Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > CASO ISABELLA

Perguntas óbvias, cobertura exagerada

Por Ivana Barreto em 27/05/2008 na edição 487

E o Dia das Mães, Ana Carolina? Perguntar à mãe da menina Isabella Oliveira Nardoni como ela se sentirá no Dia das Mães, além de questionamento óbvio, não é tarefa de uma imprensa séria, comprometida com a ética e a cidadania. Afinal, qual mãe não se sentirá péssima, desesperada, sem perspectiva, ao perder a única filha, de apenas 5 anos, assassinada e atirada do sexto andar de um prédio? Mais que isso: qual mãe não se sentirá em ruínas ao perder um filho ou uma filha, mesmo que não seja ele único? Mãe, é bom lembrar, que não seja uma ‘parede fria’, como oportunamente foi descrito Alexandre Nardoni, pai de Isabella e suspeito de tê-la assassinado, pelo delegado Reynaldo Peres, titular do 13º Distrito Policial, na Casa Verde, na zona norte de São Paulo.

Então, qual seria o papel da mídia nesse caso específico, que tanta comoção causou entre a população? A função dos diferentes veículos de comunicação (jornais, revistas, TVs, rádio, internet) seria a de apurar, ouvir todas as partes envolvidas, confrontar versões e, finalmente, reportar, transmitir aos leitores, telespectadores, ouvintes ou internautas, da forma mais clara e precisa possível, a verdade dos fatos. É assim que os manuais e livros de jornalismo ensinam. É assim que o Código de Ética ensina. É assim que se deve fazer jornalismo.

O caminho do espetáculo

Contudo, parece, como bem define José Arbex Jr. em seu livro Showrnalismo- a notícia como espetáculo, que a mídia, ou pelo menos boa parte dela, está mais interessada em transformar fatos em espetáculos. Em outras palavras, a transformação da notícia em um espetáculo midiático, que só busca audiência, no lugar de transmitir a informação de forma refletida: ‘`Fatos´ e `notícias´ não existem por si só, como entidades ‘naturais’. Ao contrário, são assim designados por alguém (por exemplo, por um editor), por motivos (culturais, sociais, econômicos, políticos) que nem sempre são óbvios’ressalta Arbex.

Todavia, simplesmente afirmar que a mídia espetaculariza, banaliza e faz perguntas óbvias, sem sentido e fora de contexto seria leviano. Vamos aos fatos. Se somarmos o tempo dedicado até agora pelos veículos à cobertura da morte de Isabella Nardoni, chegaremos rapidamente à conclusão de que ele poderia ter sido dividido com outros fatos que também interessam à sociedade e, muitas vezes, sequer são noticiados. A maioria das matérias relembra detalhes da reconstituição que já foram exaustivamente mostrados pela mídia. Um determinado canal da TV por assinatura, apenas para citar um exemplo, dedicou praticamente sete horas à cobertura da reconstituição feita pelos peritos no edifício London, de onde a menina, de um apartamento do sexto andar, foi atirada. Isso mesmo: sete horas! E esse canal não foi o único a dedicar tamanho espaço à reconstituição.

Pois bem, as citadas sete horas nos levam a pensar que a cobertura se confundiu com um desses seriados norte-americanos que têm como tema a violência, a criminalidade. Contudo, não se tratava de um seriado, mas de uma cobertura jornalística para um fato de repercussão nacional. Por isso mesmo, de uma cobertura jornalística que deveria ter se fixado nos fatos em si e se afastado de todos os ingredientes que pudessem levá-la para o caminho do espetáculo. Lamentavelmente, não foi isso que aconteceu.

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Jornalista, professora de Jornalismo, Rio de Janeiro, RJ

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