Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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ENTRE ASPAS >

Pontos fora da curva

Por Teócrito Abritta em 17/08/2010 na edição 603

Há pouco mais de quatro décadas, quando iniciei meus trabalhos em pesquisa científica, já contava com equipamentos de última linha. Entretanto, ainda não existia a informatização para coleta e processamento de dados, como em nossos dias atuais. Tudo era anotado em tabelas e os resultados plotados em papéis milimetrados, procurando-se ter uma ideia de alguma curva que traduzisse o comportamento dos pontos, facilitando a interpretação matemática e o ajuste a teorias. Hoje, isto é feito automaticamente e os dados ajustados com programas computacionais. Entretanto, tanto ontem como hoje há aqueles pontos ‘fora da curva’ que insistem, mesmo após repetidas experiências, nas suas singularidades. Ali está a novidade. Lá tem algo que não se ajusta às leis científicas e modelos conhecidos. Dali vem o avanço do conhecimento.

Esta introdução tanto pode servir a uma aula de Física sobre método experimental, como ser a base para meus comentários sobre o fórum presidido pelo ex-ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Velloso no último dia 12 de agosto, na Academia Brasileira de Letras.

Na ocasião, foi apresentada a proposta do Fórum Nacional e da Cúpula Empresarial para o próximo governo, consubstanciada no Plano Nacional de Desenvolvimento. Para esta apresentação, foram convidados os candidatos à próxima eleição presidencial para ‘discutir o Brasil’. O plano e suas ‘Seis Revoluções para tornar o Brasil um País Desenvolvido’ está detalhado em uma publicação com mais de trezentas páginas que foi apresentada pelo presidente deste fórum, Reis Velloso, em seus pontos básicos, pontilhados pela sonoridade de palavras como: ‘oportunidades para todos’, ‘humilhados e ofendidos’ e ‘a sociedade brasileira deve insurgir-se e tornar-se em uma geração um país desenvolvido’. Frases emolduradas por citações literárias, seja com a esperança de Stefan Zweig, registrada em sua obra Brasil um País do Futuro, ou o pessimismo de George Orwell.

Intervenções mais formais do que críticas

Infelizmente, como reflexo da petrificação de nossa estrutura político-partidária – perfeitamente ajustada a curvas bem traçadas –, apenas os candidatos Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) compareceram. Nem Serra (PSDB) ou Dilma (PT) se interessaram pela discussão. O PMDB enviou o candidato a vice na chapa com o PT, Michel Temer.

Marina Silva apresentou neste fórum expressões tipo ‘discurso formatura escolar’, ou talvez mais apropriadas para uma pregadora religiosa alertando pecadores sobre as ameaças do aquecimento global e a destruição da vida. Nenhuma objetividade sobre sua passagem no Ministério do Meio Ambiente.

Michel Temer, por outro lado, optou por um palavrório bem apropriado à figura caricata de um parlamentar na acepção do anedotário popular. Em tom professoral e inflamado, fez um histórico de nossa evolução constitucional. Poderia ter falado em princípios constitucionais básicos, como legalidade, impessoalidade, moralidade e publicidade, que na prática são conspurcados pelos representantes dos três Poderes da República e se homiziam nas barreiras impenetráveis do foro privilegiado e do segredo de justiça, garantindo a impunidade, um dos entraves para o desenvolvimento.

Finalmente, Plínio de Arruda Sampaio, pelo estranhamento – tão necessário em nossos dias – e ausência de ‘certos’ compromissos como os demais candidatos, representou um dos pontos fora da curva, a par de críticas que possamos fazer ao seu programa de governo. Infelizmente, propostas sérias apresentadas não foram levadas em consideração, como rediscutir o Senado Federal que há muito perdeu o rumo. Os senadores não mais representam os estados da Federação, e sim, interesses bem específicos de grupos religiosos, econômicos e até aqueles que nem mencionaremos sem uma prova objetiva.

As intervenções dos jornalistas convidados foram mais formais do que críticas. A presidente da TV Brasil apresentou-se não como jornalista, mas como burocrata de empresa estatal, membro de um governo específico, e não da estrutura do Estado brasileiro. A representante do Valor Econômico chegou a esboçar uma crítica à falta de transparência do Judiciário. Poderia ter ido além, já que a opacidade judiciária é que garante a impunidade no Executivo e Legislativo.

Diante de tanta desesperança, uma esperança

O grande destaque jornalístico foi Merval Pereira, que falou no desinteresse dos candidatos em discutir o Brasil, optando por campanhas políticas pragmáticas, exemplificando com as ausências de Dilma e Serra. Falou também do modismo ambientalista adotado pelo atual governo com suas posições internacionais relativas ao aquecimento global, como forma de dissimular a desastrosa política ambiental interna. Respingaram algumas críticas em Marina Silva. Criticou também o ‘desenvolvimentismo’ de Lula, ao optar apenas pelo assistencialismo. Merval brilhou como um ponto fora da curva da ‘imprensa complacente’ (ver aqui).

Dos representantes empresariais, chamou atenção a intervenção do presidente de uma grande empresa de telefonia que falava em produtividade, desoneração de investimentos e da mão-de-obra. Como sua empresa é uma das recordistas do Procon em reclamação dos consumidores, deveríamos pensar mais na ausência da livre concorrência em nosso país como resultado das ‘facilidades’ oferecidas por nossos governantes, principalmente nestes tempos de eleições.

Infelizmente, mesmo com um expressivo número de jornalistas e dezenas de fotógrafos e cinegrafistas presentes, este fórum teve pouca repercussão na mídia. Muito a pensar sobre caminhos e descaminhos do noticiário em nossa imprensa.

Como consideração final, o próprio presidente deste fórum, Reis Velloso é um ponto fora da curva. Prefere ser uma singularidade. Prefere, diante de tanta desesperança, ter esperança em discutir este país. Torcemos para que não seja tarde. Aqui, faço de suas palavras, minhas palavras: ‘Estamos nos contentando com muito pouco…’

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Físico e escritor, Rio de Janeiro, RJ

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