Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > PAN NA MÍDIA

Patriotada da imprensa marca início dos jogos

Por Alberto Dines em 17/07/2007 na edição 442

A raiz grega pân-pantós, que tem o sentido de unidade-totalidade, além do prefixo genérico (pan-americano, pan-europeu etc), gerou uma série de sonoros vocábulos: panteísmo, panacéia, pânico, pandemônio, panteão, panegírico e pandemia. Com a decidida ajuda da mídia este Pan 2007 pode acabar como sinônimo de patriotada, mesmo sem relação etimológica.


Como a primeira jornada da olimpíada continental não foi grande coisa para a delegação canarinha (o país estava em sexto lugar na manhã de domingo e em sétimo na manhã seguinte) e como a derrotada na Copa América foi a Argentina, valia tudo, até desvarios xenófobos.


Manchete de segunda-feira do Globo: ‘Brasil humilha a Argentina e é bi’. A Folha, irreconhecível: ‘Brasil – vence Copa América, ganhou ouro no Pan e é imbatível no volei’. E na capa do caderno de esportes, a garotada vestiu a roupa de torcida organizada e soltou o grito de guerra: ‘Porrada’. Referiam-se a vitória do 3 a 0 contra a ‘favorita’ Argentina e à medalha de ouro conquistada pelo Brasil no taekwendo, a única até o momento (1h de 17/7).


No Estadão a prudência foi substituída pela exaltação: ‘Nunca menosprezem o futebol brasileiro’. O mancheteiro de plantão evidentemente esqueceu o acontecido na Alemanha em 2006. Coisa de domingos à tarde e redações vazias.


A verdade é que 24 horas depois deste show de ufanismo futebolístico, esta terça (17/7) amanheceu com o Brasil em 9º lugar, humilhado pela Argentina em 8º, República Dominicana em 7º, Venezuela em 6º, México em 5º e Colômbia em 4º.


O Jornal Nacional de segunda-feira parecia Paraíso Tropical, simbiose perfeita entre jornalismo-espetáculo e espetáculo-espetáculo: os irmãos esgrimistas vertendo copiosas lágrimas ao lado da mãe, a ginasta Jade Barbosa dando um show e perdendo na última exibição.


Felizmente o conceito de mídia-animadora-de-eventos está circunscrito aos esportes. Pior seria se mesmo procedimento fosse utilizado na cobertura política.


Em tempo: o Brasil ganhou na manhã desta terça-feira mais duas medalhas de ouro, saltando para a sexta colocação no ranking, com o mesmo número de ouro que a Argentina. Mas atrás da Colômbia e México…  


 

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/07/2007 Henrique Maia

    Concordo. Essa patriotada nas transmissões esportivas é de embrulhar o estômago.

  2. Comentou em 17/07/2007 Ivan Moraes

    Lau aas 3:05: perfeito! O esporte continua sendo inesgotavel fonte de manipulacao de massas.

  3. Comentou em 17/07/2007 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Concordo itnegralmente. Aliás, o único PAN que a esmagadora maioria dos cariocas só conhece o ‘pan, pan, pan’ dos policiais batendo na lateral das viaturas quando sobem os morros para fazer cadáveres (uma modalidade esportiva que agradaria qualquer nazista). Cuba é mais pobre, menos desenvolvida, menos populosa, tem uma economia menor e mais simples, tem menos universidades, menos complexos esportivos modernos, menos dinheiro para investir no esporte do que o Brasil. Entretanto, tem muito mais medalhas do que o Brasil em PANs e Olimpíadas. Porque será? Não sou nem comunista, nem socialista, nem tampouco admirador de Fidel. Mas os fatos estão aí. Em matéria de esporte Cuba é um sucesso e o Brasil uma ilha de atrazo. Mas é claro que as redes de TV estão a fazer louvações mil para nossas mínimas medalhas. Às vezes acho que o Brasil precisa de menos propaganda oficial e oficiosa. Enquanto encobrirmos nossos FRACASSOS com PROPAGANDA (à moda do Dr. Goebels) continuaremos a ser objeto de riso lá fora e auto-engano aqui dentro. VOCÊ ESTÁ DE PARABÉNS E MERECE UMA MEDALHA DE OURO JORNALISTICA.

  4. Comentou em 17/07/2007 Fernando Guimaraes

    Acabei de assistir aos três noticiários vespertinos da TV Globo – RJ TV, Globo Esporte e Jornal Hoje. A impressão que se tem é que o Brasil disputa o Pan contra o ‘resto’ – não importa os adversários o importante é cantar loas ao Brasil. Quase não há matérias sobre as outras equipes (a exceção de hoje foi uma matéria do ótimo Edney Sylvestre com o time femnino de hoquei sobre grama argentino), como se não houvesse nada a comentar sobre as dezenas de delegações presentaes nos Jogos. Apenas notícias sobre o Brasil (atletas, técnicos, mãe de atletas, torcedores, autoridades), em tom absolutamente ufanista no ‘melhor’ estilo ‘galvãobuenico’. Chegam a informar medalhas de bronze do Brasil sem fazer qualquer referência aos primeiros colocados. Tudo pela audiência. Embora sejam produzidos pela Central Globo de Jornalismo, esses programas podem ser chamados de qualquer coisa, menos de informativos.

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