Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Por essa, nem Papai Noel nem McLuhan esperavam

Por Bruno Mourão Paiva em 30/09/2008 na edição 505

Sim, eles estão no meio de nós. Trarão o que você quiser, mas não são Papai Noel. Mas quem são, então? São o novo meio: o candidato-mídia, uma mistura de indivíduo amável com veículo de comunicação, isto é, um chafariz humano de argumentos em causa de interesses próprios.

Não é só através dos meios tradicionais de comunicação – tema primeiro deste Observatório –, mas também pela mídia do quotidiano, pelo face a face, as eleições e o novo modelo de candidato mostram como o afeto natalino que se instala pode estar junto com política e propaganda. Nesta época pré-urna, certa parte da população que aborda outra parte pelas ruas levou o autor deste texto a pensar (e escrever) sobre a existência dela no meio de nós e de seu incrível afeto e a filosofar sobre como pessoas podem se tornar meios ou mensagens.

Essa parcela do povo é como nós, contudo, carrega números, slogans e jingles. Com postura sempre sorridente e prestativa, os candidatos que abordam o cidadão comum são a concretização da idéia apocalíptica de alguns pensadores das ciências humanas. Estamos na mira dos candidatos e de suas mensagens.

A sociedade parece ter perdido o direito básico à negação. Ela pode se negar a saber quais são as notícias, ou zapear durante os intervalos comerciais da TV. Mas com a mídia eleitoral a história é diferente. Desligar a televisão durante o horário eleitoral não é suficiente. Eles, os candidatos-mídia, aparecem nos sites de relacionamento, nas caixas de e-mail, nos rádios, nos carros, outdoors e muito mais. Hoje, os próprios candidatos (ou seus cabos) são multimídias.

‘Aquela gente’

Essa gente invade nossos espaços íntimos com suas informações, promessas, propostas e tudo o mais sem pedir permissão, em qualquer lugar ou horário. São ‘uma gente’ que abraça, beija, aperta as mãos, que ama a todos – em especial os que possuem título! Dizem conhecer todo mundo e sempre estão bem. Sempre perguntam se está tudo bem, afinal, para eles tudo deve estar sempre bem.

Cabe a você, (e)leitor, responder ‘sim doutor, está tudo bem’. Ora, ninguém perguntou ‘como vai você?’ ‘Essa gente’ não se interessa em saber seu estado. Deve-se estar bem o suficiente para apenas decorar o número e ir às urnas no dia certo. Esta é a principal estratégia comunicacional do novo veículo.

O interessante é que o apelo emocional, eleição após eleição, não deixa a propaganda eleitoral. A ‘invasão’ física dos abraços é prova disso. Mas e depois? Se eleita, ‘essa gente’ irá andar em carros de placas pretas, vidros escurecidos e não irá querer saber quem está bem, quem não está, pois afinal, ‘aquela gente’ estará bem.

Terão tornado-se distantes e por isso, serão ‘aquela gente’. Sem contato físico, sem mídia, sem o afeto natalino/eleitoral, fazendo a sociedade agradecer que o Natal acontece uma vez por ano e as eleições de quatro em quatro anos. Pelo menos Papai Noel deixa um presentinho debaixo da árvore.

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Jornalista, Juiz de Fora, MG

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