Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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Pautas que não podem esperar

Por Washington Araujo em 23/06/2009 na edição 543

Enquanto a imprensa fica remoendo temores quanto ao blog da Petrobras (o Petroblog), ora insistindo que é uma interferência indevida, ilegal e irresponsável contra o trabalho dos jornalistas, ora que se trata de uma maneira de eliminar a possibilidade de ‘furos’ deste ou daquele meio de comunicação ao produzir uma matéria sobre a Petrobras, o que se configura, segundo alguns editores de jornais, ‘uma postura antiética’ por parte da empresa petrolífera, o fato é que o Petroblog se firma, abre uma discussão que parece não ter fim e mostra a que veio: impedir que a edição de seus informes à mídia sejam torcidos, retorcidos, descontextualizados, ignorados enfim.

Em momento contínuo temos o plantão rotineiro do resgate dos corpos no Atlântico vitimados com o desastre do voo da Air France AF447, na madrugada do dia 1 de junho de 2009. Até este momento observou-se um festival de informações desencontradas: a imprensa divulgou nomes errados dos passageiros, enganou-se no número de vítimas, ouviu especialistas de última hora deitando falação sobre as possíveis causas do desastre aéreo e alguns apresentadores de televisão transmutaram-se em especialistas no assunto para dissecar o que realmente teria ocorrido.

Tudo especulação, desinformação, oportunismo para cativar uma audiência chocada ante o impacto da tragédia, muito improvável e acima de qualquer expectativa já que se tratava de uma aeronave top de linha, com menos que cinco anos de uso. Um desses apresentadores, o notório José Luiz Datena, da Band, chegou a dizer no auge da euforia que o avião despencara no mar após estar em uma altitude de 11.000 km. Obviamente estava pouco ligando para a distância real entre 1 metro e 1 quilômetro.

Politização das tragédias

No meio tempo observamos formas canhestras de politizar a tragédia quando um dos maiores jornais titula matéria comparando a reação pós-tragédia tanto do presidente da França – que foi ao aeroporto Charles de Gaulle emprestar solidariedade aos parentes das vítimas – quanto o do Brasil, que em viagem ao exterior, embora não destacado no texto, que enviou ao Aeroporto Tom Jobim seu vice-presidente com idêntica missão.

Em meio a essas pautas, esticadas ao limite, a cena internacional vive momentos de real tensão: testes nucleares na Coreia do Norte. Não apenas um, mais dois, três testes não importando anunciadas sanções com bloqueio econômico por países do G-8, os mais articulados, desenvolvidos e ricos do planeta.

Falando em armas nucleares permanecem as tensões entre Paquistão e Índia, entre Israel e Irã. E no meio dessa barafunda proliferam desencontradas informações sobre as eleições presidenciais no Irã. Cujo governo continua mantendo na temida prisão de Evin os setes líderes bahá ís presos há um ano e sem o devido processo legal. A esses cidadãos continua negado o mais elementar procedimento jurídico: o acesso de seus advogados a seus constituintes.

À margem, como a pontuar o zeitgeist (espírito da época, em português), vivenciamos um tempo prenhe de promessas para o futuro e coalhado de tensões magnificadas pela constatação que proliferam países a ter acesso à tecnologia nuclear. Há que se pautar temas que digam respeito aos interesses maiores da humanidade. E pensar em uma estratégia capaz de levar a população do mundo a assumir responsabilidade por seu destino coletivo deve ser a consciência da unidade da humanidade.

Enganosamente simples no discurso popular, o conceito de que a humanidade constitui um único povo apresenta desafios fundamentais para o modo como a maioria das instituições da sociedade contemporânea cumpre suas funções. Quer sob a forma da estrutura antagonistica dos governos civis, ou do princípio defensivo que rege grande parte do Direito Civil, ou da glorificação da luta de classes e entre outros grupos sociais, ou do espírito competitivo que domina uma parte tão grande da vida moderna, o conflito é aceito como a mola-mestra da interação humana. Ele representa, além disso, uma outra expressão, na organização social, da interpretação materialista da vida que se consolidou progressivamente no decorrer dos dois últimos séculos.

Religião e diversidade

Não é à toa que nas livrarias e bancas de jornais abundam livros, audiolivros, vídeos e cursos sobre sobre filosofia e, quer sob a chancela da autoajuda quer sob o macrotema de religiões orientais, constata-se uma sede de conhecimentos que ultrapassa e muito as fronteira do conhecimento utilitarista. É que a muito custo começamos a perceber que a sociedade humana não é composta de uma massa de simples células diferenciadas e sim de associações de indivíduos, cada um dos quais dotado de inteligência e vontade; no entanto, os modos de funcionamento que caracterizam a natureza biológica do ser humano ilustram os princípios fundamentais da vida. O principal deles é o da unidade na diversidade. Paradoxalmente, é precisamente a totalidade e complexidade da ordem que constitui o corpo humano – e a perfeita integração das células do corpo a essa ordem – que permite a plena realização das capacidades distintivas inerentes a cada um desses elementos componentes.

Nenhuma célula vive separada do corpo, seja contribuindo para o seu funcionamento, seja derivando sua parte do bem-estar do todo. O bem-estar físico assim alcançado encontra seu propósito quando torna possível a expressão da consciência humana; ou seja, o propósito do desenvolvimento biológico transcende a mera existência do corpo e de suas partes. O que é verdadeiro para a vida do indivíduo encontra paralelos na sociedade humana. A espécie humana é um todo orgânico, o coroamento do processo evolucionário. O fato de a consciência humana necessariamente funcionar através de uma infinita diversidade de idéias e motivações individuais não nega, de modo algum, sua unidade essencial.

Com efeito, é precisamente essa diversidade inerente que faz a distinção entre a unidade e a homogeneidade ou uniformidade. O que os povos do mundo estão hoje experimentando é a sua entrada coletiva na maioridade, e é através dessa emergente maturidade da raça humana que o princípio da unidade na diversidade irá encontrar sua plena expressão.

Transformação necessária

A partir de seus primeiros passos no sentido da consolidação da vida familiar, o processo de organização social foi passando sucessivamente das estruturas simples do clã e da tribo, para múltiplas formas de sociedade urbana, chegando afinal à emergência do Estado Nacional – cada um desses estágios revelando uma riqueza de novas oportunidades para o exercício das aptidões humanas. Está bem claro que o avanço da espécie não ocorreu às custas da individualidade humana. À medida que aumentava o nível de organização social, expandia-se, na mesma proporção, o campo de ação para a expressão das capacidades latentes em cada ser humano. Uma vez que as relações entre o indivíduo e a sociedade são recíprocas, a transformação que hoje se faz necessária deve ocorrer simultaneamente no interior da consciência humana e na estrutura das instituições sociais. É nas oportunidades oferecidas por essas duas facetas do processo de mudança que uma estratégia de desenvolvimento global irá encontrar seu propósito.

Neste estágio crucial da história, tal propósito deve ser o de estabelecer alicerces duradouros sobre os quais uma civilização planetária possa gradualmente tomar forma. Lançar os fundamentos básicos para uma civilização global exige a criação de leis e instituições que sejam universais tanto em seu caráter quanto em sua autoridade.

Esse esforço só poderá começar depois que o conceito da unidade da humanidade tiver sido sinceramente apreendido por aqueles em cujas mãos repousa a responsabilidade pela tomada de decisões, e quando os princípios correlatos tiverem se propagado pelos sistemas educacionais e meios de comunicação de massa. Uma vez transposto esse limiar, um processo terá sido colocado em marcha através do qual os povos do mundo serão atraídos para a tarefa de formularem objetivos comuns e se comprometerem a alcançá-los. Por outro lado, somente uma reorientação tão fundamental poderá protegê-los dos antigos demônios da luta étnica e religiosa. Somente através do despertar da consciência de que constituem um único povo é que os habitantes deste planeta se tornarão capazes de se afastar dos padrões de conflito que no passado dominaram a organização social e começar a aprender os caminhos da colaboração e conciliação.

Paro por aqui. Entendo que seria extrema ingenuidade minha (e não posso me dar a este luxo) esperar que os pensamentos acima esboçados chamem a atenção de nossos editores, redatores, jornalistas. Mas não resisti à tentação de apresentar novas pautas, novas idéias para debate, novas percepções do momento que atravessamos. E o novo não se impõe por obra unicamente do acaso. Há que repercutir nos meios midiáticos. Existem pautas que criamos – a maioria delas. E existem igualmente pautas que se impõem: é que há um compromisso para além do individualismo e dos interesses imediatistas. É que há um compromisso com esta e futuras gerações. E não podem esperar.

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Mestre em comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundo

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