Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > O POVO

Plínio Bortolotti

25/12/2007 na edição 465

‘As eleições municipais se aproximam e os institutos de pesquisa começam a pôr na rua o resultado de suas inquirições. Pesquisa é terreno minado: há os que ‘acreditam’ e aqueles a descrerem dos resultados. Feitas sob critérios científicos e por empresas de credibilidade as pesquisas podem apontar com boa margem de segurança a tendência sobre determinado assunto em determinado momento. Normalmente, os jornais publicam o resultado abstendo-se de informar a metodologia, o universo abrangido pelas entrevistas, o período em que foi feita a pesquisa e, principalmente, que tipo e em qual ordem foram feitas as perguntas – questões cruciais para a análise do resultado.


Isso quando não ocorre erro de leitura por parte dos jornalistas encarregados de transformar os números e dados em texto jornalístico. Foi o que aconteceu na edição de terça-feira, com destaque de Primeira Página: ‘Luizianne é a 4ª prefeita mais popular do país’, tendo a página 19 da editoria de Política o mesmo título, referência à pesquisa do Instituto Datafolha sobre prefeitos de capitais. Olhando-se por cima, aparentemente, não existe nenhum problema; de fato, a tabela do Datafolha mostra a prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, na quarta classificação. Observando-se mais de perto verifica-se o equívoco de considerá-la o quarto prefeito ‘mais popular do país’, pois a pesquisa não alcançou os mais de cinco mil municípios brasileiros, ficando somente em capitais; mais de perto ainda, ela não poderia ser apontada nem como o prefeito ‘mais popular’ das capitais, pois a pesquisa resumiu-se a consultar a população de nove delas, entre os 26 estados brasileiros.


Portanto, o máximo que se poderia afirmar, sendo fiel ao resultado da pesquisa, seria que a prefeita de Fortaleza estava no quarto lugar no ranking do Datafolha, do qual fazem parte nove capitais brasileiras. Além disso, a rigor, a pesquisa não verificou a ‘popularidade’ dos prefeitos, mas a qualidade da administração. A pergunta que deu origem à lista classificatória foi a seguinte: ‘De zero a dez que nota você dá para o desempenho do prefeito [nome]?’ A ‘popularidade’ foi um índice criado pelo instituto, a partir de outra pergunta, para desempate, em caso de médias iguais.


Na edição de quarta-feira a editoria fez a ‘correção’ sob o título ‘Prefeita é a quarta em avaliação’ (pág. 19), que ficou aquém do erro cometido, incluindo o título, que pouco esclarece em relação ao equívoco. O que ficará na cabeça dos leitores, pelo menos para boa parte deles, é que a prefeita Luizianne Lins está entre os quatro administradores municipais mais populares do Brasil.


No que considerei uma espécie de ‘compensação’, na edição de quarta-feira, apelou-se para o lado ‘negativo’ em notícia sobre o Réveillon público que a Prefeitura prepara. Sob o título ‘Projeto prevê luxo para espaço VIP’ (pág. 20), o texto aplica-se em apresentar como suntuosa a área reservada, na qual a prefeita receberá seus convidados (entre eles, o governador do Estado, representantes do Tribunal de Justiça e ‘comitivas estrangeiras’, segundo a matéria). Em notícia ocupando 3/4 de página, com reprodução da maquete do projeto, escreve-se que o espaço será ‘cheio de requinte e sofisticação […] uma estrutura de luxo, com carpete vermelho, fonte com lâmina de água, poltronas decorativas, piso emborrachado e aparelho de TV de plasma de 50 polegadas’. Tentei entender onde estava o ‘luxo’, o ‘requinte’ e a ‘sofisticação’: no carpete? (um tapete de três metros de diâmetro); nas poltronas? (onde os convidados iriam sentar-se?); na ‘fonte’? (na verdade, uma lâmina de vidro por onde escorrerá água); na TV de 50 polegadas? (equivalente àquelas que podem ser vistas em qualquer churrascaria).


O editor de Política, Guálter George, contestou: ‘Rejeito a sua compreensão de que ´forçamos a barra` ou que estejamos colocando em prática uma política de compensação’. Ele assume o erro quanto à matéria sobre a pesquisa do Datafolha, e complementa: ‘O que asseguro é que não há elaboração estratégica para falsear um equilíbrio que nos levaria a ir, pela visão que seu comentário projeta, do agrado gratuito à agressão pela agressão’. Não afirmei que haveria uma ‘elaboração estratégica’ para agir dessa maneira em relação a qualquer personagem do noticiário, mas o que poderia pensar o leitor atento ao ver as duas notícias em seqüência?


Em relação à festa de Ano-Novo, a Prefeitura enviou nota oficial à Redação, cujos trechos principais foram publicados na edição de quinta-feira sob o título ‘Prefeitura de Fortaleza nega luxo na festa de Réveillon’ (pág. 28). Quanto ao erro na matéria sobre o ranking de prefeitos não houve manifestação, mas disso não se pode reclamar: o equívoco foi de exclusiva responsabilidade do jornal, a quem cabia identificá-lo e corrigi-lo.


Obs. Pode parecer esquisito, mas, gramaticalmente, o título correto seria ‘Luizianne é o quarto prefeito mais popular’; da forma escrita – ‘a quarta prefeita’ – a comparação seria apenas entre as mulheres e não ao conjunto dos prefeitos.


Correção


Há um equívoco (e um exagero) em trecho da matéria anunciando a indicação do novo ombudsman do jornal (15/12, pág. 2): ‘Plínio Bortolotti deixa a função de ombudsman e entra para a história do jornalismo brasileiro como 1º ombudsman a cumprir três mandatos consecutivos’. O equívoco: no O POVO, certo, sou o primeiro; mas na Folha de S. Paulo é normal haver três mandatos seguidos. Pedi que se fizesse a correção, como até a conclusão desta coluna não vi o ‘Erramos’, faço-o por aqui. O exagero é dizer que eu entro para a ‘história do jornalismo brasileiro’. Quanto a isso, fiz o seguinte registro no comentário interno: ‘Se eu for merecedor de um pé de página na história do jornalismo cearense já me sentirei realizado como profissional e mais do que feliz por ficar próximo, mesmo em escala inferior, a Padre Mororó, João Brígido, Demócrito Rocha, Jáder de Carvalho – e de Blanchard Girão, de quem tive a honra de ser contemporâneo e de ter trabalhado com ele’. Não se trata de modéstia, mas de compreender a ordem de grandeza das coisas.’

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