e previsões apocalípticas. Argumentos tão fora da realidade que dão impressão de terem sido forjados numa cripta.

Tantos despautérios mereceriam editoriais na capa da Folha de S.Paulo ou na página 3 do Estadão. Mas isso é praticamente impossível de acontecer. Parece que estamos vivendo um filme de terror financiado pela grande mídia. Um título apropriado seria Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers), clássica película dirigida por Don Siegel, em 1956. É a mesma paranoia. Quem será, entretanto, que está fazendo o papel do senador Joseph McCarthy?

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Jornalista, Limeira, SP

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