Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & POLÍTICA

Pistas para a sucessão

Por Gabriel Perissé em 13/01/2009 na edição 520

Lula já afirmou que fará a sua sucessão. Mas quem será o candidato dos seus sonhos? Dilma Rousseff? Em algumas entrevistas ao longo de 2008, a ministra repetiu enfaticamente: ‘Eu já disse várias vezes que não sou candidata nem me considero.’ Mais recentemente, não empregou ênfase semelhante para desmentir-se, o que faz suspeitar que talvez não seja ela, afinal, a escolhida do presidente Lula.

Outros dois ungidos em potencial seriam os ministros Patrus Ananias e Tarso Genro. Mas a bonomia mineira daquele e a excessiva intrepidez gaúcha deste não ajudam. O perfil de um presidente que dê continuidade ao atual modo de governar será de alguém que provoque menos polêmicas e atritos (como Tarso) sem ser tão pacífico (como Patrus).

Ler notícias e entrevistas como quem busca pistas para a sucessão é um exercício a se fazer.

Entrevistado por Vera Rosa, Tarso Genro enumera possíveis candidatos à presidência. Além de Dilma, ele próprio e o ministro Patrus, menciona como líderes dentro do PT os governadores do Sergipe, Marcelo Déda, e da Bahia, Jacques Wagner, a senadora Marina Silva… e Fernando Haddad, ‘que é um líder novo’ (Estado de S. Paulo, 11/01).

Consultor do presidente

A expressão ‘líder novo’ tem triplo sentido. É novo porque Haddad tem menos de 50 anos de idade. É novo porque é inusitado. E é novo porque pode representar uma saída inovadora no cenário brasileiro, a exemplo, mutatis mutandis, do surgimento de Barack Obama no cenário norte-americano.

O atual ministro da Educação tem percorrido o país inteiro, desde 2007, para divulgar projetos de sua pasta, em particular o PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação). Por onde passa, sua agenda assemelha-se à de um candidato a presidente. Encontra-se com governadores, prefeitos e secretários, almoça com empresários e políticos, reúne-se com a imprensa (muitos jornalistas se lembram de que Haddad, sim, sabia comunicar-se com eles, na época em que era assessor do então secretário de Finanças João Sayad, do tempo da prefeita Marta).

Esta ampliação de contatos no meio político-administrativo-empresarial, para além do âmbito educacional, não é fortuita. Desde o momento em que Lula o confirmou no ministério da Educação, em 2006, pasta avidamente ambicionada por Marta Suplicy, Haddad tornou-se consultor do presidente em questões que extrapolam problemas como o analfabetismo, o piso salarial do professor do ensino público, o Sistema S e as universidades federais.

A melhor opção

A esperada resistência dentro do PT à candidatura de Haddad justificaria o silêncio estratégico de Lula em relação ao verdadeiro escolhido. Este candidato in pectore é dentro do peito que deve permanecer, pelo menos por enquanto (mas não por muito tempo!), para evitar reações desgastantes, tanto dos martistas, no PT, como dos PSDBistas, dentre os quais há quem já desconfie que a pré-candidatura de Dilma não passa de jogo de cena.

Da parte de quem trabalha no campo da educação, Haddad é a melhor alternativa que Lula pode oferecer ao próprio PT. Uma de suas credenciais é incontestável: a educação brasileira tem se beneficiado, e muito, das iniciativas do MEC nos últimos anos, um MEC bem diferente daquele que conhecemos nos tempos de FHC.

Fernando Haddad é petista da gema. No entanto, manteve-se prudentemente à margem das confusões provocadas por figuras importantes do PT (figuras cogitadas em outro momento para a sucessão de 2010). Por sua formação em Direito, Economia e Filosofia, por sua capacidade de dialogar com diferentes interlocutores, por sua experiência na gestão pública, possui condições para ser, com a orientação de um mentor como Lula, a melhor opção brasileira perante as pretensões de José Serra ao Planalto.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

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