Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > MEMÓRIAS & HISTÓRIAS

Passaporte para São Paulo

Por Ruy Castro em 19/10/2010 na edição 612

O repórter – ridiculamente jovem, orelhas em pé, os óculos quase na ponta do nariz – escuta Nelson Rodrigues pontificar sobre algum assunto além da vida e da morte. À frente deles, bifes com fritas. O mestre está dizendo: ‘O homem só gosta do que comeu em criança.’ Chama o garçom: ‘Traz uma Lindoya – sem gelo. Olha: capricha.’ E emenda: ‘Eu escrevo para um leitor ideal, absoluto e utópico. Um leitor que não existe.’

O ano é 1977; o cenário, a Taberna Atlântica, no Rio. Poucos dias antes, eu recebera um telefonema de Maria Ignez França, chefe de Redação da revista Mais, da Editora Três, de São Paulo, pedindo uma entrevista com Nelson. O que me surpreendera por dois motivos:

1. Não estava acontecendo nada de novo com Nelson. Nenhum livro, peça ou polêmica. Depois de décadas de combate, em que as pessoas o adoravam ou detestavam, o cansaço parecera se abater sobre todo mundo, os fãs e os inimigos. Em 1977, Nelson era sério candidato ao limbo. Não importava. Maria Ignez queria uma matéria com ele.

2. Eu não conhecia Maria Ignez, nunca lera a Mais e, já há dez anos na praça, era a primeira vez que a imprensa paulistana me pedia uma colaboração. Aceitei a tarefa, consegui o telefone de Nelson e marcamos um encontro para o sábado seguinte. A Taberna Atlântica era vizinha de seu apartamento, no Leme, de frente para o mar. Eu acabara de sair do JB e voltara a escrever no Pasquim, antigo território anti-Nelson.

As frases de Nelson

Ele não me reconheceu, mas, entre 1970 e 1972, eu o via com frequência no apartamento de um amigo comum, o jornalista José Lino Grünewald, cuja open house em Copacabana podia reunir, numa noite, o poeta Décio Pignatari, o linguista russo Roman Jakobson ou o cineasta Fritz Lang, de passagem pelo Rio, e outros desse tope – e, na noite seguinte, Nelson, o cantor Mario Reis, jornalistas como Paulo Francis, Armando Nogueira e Pedro do Couto, um empresário, uma grã-fina etc. Quando Nelson chegava, não importava quem lá estivesse, a reunião transferia-se para ele. Recém-egresso dos juniores naquela confraria, eu estava ali para ouvir, não para falar. Como, aliás, quase todo mundo diante dele.

Silêncio que transportava para os almoços semanais que os amigos de Nelson lhe ofereciam no restaurante ‘O Bigode do Meu Tio’, de seu filho Joffre, na Tijuca. Naquela mesa com mais de 20 pessoas, eu não era o único a apenas escutar – Nelson tinha seus interlocutores favoritos, como o jornalista Hans Henningsen, o ‘Marinheiro sueco’, que às vezes oferecia pagar pela mesa toda e Nelson o chamava de ‘Onassis de tanga’. Ali nasceram várias de suas frases, entre as quais uma sobre Chico Buarque – que Nelson admirava, até que Chico o atacou numa entrevista. Alguém na mesa se referiu à ‘profundidade’ das letras do compositor, e Nelson disparou: ‘A profundidade do Chico Buarque é dessas que uma formiguinha atravessa a pé, com água pelas canelas.’

Na imprensa de São Paulo

Finalmente, anos depois, na Taberna Atlântica, eu estava a sós com Nelson por uma tarde inteira. A entrevista saiu e, a convite de Maria Ignez, tornei-me colaborador regular da Mais. Foi meu passaporte para São Paulo. Outras revistas da Editora Três, como Status e a jovem IstoÉ, começaram a me pedir matéria e, quando me dei conta, boa parte da minha produção estava sendo dirigida para a imprensa paulistana. Em fins de 1978, fui convidado a deixar o Rio para ser editor de cultura da IstoÉ, em São Paulo. Peguei mulher e filhas e aportei na cidade, pensando em passar três anos. Passei 16, atravessando cinco empregos, sete endereços diferentes e um segundo casamento. E nem imaginava que, um dia, aquele já remoto encontro com Nelson ecoaria num livro: O Anjo Pornográfico – A Vida de Nelson Rodrigues (Cia. das Letras).

Não fui o único jornalista do Rio a estrear na imprensa paulistana a convite de Maria Ignez. Anos antes, e para a mesma Mais, ela já pedira uma colaboração a outro repórter carioca, então autoexilado em Nova York e a fim de trabalhar – nosso amigo Paulo Francis.

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Jornalista e escritor

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