Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > ENTREVISTA / NAHUM SIROTSKY

‘Ou se é atual, ou já não se é mais’

Por Solange Noronha em 30/01/2006 na edição 366

Correspondente em Israel de um jornal diário e um site, Nahum Sirotsky recém-completou 80 anos (em 19 de dezembro), dos quais mais de 60 dedicados ao jornalismo, que entrou em sua vida meio ao acaso. De todo esse tempo, sua maior lição para qualquer um que pretenda se tornar profissional da imprensa é simples: aprender mais, sempre mais, e acima de tudo manter-se atualizado, já que compara o jornalista à própria notícia. 

Em conversas via internet, o veterano colega dispensa o tratamento formal e conta detalhes de sua trajetória, iniciada na redação da revista Diretrizes, onde era contínuo e, graças ao curso de Datilografia feito em Passo Fundo (RS), começou a fazer trabalhos de foca para Joel Silveira. Conheceu, como ele mesmo diz, ‘o que havia de melhor nas letras e nas artes’. A desorganização e as muitas viagens mundo afora, porém, fizeram com que perdesse os souvenirs de tempo tão rico e até mesmo o contato com muitos dos amigos.

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Sua ligação com a ABI é especial, não é verdade? Foi Herbert Moses, presidente que deu nome ao edifício-sede da instituição, quem lhe arrumou o primeiro emprego como jornalista.

Nahum Sirotsky – Minha ligação com o ABI é fundamental. Trabalhava de contínuo na revista Diretrizes, de Samuel Wainer, onde conheci alguns dos melhores jornalistas e escritores do País. Também era aproveitado por saber datilografia. Entre os colaboradores estava Joel Silveira, repórter insuperável, bom colega, boa gente, que resolveu me aproveitar em trabalhos de foca. Fiz amizades para toda a vida. Trabalhava para pagar meus últimos anos de secundário. Certa manhã, chego e descubro tudo fechado por ordem do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), da Censura e do Dops (Departamento de Ordem Política e Social). Sem emprego nem meios, fui procurar gente que eu conhecera. Dirceu do Nascimento – que, anos depois, eu levaria para a revista Manchete – era secretário-geral da Agência Meridional, dos Diários Associados.

Por insistência de Joel, que acreditava em mim e até me chamava de ‘foca zero’, eu tinha feito uns trabalhos para a Dom Casmurro, histórica publicação criada e dirigida por Brício de Abreu, que publicou um deles e me encomendou uma entrevista com o crítico literário do Globo, Eloy Pontes, sobre o novo crítico literário do Correio da Manhã, jornal carioca de maior prestigio na época. Escrevi um dos piores textos da minha vida, mas uma declaração do entrevistado me marcou: a de que o crítico do Correio era ‘de enciclopédica ignorância’. Os dois entraram em briga literária pelos seus jornais e eu fui citado várias vezes.

Como isso o levou a Herbert Moses?

N. S. – Como fui muito mencionado, Dirceu deu a sugestão que mudou a minha vida – e meu sonho de ser cientista: sugeriu que fosse ao então Presidente da ABI, Dr. Herbert Moses, e me apresentasse dizendo meu nome com ênfase, pois ele se gabava de conhecer de nome todos os jornalistas. ‘Doutor Moses, sou o Nahum Sirotsky. Como sabe, fecharam Diretrizes e preciso de emprego para sobreviver’, eu disse. Ele me encarou – era diretor do Globo, jornal dos Marinho –, explicou que nada podia oferecer, mas, após uma pausa, acrescentou: ‘Precisamos de alguém que fale idiomas.’ A todos fui dizendo sim, até espanhol, apesar de ter aprendido apenas palavras de inglês e francês no ginásio. Mas nada tinha a arriscar, pois pretendia uma vaga de boy. Só não entendi, nem quis saber, para que as línguas.

Ele escreveu algo num papel e disse: ‘Vá ao Globo e entregue este bilhete ao Pinheiro.’ Lá fui eu ao Alves Pinheiro, um dos maiores chefes de reportagem que conheci em toda a minha longa vida profissional, incluindo anos de exterior. Vasto bigode, charuto na boca, lápis escrevendo sem parar e, ao mesmo tempo, falando ao telefone. Leu o bilhete e, com forte sotaque baiano, perguntou: ‘Verdade?’ E me deu um endereço e um nome: um tal Dr. Peck – jamais vou esquecer –, médico norte-americano.

Saí caminhando e imaginando que estava indo buscar algo já pronto, um primeiro teste de minhas habilidades de contínuo. No hospital, o diretor, um médico brasileiro, disse que o Dr. Peck estava operando e logo viria me atender. Entendi: era para entrevistá-lo. Fui logo explicando que nada sabia de medicina e que talvez fosse melhor ele me ajudar e ouvi um elogio, de que assim deviam ser todos os jornalistas. Ele fez tudo, peguei um texto pronto. Na redação, o Pinheiro leu e foi logo dizendo que não estava em linguagem jornalística, mas tinha todas as informações: ‘Deixa comigo que eu acerto.’ Apontou para uma mesa vazia, disse aquela era a minha mesa de trabalho, e gritou para a redação: ‘Conheçam o novo foca, o Nahum. E fala inglês!’ Ganhei um emprego que não imaginara. E assim comecei minha carreira.

Você hoje mora em Tel Aviv e é correspondente do Zero Hora e do Último Segundo. Há quanto tempo está nessa função?

N. S. – Há alguns anos sou correspondente da RBS (Rede Brasil Sul de Comunicação, à qual pertence o jornal Zero Hora) e do Portal iG (a que pertence o site Último Segundo), mas minha primeira passagem por Tel Aviv foi de 1965 a 1972, adido à embaixada do Brasil. Depois de deixar o Itamaraty, voltei a Israel como correspondente do Jornal do Brasil e do Estado de S.Paulo. Fiquei lá uns anos, depois voltei ao Brasil.

Quando a internet entrou na sua vida? Sentiu diferença entre escrever para os veículos tradicionais e um site?

N. S. – A internet entrou na minha vida logo depois que seu uso foi liberado. Tive de aprender ou não teria trabalho. A meu ver, a diferença básica é que é preciso ser mais sintético e objetivo, usar frases mais curtas. Ler textos extensos no computador cansa demais a vista.

Há muita gente com menos idade que resistiu (ou resiste) a aderir ao computador.

N. S. – Minha idade não impediu o aprendizado nem a prática. Por incrível que pareça, fui dos primeiros a usar máquina de escrever em redações. Passei da mecânica à elétrica e à eletrônica e desta ao computador como necessidade profissional, do mesmo jeito que tive de aprender novos estilos de escrever textos jornalísticos. Jornalismo é sempre o agora, o hoje. Temos que fazer força para nos mantermos atualizados em tudo. Do contrário, somos ultrapassados pelas mudanças culturais e tecnológicas, ficamos falando sozinhos.

O que não mudou?

N. S. – Quando comecei, a profissão era uma vocação e a escola era a prática. Mas logo se descobria que os melhores eram os que se preocupavam em adquirir cultura, conhecimentos gerais e estar atualizados como meio de conseguir as melhores informações e produzir as melhores matérias possíveis para os seus veículos. Eram os que sabiam o que perguntar, o que pesquisar, como expor. Vocação não bastava muito além dos primeiros passos. Aqueles que não procuravam crescer culturalmente acabavam encostados em funções menores ou tentavam novos caminhos. Tive a sorte de ter um Alves Pinheiro como primeiro mestre e um Roberto Marinho como primeiro empregador. Pinheiro me ensinou a importância da pergunta e da dúvida e a sentir cada reportagem como um desafio nunca enfrentado. Roberto Marinho acreditou em mim e me fez correspondente do Globo em Nova York nos meus 20 anos de idade. Fui o primeiro jornalista brasileiro a se credenciar junto às Nações Unidas. Aprendi uma barbaridade com o jornalismo norte-americano. Acho que foram os meus anos nos Estados Unidos que me ensinaram a importância da autocrítica e a me empenhar em me manter atualizado. Continuo empenhado. 

Você cobriu muitos conflitos mundo afora. É possível relembrar quais e quando?

N. S. – Sim, vi conflitos, fui enviado a vários, mas não há espaço numa entrevista para lembrar tudo. O mais relevante deles foi político. Em 1947, o Conselho de Segurança das Nações Unidas reuniu-se para discutir uma agenda à qual se opunha a então União Soviética, que ameaçava se desligar da organização criada durante a Segunda Guerra por falta de confiança no então monarca persa, um Pahlevi simpático aos nazistas. Os russos passaram ser a influência dominante. Finda a guerra, norte-americanos e ingleses resolveram que o país tinha de ser desfeito ou algo parecido.

Tinham ido de Moscou, entre outros, Molotoff e Vishinsky, líderes obedientes a Stálin. Um norte-americano presidia o Conselho. O salão permitia um público de milhares de espectadores. Lembro-me do americano abrir a reunião e anunciar a questão do Irã, assim se chamava o problema do Curdistão. Molotoff, Vice-Primeiro Ministro e Ministro do Exterior soviético, Vishinsky, poderoso Ministro da Justiça, se não me falha a memória, e os demais membros da delegação soviética levantaram-se de seus lugares e lentamente avançaram para a porta da saída. Nesse momento, um dos 11 do Conselho teve um acesso de tosse e se viu cair na mesa sua dentadura em forma de ferradura.

Era grande a tensão. O público imaginava que assistia ao que poderia ser um primeiro momento de uma guerra entre Estados Unidos e União Soviética. Um outro embaixador tirou o lenço branco do bolso, segurou a dentadura e a passou a outro, que foi passando o pequeno pacote até seu dono. Silêncio, dentadura recolocada. O público ainda em silêncio. Novo acesso de tosse e nova queda dos dentes. Alguém riu, todos começaram a rir de fazer pipi nas calças. Os soviéticos nem se viraram. Terão entendido que se riam deles? Os jornais não contaram da dentadura, mas falaram da reação do público. O Curdistão acabou. Reza Pahlevi, filho do rei deposto, assumiu a monarquia que acabaria derrubada pelos aiatolás décadas depois. Foram dos primeiros momentos da ‘guerra fria’.

E mais recentemente? Sei que há algum tempo você foi atingido com uma pedrada no joelhada na Cisjordânia.

N. S. – O que vi de mais impressionante nos últimos tempos foram locais destruídos por homens-bomba, extremistas islâmicos que se fazem explodir para matar inimigos. As lembranças viram pesadelos. Acredite, porém, que não há nada de romântico nem de bonito em guerras além do medo permanente, do fedor de fezes do descontrole que ocorre nos bombardeios, da morte e de partes de seres humanos. De como o homem é mais feroz do que qualquer outro animal. De como o jornalista de guerra tem de ter preparo físico de atleta e se vicia com a emoção de sentir sua vida em risco e sobreviver. São muitas as seqüelas físicas, mas as piores e incuráveis são as psicológicas.

E como é ser mandado de um lugar a outro, sempre para o olho do furacão? Conhece algum caso de jornalista que foi, digamos, cobrir os desfiles da coleção primavera-verão em Paris e, de repente, se viu em meio a uma guerra?

N. S. – O repórter é instrumento do seu veículo, vai aonde é mandado ou desiste da profissão. E pode acontecer de ir para uma festa, ou outro tipo de evento internacional, e se ver no meio de uma guerra civil. Assim foi com o pequeno grupo encarregado da cobertura de uma conferência interamericana em Bogotá. Estávamos almoçando na residência do embaixador brasileiro, que homenageava os jornalistas, quando, no meio de um copo de bom vinho, ele recebeu um telefonema de emergência. Voltou pálido. Mataram Gaitán (Jorge Eliecer Gaitán, líder político e membro do Partido Liberal colombiano, assassinado em 9 de abril de 1948). O povo se revoltou. Tivemos de percorrer a pé uma grande distância para chegar ao centro da confusão que se espalhava e viria a ser chamada de Bogotaço. Boa parte da parte antiga e bela da cidade foi incendiada e destruída. Éramos Joel Silveira, José de la Peña Jr., Antonio Callado, Barreto Leite Filho e eu. Milhares foram mortos por armas brancas. Foi o começo da guerra civil que dura até hoje. Ao longo da minha carreira, houve outros deslocamentos de emergência. Muitos. 

Muitos foram também os veículos nesses mais de 60 anos. Consegue listá-los?

N. S. – De foca do Globo, logo virei repórter para todo o tipo de confusão. Depois, fui repórter do Diário da Noite, voltei ao Globo, fui chefe de reportagem, único repórter e, mais tarde, diretor da revista Visão, diretor do Diário da Noite, diretor de Manchete, imaginador e diretor da revista Senhor, assessor de Roberto Campos na embaixada em Washington, colunista de Economia do JB, adido da embaixada em Israel, correspondente do JB e do Estadão em Israel, e mais e mais. Lembro que fui diretor do primeiro jornal da Rádio Globo, ‘O Globo no ar’, comentarista e entrevistador de programas de TV, redator da AP, da AFP e da Reuters. Em Nova York, estagiei no New York Daily News, fui repórter do já desaparecido PM, único jornal que imaginou viver sem aceitar anúncios, e comentarista da NBC em português etc. etc. Também cheguei a ter uma assessoria e consultoria de engenharia de imagem. Tem sido uma vida interessante, na qual aprendi muito. Só não aprendi como ficar rico.

Como foi a criação da Senhor, verdadeiro marco na história da imprensa brasileira?

N. S.Senhor surgiu de um improviso da minha mulher, a atriz e escritora Beyla Genauer, numa festa de Abrão Kogan, um dos proprietários da editora Delta-Larrouse. Beyla perguntou a ele por que não me chamava para fazer uma revista. Na época, eu trabalhava com o Alberto Dines na hipótese de um semanário de política e economia. O Kogan me chamou na hora e me sugeriu que fosse falar com seu sócio e sobrinho Simão Weizmann, que me disse que vivia sonhando com a idéia de uma revista original, à altura da editora. Falei que tinha idéia semelhante e fui improvisando. Ele quis uma amostra. Na mesma noite, com a Beyla, pedi ajuda ao (Carlos) Scliar, que veio com o Glauco (Rodrigues), cola e tesoura. Criamos uma boneca, mostrando como imaginamos que deveria ser a revista. Weizmann gostou e topou a parada. Deu-me carta branca.

Como era trabalhar com aquele time de feras que tinha Paulo Francis, Luiz Lobo, Jaguar, Millôr e tantos outros nomes de peso? Conte um pouco sobre aquele período tão fértil que terminou de forma tão trágica, com o golpe de 64.

N. S. – Tinha também Newton de Almeida Rodrigues, Clarice Lispector… Transformamos a hipótese numa realidade. Fiquei na direção de Senhor de 58 a princípio de 61, até que o controle foi vendido a outro grupo. Não acompanhei os anos seguintes e o fim. A equipe inicial era de indivíduos de grande criatividade e profissionalismo, todos excepcionais no que faziam. Não tivemos problemas pessoais: cada um brigava por suas idéias e Senhor foi a síntese da criatividade de todos com o dinheiro que Simão e Sergio, os dois irmãos sócios na Delta, ousaram investir. Nunca imaginamos estar fazendo algo para a História; fazíamos o que achávamos que era o melhor de tudo quanto existia ou existira no campo de revistas brasileiras, acreditando que haveria um público leitor. E deu no que deu.

Onde você estava quando a revista acabou?

N. S. – Passei a maior parte do período entre 1965 e os anos 70 trabalhando no exterior. Como repórter, fizera boas relações com muitos dos que seriam importantes nos governos da época, como Roberto Campos, Mario Henrique Simonsen, Dion de Melo Teles, Ney Braga, Vasco Leitão da Cunha, Juracy Magalhães, Hélio Beltrão, generais, almirantes… Conheci chefes índios e chefes de Governo e políticos estrangeiros, Tito, Che Guevara, Truman, Winston Churchill… João Neves da Fontoura foi meu padrinho de casamento. Da época, voltando de Israel, lembro-me de quando fui convidado a jantar com JK – que eu conhecera quando Prefeito – e membros de seu antigo ministério. Ele me disse então que sairia da cassação, seria eleito Presidente e eu seria o embaixador dele em Israel.

Repórter roda muito e conhece muita gente. Se souber preservar a confiança de suas fontes, ganha delas amizade e informações. Soube fazê-lo. Nada sofri.

Como vê a discussão sobre a necessidade de diploma para nossa profissão? Tem idéia da situação do ensino de Jornalismo no Brasil?

N. S. – Quis ser cientista, acabei estudando Economia, fazendo cursos de Ciência Política e de Relações Internacionais, nunca terminando faculdade alguma. Então, posso me classificar como autodidata. Pouco sei da qualidade das escolas de Jornalismo no Brasil. Diria, porém, que é essencial que o jornalista tenha amplos conhecimentos gerais. Há excelentes profissionais no jornalismo brasileiro de hoje.

Teria algum recado para os futuros jornalistas brasileiros?

N. S. – Tudo que posso sugerir aos novos colegas é que em tempo algum imaginem que eventuais sucessos significam que já se sabe tudo. O jornalismo é como a notícia: ou se é atual ou já não se é mais. 

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Editora-executiva do ABI Online

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