Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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Pegaram Judas pra Cristo

27/10/2009 na edição 561

Ah, as metáforas…

Sabe como é, faz-se delas o que quiser. Os malandros preferem lê-las no sentido literal. A dos ‘brancos dos olhos azuis’, por exemplo. A direita está sem discurso, Serra não tem um projeto. PSDB e DEM já começam a se estranhar – não que o DEM tenha um candidato próprio, mas não acredita na viabilidade do próprio candidato, o Serra, e pede Aécio. Aécio, exausto, daqui a pouco pede a toalha.

Mas vamos às metáforas. A Folha chama Lula às falas, conversa daqui, cutuca dali, soltam um Serra. Lula diz que ninguém se interessa pelo que diz esse senhor. Mas a Folha mostra que ela se interessa e tasca uma outra colocação de Serra, como se fosse uma pergunta enviada em um papelzinho e que o repórter tinha que enfiá-la na entrevista.

Kennedy Alencar suou e já ia jogar a toalha, mas eis que veio uma metáfora: Jesus e Judas. Ah, agora sim, pegamos ele. Dia seguinte, nada se soube sobre o teor da entrevista, só se falava em Judas e Jesus. Arthur Virgílio (o que surraria Lula e foi surrado nas eleições) disse que Lula mimetizava o próprio Cristo e que isso era uma blasfêmia.

O ateu FHC também levou a metáfora no sentido literal e sentenciou: ‘Não foi isso que a gente aprendeu na escola, nas aulas de religião.’ Hahahahahahaha. Roberto Freire, outro ateu, disse que Lula da Silva chegou ao ‘cúmulo de justificar suas alianças escusas colocando Jesus e Judas em conluio’. Alianças escusas, diz o ex-comunista, Judas e Jesus, diz o ex-comunista, Freire também deve ter aprendido sobre Judas e Jesus na mesma escola de FHC, a escola dos caras-de-pau.

Beneficiado pela delação premiada

A CNBB foi chamada e deveria dizer ‘ora, deixem disso, Lula não falava no Cristo histórico e nem no Cristo bíblico, usou uma metáfora somente’. Uma vez que metáfora, como todos sabemos, é um recurso de estilo onde se usa uma expressão dando a ela um outro sentido, um sentido figurado. Mas FHC e Freire leram a bíblia na escola e a CNBB não foi à escola nas aulas de português sobre metáforas e metonímias. Parece que todos estavam entorpecidos por um certo tipo de ácido crístico.

O que deixou todos meio loucos não foi Cristo nem foi o pérfido Iscariotes; foi a figura de Antônio Conselheiro que Lula parecia luzir dentro daquele curso de concreto, com um céu azul por cima e uma imensidão vazia e árida em sua volta (o Ser Tão vai vir amar). Os homens de pouca fé sentiram-se apequenados. Serra se viu imerso na lama fétida do rio que emporcalha a cidade. Marina Silva se viu com uma enorme cabeça de bagre. Aécio lembrou-se dos dejetos que joga no Velho Chico. Cristovam, ao ver o curso sinuoso do novo rio, percebeu que Deus escreve certo por linhas tortas.

Mais uma vez chamaram Marina Silva pra falar mal do Lula. Até quando essa senhora vai fazer esse papel ridículo? A mídia a cozinha em banho-Marina. Sempre que podem, sacam-na da algibeira; ou é ela ou é o Gilmar Mendes.

No final das contas nada ficamos sabendo sobre Judas e nada soubemos sobre a entrevista de Lula à Folha. A entrevista ainda está disponível. Mas, para quem não sabe, Judas Iscariotes foi o primeiro malandro beneficiado pelo recurso da delação premiada. Entregou o chefe, foi absolvido e ainda levou um saco de moedas.

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Jornalista, Brasília, DF

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