Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > IMPRENSA PARANAENSE

Por fora, bela viola; por dentro…

Por luiz-geremias em 09/01/2007 na edição 415

O ano que passou foi marcante para o jornalismo brasileiro. A manipulação de informações foi a vedete das eleições e a revista CartaCapital teve a coragem de abrir a caixa de Pandora. Colhe os louros no que diz respeito ao item mais importante do jornalismo: a credibilidade. Veículos tradicionais e conceituados perderam muito terreno nesse item. Mantiveram a cantilena da imparcialidade e da isenção quando todos percebem que não há mais como sustentar esse discurso. Podemos dizer, lembrando de um certo rei das histórias infantis, que a mídia está nua. E que está cada vez mais sozinha na negação desse fato que é tanto cruel quanto ridículo.

Também se acirrou o debate sobre a qualificação profissional do jornalista, tendo por estopim a discussão acerca da obrigatoriedade, ou não, do diploma. Com algumas exceções, o que se viu foi uma defesa da obrigatoriedade pautada em argumentos voltados para a reserva de mercado. Pouco se falou da qualidade do trabalho dos jornalistas diplomados. Isso, ao contrário do que possa parecer, é bom, pois expõe posições cristalizadas e ajuda a separar joios e trigos.

O debate não pode parar. É preciso desmascarar a parcialidade travestida e a aliança entre o baixo nível de qualificação profissional e o péssimo jornalismo da grande imprensa brasileira. E 2007 traz grandes expectativas. Quanto mais erros, quanto mais deslizes e manipulações explícitas, mais deve esquentar o debate.

Um desses deslizes foi localizado por mim em um jornal da capital do Paraná. O jornal Gazeta do Povo, no terceiro dia deste ano, uma quarta-feira, publicou matéria do jornalista político André Gonçalves na página 12 de seu primeiro caderno. O título era ‘Governo de esquerda de Requião foge dos conceitos socialistas’ e tinha como subtítulo: ‘Professores questionam teor do discurso de posse do governador reeleito’.

O que foi dito

A matéria questionava a postura política do governador do Paraná, que afirmou em seu discurso de posse ‘ser de esquerda’. Para isso, buscava o auxílio do professor Roberto Romano, do departamento de Filosofia Política da Unicamp e do presidente estadual do PSOL, Luiz Felipe Bergmann. Ambos afirmavam – atenção – que o governador não é socialista. O tom era de descrédito em relação ao discurso de Requião, isto é, ele diria ser uma coisa que não é.

O ‘outro lado’ ficou a cargo do cientista político da UFPR Adriano Codato e do deputado estadual peemedebista Waldyr Pugliesi. A matéria, no suposto afã de ser completa e servir o leitor de informações, trazia ainda um box intitulado ‘Saiba Mais’ com informações sobre o socialismo. O lead:

‘Acabou o equilibrismo ideológico no Paraná. Pelos próximos quatro anos, a administração estadual vai girar radicalmente para a esquerda. Está no discurso de posse do governador Roberto Requião (PMDB), realizado anteontem. Dificilmente estará dentro do conceito original de socialismo’.

O jornalista define o socialismo como um sistema no qual não há direito à propriedade e no qual os meios de produção ficariam nas ‘mãos do Estado’.

O professor da Unicamp ganha destaque no terceiro parágrafo, afirmando que Requião não governaria pelos ‘preceitos do socialismo’ e, um pouco adiante, que o governador estaria mais próximo do absolutismo do que do socialismo.

O que não foi dito

Bela matéria, mas no espírito do ‘por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento’. Como diz o Pedro Franco, jornalista em Curitiba, várias linhas gastas, papel desperdiçado, árvores cortadas em vão. Informação mal dada, selecionada ao bel-prazer do jornal e do jornalista.

O problema é que, em nenhum momento de seu discurso, Requião disse ser socialista. No entanto, o jornalista, o professor da Unicamp e o político do PSOL trataram do tema como se isso houvesse acontecido. Entre ser de esquerda e professar uma adesão ao socialismo há uma distância considerável, pelo menos para mim e para Norberto Bobbio. Fazer a ligação direta entre esquerda e socialismo é, para um jornalista político e para um professor de Filosofia Política, no mínimo, uma imprudência. No máximo, um ato de má-fé.

Os conceitos de esquerda e direita são anteriores à formulação dos preceitos do socialismo – citados pelo eminente professor Romano – e nasceram no contexto da Revolução Francesa. Ser de esquerda não é ser socialista. Se, ao contrário, o governador tivesse dito que é socialista, aí sim seria possível a ligação direta, pois o socialismo é uma doutrina política que se inscreve no campo da esquerda. Ser de esquerda, portanto, é bem mais amplo do que aderir a uma doutrina, seja ela o socialismo ou qualquer outra.

Bobbio mostra que tanto o termo ‘esquerda’ como o termo ‘direita’ ‘indicam programas contrapostos com relação a diversos problemas cuja solução pertence habitualmente à ação política, contrastes não só de idéias, mas também de interesses e de valorações a respeito da direção a ser seguida pela sociedade’. E, mais importante, define o termo ‘esquerda’ como ligado a um projeto de redução de desigualdades sociais.

Consoante com essa lógica, Requião propôs, no discurso de posse, a adoção de uma postura clara, ignorada pela matéria. Ele assume uma posição não apenas em favor de uma prática política – que classifica de ‘solidária’ e voltada para o combate às ‘desigualdades e as misérias deste mundo’ – como contrária a uma outra prática, comumente chamada de neoliberalismo. Basta ler o discurso e estudar um pouco para entender que se opor ao butim neoliberal não significa, no mesmo movimento, assinar uma filiação a um partido socialista. Um capitalista ferrenho pode fazer isso. Em outras eras, John Maynard Keynes se opôs ao liberalismo e não era exatamente um socialista.

Errar ensina, mas…

Há aí um erro imperdoável para uma editoria política, para um jornalista político e para um professor de Filosofia Política. A este, porém, pode caber a desculpa de não ter ouvido ou lido o discurso, de ter obtido acesso ao fato apenas no contato do jornalista. Poderia, é certo, ter se informado melhor antes de dizer qualquer coisa. Assim estaria poupado do vexame. Ou, quem sabe, teve suas palavras ‘mal colocadas’ pelo jornalista na matéria, nunca se sabe.

O político do PSOL, que concorreu ao cargo de governador do Paraná no último pleito, não pareceu, nos debates, muito seguro. Não parece dominar bem o assunto e talvez não perceba a impropriedade de resumir uma postura ‘de esquerda’ à adesão ao socialismo. Ou aproveitou a deixa para tirar uma ‘casquinha’ do caso, mesmo sabendo que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Ao jornalista, que escreve na página de política do jornal – portanto deve se considerar capaz para isso – não cabem, porém, muitas desculpas. Errou e, ao errar dessa maneira, denotou sua limitação no tema que supostamente deveria dominar. Se estivéssemos falando de um médico, provavelmente seus parcos conhecimentos ocasionariam, no mínimo, a piora do seu paciente. Se fosse um mecânico, com certeza iria fazer com que o carro funcionasse pior do que antes. Se fosse um policial, estaria propenso a acertar o próprio pé com um disparo dirigido a um bandido. Como jornalista provocou uma compreensão distorcida do seu público leitor. Não foi correto.

Erros podem acontecer, é claro, e é através deles que aprendemos. Com certeza o jornalista já deve estar meditando sobre a imprudência cometida. Mas quando certos erros são repetidos à exaustão, começamos a desconfiar que são propositais. E aqui me reporto ao veículo. É curioso que o ‘erro’ se deu na cobertura de um fato ligado a um político que tem reclamado bastante do tratamento que recebe da imprensa, principalmente do jornal que publicou a atabalhoada matéria. Parece haver uma intenção por trás de cada erro.

Com relação ao espaço e ao destaque dado na matéria ao contraditório, deixo para o próprio Requião o arremate:

‘Que liberdade de imprensa é essa que, quando critica, quando acusa, mesmo que distorcendo os fatos, concede à parte ofendida, quando muito, uma misericordiosa meia linha, para que o ‘outro lado’ se manifeste? É o acepipe cinicamente ofertado antes da execução’.

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Psicólogo e jornalista, mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ

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