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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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ENTRE ASPAS > OLIMPÍADAS 2008

Pequim mostrou que o Brasil precisa de educação

Por Marinilda Carvalho em 02/09/2008 na edição 501

Artigo de Odir Cunha [‘Pequim mostrou que o Brasil evoluiu‘] publicado neste Observatório e alvo de dezenas de comentários, acertou e errou, na minha humilde opinião. É que foram tantos os temas tratados que ficou difícil ‘cravar’ em todos. Vou falar de alguns. Primeiro, o nível geral da imprensa esportiva brasileira é mesmo de doer. A exceção continua sendo a ESPN Brasil, com seus ‘rabugentos’ de plantão. Não que o Sportv não tenha se saído bem, saiu-se muito bem. Mas a cobertura da ESPN tem geralmente algo a mais, além de conhecimento de esporte, mesmo com menos canais, com equipe menor, com imagem pior… eles sempre dão um jeito de brilhar, furar a concorrência – que pauteiro! –, contextualizar melhor.


(Um parêntese: todos os canais abusaram da propaganda. Torrou a paciência a contínua interrupção para publicidade. OK, o Comitê Olímpico Internacional cobra os tubos pelos direitos, o que obriga as emissoras a dividirem o valor por muitos anunciantes. Mas foi demais! E a insuportável janelinha para ver parente de atleta pulando em casa? Todos macaquearam essa péssima idéia da Globo. O Sportv abusou também da janelinha para atrações em outro canal. Para que então tanto canal? Se o assinante optava por assistir a uma modalidade, por que empurrar-lhe o que rolava alhures? Não bastavam os chatíssimos alertas no pé da tela? Quem quisesse mudava, ora! Alguns narradores nem escondiam a irritação.)


Resultados apontam para o futuro


Voltando ao texto de Odir Cunha, a ESPN comentou melhor, por exemplo, a final do vôlei masculino, Brasil x Estados Unidos, a derrota mais chorada por esta torcedora, mesmo sabendo que sem o levantador Ricardinho seria quase impossível vencer. Coisa que, aliás, nenhum comentarista ousou dizer para não ferir os sentimentos de Marcelinho. Deveriam: sem Ricardinho, somos uma seleção como outra qualquer, talentosa e forte, e ele faz a diferença. Pois antes da partida, narrador e comentarista da ESPN não passaram qualquer euforia pelo ouro ao assinante. E foi Maurício Jahu que proporcionou o argumento de maior consolo ao analisar o resultado: ele disse que o Brasil chegou até muito longe em Pequim pela atuação irregular numa chave muito mais fácil que a dos americanos – invictos numa chave pesada. Foram melhores mesmo e ponto final.


Odir também acerta quando fala do maravilhoso quarto lugar nos dois revezamentos 4×100 do Brasil. Essa é uma retomada importante do atletismo brasileiro e merecia mais debates em nossa imprensa esportiva, que praticamente ignorou o feito, assim como deu pouca bola ao 4º lugar de Thiago Pereira nos 200 medley, façanha que nem nosso medalhado recordista Ricardo Prado alcançou. São resultados que apontam para o futuro, em vez de nos deixar chorando pelo passado. Com mais apoio, mais treino ou seja lá o que lhes falta, esses atletas podem mesmo chegar a medalhas.


Caso Cuba: dinheiro acabou


Contudo, o atletismo teve, sim, fracassos consideráveis, como nas maratonas ou no salto masculino. Os resultados dessas modalidades deveriam ser mais estudados. O salto com vara, por exemplo, foi emblemático: nosso competidor perdeu as tentativas de forma bisonha, logo ele, que no Pan saltou debaixo de temporal com sucesso. No salto em distância, ficamos aquém do que podíamos.


Mas a Jamaica não ganhou medalhas fortuitamente. Depois que vários de seus filhos conquistaram o ouro olímpico sob outras bandeiras, naturalizados americanos ou canadenses, as autoridades esportivas acordaram e passaram a caçar velocistas nas escolas primárias. Deu certo: surgiram maravilhas como Asafa Powell e Usain Bolt, para citar os mais famosos, que hoje correm com a camiseta amarela de seu país. Outros surgirão. É o modelo jamaicano de política esportiva, copiado talvez dos países africanos com seus fundistas. E é válido. Pelo menos conseguem reter seus atletas.


O caso de Cuba é diferente. O esporte olímpico entrou em decadência porque o dinheiro acabou. É o embargo, sim, gente boa. Certo, foi o fim da União Soviética – e qual o crime em ter ajudado uma ilha esmagada pelos Estados Unidos? –, mas também a riqueza da Itália, que levou a grande Agüero do vôlei. É a cobiça das máfias do pugilismo, de Miami a Berlim, que arrastou os jovens para o profissionalismo. Boa parte das medalhas cubanas vinha do boxe (em Atenas-2004 foram cinco), mas com as deserções em massa o país perdeu seus campeões.


Aqui, dinheiro não faltou


Fazer o quê? Mesmo assim, os meninos da reserva, com 10 meses de treino, chegaram a oito semifinais e a quatro finais. Um feito e tanto! Fora as três pratas no judô, uma no ciclismo, duas no atletismo (lançamento de disco e martelo), uma no beisebol. E bronze em tiro de carabina, salto em distância, decatlo, taekwondo, judô (3). Um total de 28 medalhas para uma ilhota, convenhamos, é bem melhor do que o Brasil, com 15. Só ficamos à frente por um ourinho – Cuba levou ouro em luta greco-romana e 110m com barreiras – e não temos por que nos orgulhar disso.


Longe de se reduzir a mera propaganda, a prática esportiva desde a infância integra a política social cubana, que investe no tripé educação, saúde e esporte. Queiram seus críticos ou não. Só que sem dinheiro não dá. Vimos pela ESPN Brasil, com o coração apertado, quadras e pistas deterioradas, quadras e pistas que eram um primor de cuidado. Tudo se refletiu amargamente na auto-estima dos atletas cubanos. Eles mesmos falaram disso em várias entrevistas aos repórteres da ESPN.


O editor Helvídio Mattos encontrou num elevador uma técnica cubana e perguntou se viriam mais medalhas. Com expressão resignada, ela disse: ‘Bah, depois do vôlei…’, referindo-se à perda do bronze para a China, campeã olímpica em Atenas e hoje decadente. Perderam até a final do beisebol para a Coréia do Sul! Paciência, num oceano de dificuldades a ilha segue lutando pela sobrevivência. E aqui? Dinheiro não faltou, faltou foi resultado, sim, mesmo se considerarmos os avanços citados pelo Odir.


Sistema híbrido


E para melhorar? Precisamos mesmo de mais psicólogos, como pediu a imprensa ‘torcedora’, a ponto de convencer o Comitê Olímpico? Um psicólogo ajudaria a maratonista Marily dos Santos a correr melhor com o uniforme do colega Franck Caldera – porque o Comitê Olímpico esqueceu de providenciar sua roupa? Um psicólogo ajudaria Marilson Santos e o próprio Franck a completarem a maratona, ou sua preparação foi feita em lugar errado? Com um psicólogo, Fabiana Murer verificaria bem antes da hora do salto se sua vara estava no lugar certo? Talvez ajudasse Jadel Gregório a aceitar orientação técnica…


Todas essas falhas a imprensa mencionou, mas poucos correram atrás das respostas para que a gente aponte exatamente o que falta. Certamente, falta um trabalho de educação e cultura com os atletas, desde que eles começam a vestir a camisa da seleção. E falta planejamento de longo prazo, sim, mas segmentado, que tal?


Um dos momentos mais interessantes da cobertura olímpica foi justamente uma sugestão do jornalista José Trajano, da ESPN Brasil, às autoridades esportivas: já que a esta altura é impossível um modelo único de política pública esportiva, pelas dimensões e desigualdades do país, poderíamos optar por um sistema híbrido. Nas regiões mais carentes, o modelo cubano, que equiparia escolas e deslocaria técnicos e especialistas para módulos regionais de referência, que centralizariam a descoberta e o desenvolvimento de talentos mirins, especialmente no atletismo. Nas cidades médias e grandes, para algumas modalidades seguiríamos o modelo americano, a partir dos colégios e das universidades; e, para outras, nosso próprio modelo, com foco nos clubes. Muito viável.


No Brasil das novelas


Por fim, atribuir ao torcedor a responsabilidade por resultados melhores não me parece razoável. Odir afirma que a ‘triste realidade é que somos um país de analfabetos em cultura esportiva e a maioria dos jornalistas ‘especializados em esporte’ não foge à regra’. Acho que somos, simplesmente, um país de analfabetos. Falta educação. Básica, geral, ampliada.


Se os países educados não levam todas as medalhas, não é problema nosso: talvez não sejam competitivos, sorte deles. Nosso problema é que queremos atletas competitivos, mas não cobramos educação. Sem a educação, o atleta grava no cérebro a cobrança, mas fala mais alto a baixa auto-estima. Foi duro ver o magnífico Eduardo Santos pedindo desculpas por não ter derrotado seu último oponente, logo ele que derrubou vários por ippon. Ou ouvir a bravíssima Marily dizer que a culpa pela falta do uniforme pode ter sido dela, que não pediu ‘direito’. Deu vontade de sair batendo nos cartolas.


Só a educação salva – atletas e torcedores. Enquanto escrevo (manhã de sábado, 30/8), acompanho na TV partida de alto nível, Pinheiros x São Bernardo, pela Liga Masculina de Vôlei: ginásio vazio numa modalidade que lota arquibancadas. Imaginem os esportes menos populares… Tirar o povo de casa para ver esporte – ou teatro, ou cinema, ou museu, ou biblioteca, como mostrou a etapa de Zurique da Golden League de Atletismo –, é tarefa hercúlea que requer décadas de educação e cultura neste Brasil das novelas. Essa é a cobrança nuclear que cabe à imprensa, à esportiva inclusive, com sua função social intransferível, ou continuaremos tristes depois de cada Olimpíada. Muitos, como eu, vendo nosso povo tão carente de educação, somos tristes o tempo todo.

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Jornalista, Rio de Janeiro, RJ

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