Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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Para o público maduro que gosta de música

Por Rodney Brocanelli em 12/10/2004 na edição 298

Nos últimos tempos vem ganhando corpo a idéia de que para uma revista de música dar certo, no Brasil, seu público-alvo precisa estar acima dos 25 anos. Manifestado em vários fóruns de discussão e artigos na internet, esse conceito está se materializando. Após se consolidar no ramo de revistas voltadas para segmentos, a editora HMP lançou nesse segundo semestre a revista Mosh, para a faixa etária entre 27 e 38 anos. No comando está Regis Tadeu, 42 anos, dentista formado pela Metodista, que se transformou em jornalista pelo conhecimento musical traduzido em vasto acervo de discos e CDs. ‘Eu me sinto uma pessoa privilegiada, pois estou em três atividades que adoro: o jornalismo, a odontologia e ainda toco numa uma banda na qual sou baterista’, contou.

A aposta num público mais maduro não foi por acaso. ‘Quanto fizemos nossas pesquisas, ficou evidente que a Mosh não é para a molecada, nem era nossa proposta no começo. Revistas para a molecada existem aos montes’, disse. A resposta desse projeto parece ser bem satisfatória até aqui. ‘Logo quando saiu o primeiro número, já obtivemos pedidos de assinatura. Para nós, é um sinal ainda mais evidente de que a coisa pode ser viável’, afirmou Regis, em conversa em seu apartamento, no bairro paulistano da Bela Vista. Além dessa boa repercussão entre o público, a Mosh traz em suas páginas grandes anunciantes. ‘Uma união de fatores tornou nosso projeto viável comercialmente: nossa proposta editorial, o projeto gráfico que temos e seu ecletismo também’, disse.

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Você se formou como dentista e partiu depois para o jornalismo. Como se deu essa transição?

Regis Tadeu – Acabei me tornando jornalista por acidente. Há 11 anos eu fui sondado por um namorado de uma amiga da minha namorada que tinha lançado a revista Cover Guitarra, só com partituras. Ele precisava de alguém para fazer crítica musical. Chegou aos seus ouvidos a informação de que eu tinha uma razoável coleção de CDs e acabou me procurando. Disse a ele que jamais tinha escrito alguma coisa. Apesar de gostar muito de ler, não escrevia nem em jornal de colégio, não saberia se ia dar certo. Fiz as primeiras críticas e a receptividade dos leitores foi boa. Tive uma seção fixa, peguei gosto pela coisa e comecei a escrever textos contando a história de bandas como o Metallica, que na época não havia estourado. Daí foi uma bola de neve: parti para entrevistas com bandas nacionais, depois internacionais.

Depois da Cover Guitarra, o que mais você fez?

R.T. – Eu sempre continuei na mesma editora, a HMP. Ela tem revistas extremamente segmentadas e comecei a acumular cargos. Fui editor da Cover Guitarra e da Cover Batera ao mesmo tempo e escrevia para outras publicações da casa: Cover Teclado, Cover Baixo. Fiz releases para bandas internacionais, também. Cheguei a um ponto no qual não dava mais para acumular tantas coisas. Decidi me dedicar então ao projeto da revista Mosh, que era uma coisa que há muito tempo queria fazer.

Como surgiu a idéia da Mosh?

R.T. – Toda pessoa que tem mais de 40 anos, como eu, se lembra que na época da nossa adolescência existiam várias revistas fundamentais para a informação musical. A Bizz era uma revista muito legal, embora fosse mais nova, dos anos 80. Sou de uma época em que tinha a revista Pop. Apesar de seus editoriais de moda, havia um grau de informação muito grande. Outra revista fundamental era Rock: a História e a Glória, que trazia textos divertidos do Ezequiel Neves. Na editora onde trabalho sempre se pensou de uma forma muito segmentada. Nossa linha era fazer revistas específicas para públicos específicos. E por conta dessa formação que eu tive, veio a idéia de fazer algo para um publico não-segmentado, culturalmente falando. Por que não fazer uma revista para uma pessoa de gosta de Moby e Judas Priest? Por que não uma revista para falar com gente de cabeça aberta? Apresentei esse projeto à editora em diversas momentos de sua vida e sempre existia um certo temor, até porque iríamos sair da nossa praia de segmentação.

E por que lançar a revista num momento de crise editorial, em que também há uma competição com a internet como fonte de informação?

R.T. – Talvez porque eu tenha insistido muito (risos). E por acreditar no fato de se investir nos momentos de crise. Quanto ao lance da Internet, em nenhum momento pensamos em competir com a velocidade de informação que ela proporciona. Quem entrar no mercado de revistas tentando fazer isso vai se dar mal. Nós pensamos no aprofundamento da notícia. A idéia é que o leitor pegue a Mosh num futuro a médio prazo e tenha ali uma análise do que estava acontecendo, não uma simples menção a um fato. Vamos trocar a velocidade da informação pelo aprofundamento da informação.

Como se chegou a esse projeto editorial? Houve algum tipo de pesquisa entre os leitores em potencial ou se usou a intuição?

R.T. – Aproveitamos as pesquisas feitas em nossas revistas segmentadas para se chegar à conclusão do que seria a Mosh. Numa delas, começamos a inserir pequenos balões de ensaio, do tipo ‘O que você acharia de uma revista que falasse de música de uma maneira mais aberta? Você a compraria? ‘ Por incrível que pareça, e foi algo que nos estimulou bastante, o percentual de leitores das segmentadas que gostariam de ter uma coisa não-segmentada nos deixou satisfeito. Foi uma estratégia meio doida, mas se não fossem as doideras de vez em quando, o homem ainda estaria dentro das cavernas comendo carne crua.

Fale um pouco mais da estrutura da Mosh.

R.T. – Sou o editor-chefe e trabalhamos com uma série de colaboradores. Na maioria, são pessoas que não têm vínculo com a própria editora. Estou apostando em gente nova da mesma forma como fizeram comigo, em 1993. A partir disso minha vida mudou. Quero fazer isso, com outras pessoas. Elas têm um conhecimento musical bacana, mas não encontram espaço em diversas publicações por aí pelo fato de não serem conhecidos. Nas próximas edições teremos colaborações de nomes consagrados como o Sergio Martins, da Veja, o Fernando Naporano, entre outros.

Uma vez com a revista nas bancas, qual foi a repercussão junto ao leitorado?

R.T. – Nos surpreendeu. Não tínhamos a pretensão de obter assinaturas com apenas duas edições lançadas. Logo quando saiu o primeiro número, já obtivemos pedidos de assinaturas. Para nós, é um sinal ainda mais evidente de que a coisa pode ser viável. Você faria assinatura de uma revista logo depois de seu lançamento? Eu não faria.

Se eu gostasse dela, se eu me identificasse com as coisas que ela traz, faria, até porque, caso eu morasse fora do eixo Rio-São Paulo, seria uma forma de garantir meu acesso a ela. Existe a dificuldade para os leitores de outros estados de encontrar revistas independentes de música nas bancas por problemas de distribuição.

R.T. – Pois é, mas por outro lado, contrapondo seu argumento, eu só faria uma assinatura a partir do terceiro número porque eu conheço casos de publicações que não passaram da terceira edição…

É o exemplo da Frente

R.T. – Que tinha uma idéia muito boa. Sinceramente, não sei o que atrapalhou a Frente. Não acredito que tenha sido a parte editorial.

Aconteceu uma série de circunstâncias. Primeiro foi a questão da distribuição. Insisto em que o grande calcanhar-de-Aquiles de publicações independentes é a distribuição. Teve também a questão do CD encartado e não há tradição no Brasil para revistas de músicas com produto casado.

R.T. – Para você ter uma idéia existem revistas japonesas para guitarristas que vêm encartadas com DVD.

Mas lá o custo para o leitor deve ser bem acessível…

R.T. – Se um projeto como esse for trazido para o Brasil isso se viabiliza com patrocínio, com anunciantes….

Por falar nisso, a Mosh é uma revista bem vendida em termos de patrocínio. Nas páginas comerciais temos uma grande cervejaria e um fabricante de aparelhos celulares. Bons anunciantes que não se vêem em outras revistas de música. Como vocês conseguiram tê-los em suas páginas? O que a Mosh tem que as outras não têm?

R.T. – Eu não gostaria de dizer assim nesses termos. Não acho que seja o lance. Seria ingenuidade dizer que as pessoas acreditaram no projeto editorial. Não penso que seja apenas isso. Há uma lacuna no mercado editorial para se falar de música. Uma união de fatores tornou nosso projeto viável comercialmente: nossa proposta editorial, o projeto gráfico que temos e o seu ecletismo também. Sabemos que o mercado publicitário funciona de um modo pré-programado. Lançamos a Mosh numa época em que as verbas já estão decididas no ano anterior. O fato de termos esses anúncios nos surpreendeu por isso. Acredito que o investimento do mercado publicitário na revista vai se acentuar entre o final deste ano e o começo do próximo. Isso poderá acarretar no aumento de páginas editoriais. Para a variedade de assuntos que queremos abordar, temos poucas páginas atualmente. Não é o ideal.

A HMP tem uma estrutura própria para captação de anúncios? Você, fazendo parte da redação, não precisou arregaçar as mangas e bater de porta em porta?

R.T. – Temos departamento comercial. Houve uma época em que coloquei pastinha embaixo do braço e saí por aí nas agências, isso quando éramos uma editora pequena.

A principal reclamação que outros editores de revistas sobre música fazem é a falta de grandes anunciantes. Entrevistei o Luiz Cesar Pimentel, da Zero, que reclamou da falta de sensibilidade das agências de propaganda.

R.T. – Se eu fosse publicitário, anunciaria numa revista como a Zero. Desde que eu soubesse que a distribuição fosse boa e que houvesse uma periodicidade regular…

Isso não criaria um ‘Efeito Tostines’, adaptado para a realidade do mercado editorial?

R.T. – Sei o que você quer dizer. Por isso que te digo que eu não assinaria uma revista logo de cara. Vou me colocar no papel do anunciante: acreditaria numa publicação, até anunciaria, mas gostaria de ver pelo menos dois números. Uma coisa é você receber um projeto editorial no papel, outra coisa é recebê-lo pronto. Não adianta vir com um boneco da revista cheio de fotos, mas com o texto ‘nonononononono’. Não gostaria de anunciar num catálogo fotográfico, quero saber que tipo de conteúdo editorial vai ter. Concordo que exista esse ‘Efeito Tostines’, mas ele ocorre justamente porque vai se colocar dinheiro num negócio no qual se terá manifestação de idéias, de conceitos. Como vou saber se posso associar meu produto, isto pensando como publicitário, num projeto editorial que não eu concorde? Se você uma revista faz apologia ao uso da maconha, ela certamente vai encontrar dificuldades no mercado de publicidade. Eu vi algumas matérias da Zero nas quais eles cometeram esse tipo de patinada. Tem certos detalhes no texto que podem passar despercebidos para o leitor comum, mas não passam para quem mexe com publicidade. Eles vêem com uma visão de raio X muito maior que o leitor. Esse ‘Efeito Tostines’ existe, sim. Cabe a nós que fazemos revistas invertemos essa parada. Se queremos a verba, não temos de adequar nosso produto ao que eles pensam, mas temos de ter credibilidade. É fundamental que se tenha um produto no qual o meio publicitário tenha uma identificação editorial, projeto gráfico, uma série de coisas.

A Mosh tem concorrentes no mercado?

R.T. – Ao contrário do que todos acham, a concorrência é muito legal. A existência de concorrente vale a pena para eu não me sinta acomodado. Não conheço a Hype! Não cheguei a folhear. A Rock Press também não conheço. Do Rio de Janeiro, conheço a International Magazine, que é um bom jornal. Fica difícil para comparar até porque não conheço todas elas. Vi o primeiro número do Laboratório Pop. Achei uma idéia bem interessante, mas que precisa de certos ajustes. Eles colocaram a Bianca Jhordão, da banda Leela, na capa, mas o apelo para isso só pode ser estético. O trabalho dela só é conhecido no underground. Acho legal focar uma publicação para o público underground, mas é um risco muito grande ficar preso a ele.

E quando vocês colocam o Morrissey na capa, qual tipo de público se quer atingir?

R.T. – Eu quero atingir o público que gosta de música. Não saberia dizer qual a parcela do público que ouve Morrissey hoje em dia. A nossa primeira capa foi Pixies. Evidentemente que pensamos em faixas etárias. Quanto fizemos nossas pesquisas, ficou evidente que a Mosh não é para a molecada, nem era nossa proposta no começo. Revistas para a molecada existem aos montes. Nosso público tem uma faixa etária de 27 aos 38 anos, tem um nível sociocultural mais alto. Uma coisa que me deixa muito triste, e falo por experiência própria, é de ver como as pessoas são desinformadas. Mesmo com o advento da internet existe uma parcela de jovens extremamente desinformada sobre qualquer coisa.

Há por aí uma discussão de que para uma revista de música para dar certo, ela tem de falar para um público mais velho…

R.T. – Se você lançar uma publicação não-segmentada, sim. Na verdade, o ecletismo vem com a maturidade e a maturidade vem com o tempo. Pegue um sujeito de 19 anos que gosta de Slayer, e que na cidade onde ele mora é discriminado por ser metaleiro er usar aqueles braceletes. A probabilidade de ele gostar de música eletrônica é zero. A probabilidade de ele gostar de literatura é muito pequena. A probabilidade de ele entender a relação entre as diferentes áreas da cultura também é pequena, infelizmente. Não é o estereótipo, é a idade. Aos 17 anos você tinha uma visão de rock and roll diferente da que tem hoje. O que nos interessa são pessoas com mente aberta, que entendam que seus ídolos não são pessoas inatacáveis. Outro dia, aconteceu um fato comigo que é engraçado e desagradável ao mesmo tempo. Fui meio que peitado por um funcionário de uma loja que freqüento porque eu falei mal dos Engenheiros do Hawaí…

E a velha história de não se saber o que é pior: a banda ou os seus fãs…

R.T. – São os fãs, porque a banda passa por cima disso. Já entrevistei o Humberto Gessinger em várias oportunidades e ele foi um cara muito legal comigo, extremamente articulado, extremamente consciente do que está fazendo, consciente das reações que as pessoas têm e ele não está nem aí para isso. Se dependesse da crítica, os Engenheiros teriam acabado no terceiro disco. Eu fui peitado verbalmente por um fã deles. É para esse tipo de pessoa que a Mosh não serve. Ele me disse que preferia ler a Capricho. Respondi: ‘Ótimo, você é o tipo de público que não queremos’. Esse episódio ilustra bem. Não vamos escrever para esse público radical, que defende seus ídolos como semideuses.

A revista tem como característica fazer listas, como os 50 piores discos, as 50 piores musicas etc., tal como o escritor Nick Hornby no seu livro Alta Fidelidade. Isso ocorre no caso da Mosh porque se chegou a um limite criativo na música, daí esse caráter retrospectivo?

R.T. – Essa coisa das listas remete à década de 70. Quase todas as revistas fazem listas de final de ano. Para se criar algo rigorosamente novo hoje, sem existir alguma influência, é impossível. O futuro da música pop está na maneira como se colocam os ingredientes no liquidificador, bate tudo e serve. Não há como se dizer que exista algo 100% original. Quanto às listas, elas existem desde sempre. O mérito do Nick Hornby, que você citou, foi tirar a coisa do fim de ano e trazer para o dia-a-dia. Quem gosta de música já faz isso inconscientemente. Ele colocou na literatura algo que as pessoas fazem particularmente. O grande mérito da literatura é pegar uma coisa besta do cotidiano e transformar em arte. Quando começamos o projeto da revista propus que fizéssemos isso em todas as edições, mas sem cair no óbvio. Seria muito certinho ficarmos fazendo listas de melhores capas, melhores discos, etc. A idéia é subverter essa ordem. Nossa pretensão é combater um certo ‘bundamolismo’ vigente na imprensa musical.

Que tipo de ‘bundamolismo’?

R.T. – Eu vejo isso expresso no momento em que vou assistir a gravação de um Acústico MTV da Cássia Eller, por exemplo, e depois pergunto a um colega meu: ‘E aí, você gostou?’. Daí, ele me responde: ‘Você quer que eu te diga a minha opinião particular ou a opinião que vai sair no jornal?’ Perguntei qual era a opinião dele. ‘Achei chato’, disse. No dia seguinte, abre-se o jornal e ele escreve assim: ‘Acústico de Cássia Eller é um manifesto de sutileza etc’. Infelizmente existe o lance de se sair da redação com uma opinião positiva de algo que ainda nem foi visto.

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Colaborador dos sítios LabPop, Ruídos, Papo de Bola e Rádio Brasil 2000 FM-SP; blog pessoal: (http://onzenet.blogspot.com)

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