Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > LÍNGUA AFIADA

Para enriquecer o português do Brasil

Por Deonisio da Silva em 05/01/2010 na edição 571

Não, amigos, não se trata de favorecer o comerciante português que aqui se estabeleceu há tantos séculos. É que a revista mensal Seleções Reader´s Digest é lida em 21 idiomas, com 50 edições diferentes. No Brasil a publicação consolidou-se de tal forma que seria necessário examinar em profundidade as razões de seu sucesso editorial.

O número de dezembro de 2009 oferece amostras de suas atrações. Como se sabe, uma das seções mais lidas é ‘Enriqueça seu vocabulário’. Com o fracasso do ensino médio e o rebaixamento dos padrões de qualidade, a mídia viu-se obrigada a ensinar um minimum minimorum de Língua Portuguesa, no mais das vezes um resumo do resumo de algumas essencialidades do idioma, do uso correto da norma culta.

A Folha de S.Paulo faz isso há muitos anos com a coluna de Pasquale Cipro Neto. O Globo e o Extra contam com Sérgio Nogueira Duarte da Silva. Zero Hora tem a coluna de Cláudio Moreno, que na semana passada escreveu sobre o ponto-e-vírgula. Afinal tem hífen ou não tem? Outros jornais e revistas mantêm colunas semelhantes.

Narrativas roseanas

Como no caso dos primeiros socorros, são insuficientes para a plena recuperação, mas indispensáveis ao tratamento do paciente. E talvez isso explique a extraordinária receptividade que esses textos encontram entre leitores de todos os níveis de ensino. O brasileiro médio tem um desesperado amor por sua língua, adora falar bonito, admira quem fala bem. Para isso, todos sabem, é preciso estudar, é necessário ler, esta forma de estudo permanente que todos devemos cultivar.

A seção ‘Enriqueça seu vocabulário’ dessa edição de Seleções, da autoria de Ricardo Salles, é um das mais interessantes que a revista já publicou. Tomou a peça Desencantos, de Machado de Assis, e selecionou quinze palavras para enriquecer o vocabulário dos leitores. Algumas delas, hoje muito raras, eram comuns nas falas cotidianas da época. São as seguintes: agiota, algoz, aprisco, asco, debalde, ente, histrião, huri, liça, melancólico, melífluo, outeiro, paliativo, pertinaz, toleima.

São dadas três alternativas para cada explicação e apenas uma é a correta. Agiota poderia designar o mendigo, o comerciante muito inescrupuloso? Algoz pode ser empregado de fazenda ou soldado de infantaria? Aprisco pode significar tipo de pasto ou veículo para transporte de gado? Asco é sinônimo de compaixão e de orgulho? Debalde quer dizer com pressa ou com calma? Ente designa um tipo de som ou um tipo de cheiro? Histrião – uma das mais raras – é assassino ou policial? Alguém já aprendeu caligrafia com uma huri, que seria uma espécie de poetisa? Liça designava o portão do castelo, a torre do burgo? Quem está melancólico, está com fome ou sem elegância? O melífluo é inoportuno, muito falso? Outeiro designa buraco ou lago? Paliativo é o que faz mal ou que provoca brigas? Pertinaz é quem não tem juízo ou é apressado? Toleima – mais rara ainda, embora esteja em famosas narrativas de João Guimarães Rosa, ocorridas em pleno cangaço – é gritaria inútil ou distúrbio emocional?

Fragmentos e contextos

Todas as alternativas referidas no parágrafo anterior são falsas.

Aprisco, muito presente nas metáforas dos Evangelhos, vindas de uma sociedade agropastoril, é curral de ovelhas. Asco é sinônimo de nojo, repugnância. Debalde, do árabe batil, inútil, significa em vão, inutilmente. Ente é sinônimo de ser, embora os dicionários autorizem que signifique qualquer objeto, em visão mais larga. Histrião, de histrionis, caso genitivo de histrio, habitante da Hístria, região de onde vinha para Roma a maioria dos comediantes, é sinônimo de bufão, bobo, palhaço. Liça é briga, disputa, combate, luta, mas também campo cercado.

O resto está lá. Vale a pena ler a seção. É muito bem feita. Ficaria ainda melhor se tivessem sido transcritos, ainda que em fragmentos, os contextos em que foram utilizadas por Machado de Assis.

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é coordenador de Letras e de teleaulas de Língua Portuguesa; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Editora Novo Século)

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