Segunda-feira, 26 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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FEITOS & DESFEITAS >

Para a história não virar ruína

28/04/2009 na edição 535

Os recentes acontecimentos no Congresso Nacional, na triste lambança das passagens aéreas, ou no Supremo Tribunal Federal, STF, no bate-boca de ministros ao vivo em rede nacional de televisão, já são más memórias que, por sua vez, alimentarão ruínas institucionais, com reflexo na sociedade, pela importância dessas instituições, Poderes da República: o Poder Legislativo e o Poder Judiciário.


Estas instituições já tiveram, em tempos passados, suas liberdades cerceadas por defenderem a democracia, seus líderes e seus instrumentos. Hoje deveriam ser automaticamente identificadas com as garantias de segurança social, econômica e jurídica, vitais e básicas para que se acredite e invista no país.


Como contraponto às memórias ruins, há lembranças memoráveis como o momento em que, no Congresso, Mário Martins, em 24 de maio de 1961, renunciou ao seu mandato de deputado federal por divergências partidárias. Ou a atuação do Deputado Federal Márcio Moreira Alves, cassado pelo AI-5, quando o presidente Costa e Silva decretou o recesso do Congresso Nacional, que se prolongou até outubro de 1969. Ali foram presos diversos jornalistas e políticos opositores ao governo, entre eles o ex-presidente Juscelino Kubitschek, o ex-governador Carlos Lacerda e vários deputados federais e estaduais da Arena e do MDB.


Da mesma forma, é no ambiente do STF que se dão as discussões contemporâneas de questões de suma importância ligadas, entre outras, à bioética, a demarcação de terras indígenas etc., exemplos pinçados para apontar a importância dessas instituições, cujos membros parecem fazer um trabalho diário para que sejam percebidas como incompatíveis ou descoladas da sociedade.


Construção e desconstrução


É importante ressaltar que, apesar de as lembranças boas geradas pela história das instituições, a memória social e individual são alimentadas pelo presente e passam obrigatoriamente pelo afeto: só se conserva aquilo que se gosta. No cotidiano, tenta-se esquecer, até apagar o que feriu, afrontou ou o que já não tem mais importância para nós, para os mais próximos ou para a comunidade. O afeto é condição fundamental para cuidar, preservar, selecionar fatos, pessoas e lugares na história e, assim, não deixar que se transformem em ruína.


A má memória é pensada e entendida aqui como ruína, sinônimo de lugar desmoronado, destroçado, descuidado, esquecido, feito com material ruim, vestígio de má sorte e de imagens ruins. Rituais ruins são demolidores, desmoralizam os ritos, a simbologia e as instituições, que deveriam ser defendidas e aperfeiçoadas por quem conquistou uma delegação para isso. O contrário, a boa memória é entendida como um lugar bom, preenchido de cuidados, de boa sorte, de bons ritos e rituais, de aconchego e imagens boas.


As instituições brasileiras são, normal e frequentemente, percebidas e lembradas como maus lugares. Os Poderes brasileiros são vistos como lugares descuidados e caros, representados por imagens fortes e ruins, que transformará sua simbologia, ritos e rituais, imagens e memórias em ruínas.


A comunicação organizacional, lembre-se, tem construído suas narrativas históricas ou mitológicas baseadas em dirigentes, trabalhadores e espaços percebidos, pela sociedade e redes relacionais, como heróis, mitos ou, no mínimo, personagens valorosos, com alguma importância social e simbólica. São narrativas fortalecidas, também, pelos ritos e rituais organizacionais, desde que não sejam aqueles desmoralizados como a entrega de diplomas, comendas, medalhas e relógios banhados a ouro.


Quem não tem – instituição ou empresa – personagem ou lugar como parte de uma história passível de ser transformada em reportagem, livro, pesquisa acadêmica, vídeo-depoimento, entre outras, a ser comunicada, não tem sua perenidade assegurada.


Em uma sociedade sedenta de histórias, triste da instituição ou empresa que não tem boas histórias para contar. Os poderes brasileiros trilham um caminho perigoso, que os faz perder todos os significados para a sociedade.

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Jornalista, professor da ECA-USP e diretor-geral da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje)

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