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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & MEMÓRIA

Para não esquecer a ditadura

Por Guilherme Cardoso em 27/05/2008 na edição 487

Vez ou outra a gente lê, ouve ou vê alguém fazer críticas às torturas ou desqualificar fatos e pessoas que, direta ou indiretamente, militaram contra a ditadura militar no Brasil. São perseguições ideológicas contra diversos combatentes e anistiados que receberam indenizações do governo, como recentemente aconteceu com o Jaguar e o Ziraldo. Acrescente-se a isso, a pergunta debochada do senador José Agripino (RN) dirigida à ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, insinuando ter ela mentido sob tortura na ditadura.

Quem assim age, está colocando em dúvida os atos de torturas sofridos por aqueles que estiveram no front da resistência ao regime de exceção de 64 a 85. Com certeza são jovens, nem nascidos à época, que estavam do outro lado, ou então, como muitos cidadãos brasileiros, não se envolviam em nada, alienados dos problemas políticos que o Brasil atravessava.

A data de 31 de março deveria sempre ser lembrada. Não com festas, parada militar. Com respeito e reverência, como os judeus recordam o holocausto, os horrores da II Guerra. Nas escolas e universidades, deveriam haver palestras, recontar às crianças, aos jovens e adultos tudo o que realmente aconteceu naquele período negro da história brasileira. Os sinos das igrejas deveriam repicar e até as pessoas deveriam ficar estáticas nas ruas, por um minuto apenas, para reverenciar os mortos e os tristes momentos que viveram gerações passadas. Não é cafonice, não!

Sem advogado nem hábeas corpus

O que não se pode é destruir pessoas, esquecer a tortura, passar uma borracha no passado, simplesmente ignorar a ditadura, dizer que é puro saudosismo, e que 1968 foi um ano qualquer, não mudou nada no mundo, ou sequer provocou. Como tem sido debatido pela mídia nos últimos dias.

Agora, é muito fácil desqualificar Caetano, Gil e Ziraldo, Chico Buarque, Gabeira e Dilma, e dizer que nunca foram revolucionários, sequer militantes, apenas artistas, políticos e muito espertos.

É preciso estar atento, não descuidar, porque daqui a pouco, com a velocidade do tempo e da tecnologia, vai aparecer gente dizendo que nunca houve esta tal de ditadura, que tudo não passou de brincadeira, impulsos da juventude. Como revolução, sim, 64 foi uma farsa, não houve transformação alguma. Apenas um golpe e censura, muita perseguição, tortura, mortes e desaparecimentos.

Sempre que for possível, deve-se recordar para os mais novos que a ditadura não existiu apenas por um só dia. Foram nada menos que 20 anos de horrores, de perseguições, denúncias, prisões, torturas e mortes. Quem cismava em questionar alguma norma ou proibição, era taxado de comunista e tinha seus passos vigiados. Bastava um deslize qualquer e o sujeito ia preso. Sem direito a advogado nem a hábeas corpus.

Donos do poder

Era um tempo de medos, os piores que se pode imaginar. Falta de liberdade, prisões, ameaças, denúncias vazias. De repente, o morador do lado cismava com o vizinho, às vezes por um som alto, uma briga de crianças, ligava para o Dops, dizia que ele era um terrorista e pronto, o sujeito estava preso, às vezes torturado, outras, desaparecido.

Esta imprensa de hoje, que às vezes critica e desmerece os combatentes e anistiados da ditadura militar, é a mesma dos anos 60, e tem muita gente que nela ainda trabalha e opina e que teve participação ativa nos dois lados do regime. Alguns, ficaram contra os ditadores de plantão, perderam empregos, foram presos, desapareceram. Outros, e muitos, preferiram a segurança, o conforto, escolheram o caminho do poder. Como recompensa, os altos cargos, os bons salários, as verbas publicitárias e as concessões de rádios e televisões. Agora, são os donos do poder.

E ai de quem for contra eles.

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Jornalista, Belo Horizonte, MG

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