Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > VIDA DE JORNALISTA

Pirataria na cabeça e câmera na mão

Por Felippe Aníbal em 13/02/2007 na edição 420

Quarta-feira, 31 de janeiro. Estou num mau dia. Logo pela manhã, recebo a notícia de que um amigo falecera na noite anterior. Como se não bastasse, problemas pessoais me angustiam e tenho dificuldades de me concentrar no trabalho. Tento me preparar para a entrevista de estúdio com o delegado seccional de Avaré. Na pauta, a pirataria e a fiscalização.

O motivo para a entrevista havia surgido no dia anterior, na terça. O cinegrafista Beto Almeida e eu terminávamos de gravar uma simples enquête no centro da cidade, próximo ao Largo do Mercado. Vários camelôs comercializavam CDs e DVDs pirateados. O que me chamou a atenção foi que havia uma viatura da PM estacionada em frente a uma das bancas e o policial, na calçada, ao lado de todo o equipamento pirata, conversava com um transeunte como se nada estivesse acontecendo. Na outra extremidade da praça, a Base Comunitária Móvel da PM também estava a postos, como se abençoasse aquele comércio ilegal. No mesmo instante, lembrei-me de uma notícia publicada esta semana na Folha, dando conta de que o Brasil é o quarto maior consumidor de pirataria no mundo.

‘Não pode filmar aqui’

Não tive dúvidas. Puxei o cinegrafista pelo braço e disse:

– Beto, vamos fazer umas imagens de câmera escondida.

– Tá louco? Câmera escondida como, com uma câmera deste tamanho?

De fato, a câmera (uma Sony 3CCD – uma câmera de ombro) era bem difícil de ser escondida. Ainda mais às pressas. Pensei rápido.

– Não tem problema. Vamos fingir que estamos passando e que nos interessamos por algum DVD.

A única restrição que fiz ao Beto foi que não se filmasse o rosto de ninguém.

Não sei mentir, logo sou um péssimo ator, mas o ambulante não percebeu a trama. Em poucos segundos, pronto! Tudo registrado. Tentamos ainda um outro ambulante, mas esse foi mais arredio.

– Vocês não tão filmando, não, né? Não pode filmar aqui.

‘O policial errou’

Disfarçamos um pouco e saímos. Tivemos mais sorte com o próximo ambulante, que vendia relógios. Um tipo que gosta de papo, em torno dos seus 40 anos. Falou tudo. De preço, da origem do produto, dos fiscais da Prefeitura que perguntam para quem os camelôs votaram na eleição, e, principalmente, que há 13 anos tira o sustento de sua família da economia informal.

Na TV, estamos num dilema: veicular ou não as imagens? O meu medo era não conseguir fugir a um enfoque sensacionalista e conservador da questão e não conseguir passar com fidelidade ao espectador a minha visão: que a pirataria é reflexo de n problemas estruturais e conjunturais, além dos vícios da indústria fonográfica. Resolvemos consultar a seccional:

– Doutor, fizemos essas imagens. Estamos pensando em veicular. O que o senhor acha?

Perplexo com a imagem do policial ao lado da banca de DVD’s pirateados, ele foi taxativo.

– O policial errou. Deveria ter apreendido o material.

A ‘imagem’ da PM

Gravamos a entrevista e nos despedimos do delegado. Pouco depois, o dono da TV me chamou.

– Felippe, o doutor disse que infelizmente vai ter que comunicar ao comandante da PM sobre as imagens.

Sabíamos o que aquilo significava. Em menos de duas horas, a PM promoveu uma operação no centro da cidade. Quinze policiais, viaturas, cavalaria. Todos os ambulantes detidos para averiguação e o todo o material pirateado apreendido. O detalhe: na Casa de Detenção, os policiais ‘gentilmente’ informavam aos camelôs que eles estavam sendo conduzidos ao DP por causa de uma matéria que a TV tinha veiculado ‘denegrindo a imagem da PM’ (outro detalhe: a reportagem ainda não havia ido ao ar).

Olhando para os lados

Já no DP, cobrindo a apreensão, fomos entender por que os ambulantes nos olhavam fixamente, com raiva. No final da tarde, dois dos que haviam sido detidos já estavam de volta ao ponto, nas suas respectivas bancas. O Beto captava imagens para outra reportagem, quando ouviu gritos e assovios. Eram eles, querendo tirar satisfação. Safou-se a tempo, não sei como.

No final das contas, não tive tempo de elaborar a reportagem como eu gostaria, ouvindo professor de Sociologia, a PM, donos de lojas de CD, comparar preços etc… Editei as imagens de ‘câmera escondida’, reduzi ao máximo o caráter sensacionalista e tentei ser coerente no texto em off. Na seqüência, veiculamos a apreensão feita pela PM e, depois, a entrevista com o delegado seccional. Se surtiu efeito, não sabemos. Mas ainda temos que olhar sempre para os lados quando estamos gravando no centro.

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Jornalista, Avaré, SP

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