Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > ADRIANO & VAGNER LOVE

Por que ninguém pensa nas criancinhas?

Por Ivan Trindade em 23/03/2010 na edição 582

Há duas semanas se apedreja Adriano e Vagner Love. O primeiro é acusado de ter uma namorada barraqueira, de ser amigo de traficantes e de ter dado uma moto de presente à mãe do chefe do morro da Chatuba. Ao outro, acusam de ter ido a um baile na Rocinha e recebido escolta de homens armados, que seriam soldados do tráfico de drogas.

O mais recente capítulo do apedrejamento aconteceu no final de semana de 20 e 21 de março, quando a Veja Rio dedicou sua capa às relações perigosas dos dois atletas com o poder paralelo do Rio de Janeiro. O texto, veemente como a Veja gosta de ser, acusa os dois jogadores de não terem consciência de sua importância como figuras públicas e ídolos para crianças e adolescentes e de considerarem normal o convívio com bandidos. Antes da Veja Rio, o jornal O Dia dedicou uma semana inteira de reportagens sobre os deslizes do imperador rubro-negro. Publicaram que ele tem quase 100 pontos na carteira por repetidas infrações de trânsito, denunciaram o caso da moto (o único com alguma relevância) e afirmaram que Adriano não passa de um beberrão dado a orgias, que incluiriam anões, mulheres barbadas e até animais.

Às denúncias, seguiram-se centenas de comentários e análises de jornalistas, esportivos ou não, sobre os desdobramentos e conseqüências do caso. Tirando o sensacionalismo mais raso praticado tanto por Veja (esse exemplo de correção de conduta) e por O Dia, os episódios das últimas semanas servem de ponto inicial para algumas reflexões sobre a sociedade brasileira e a imprensa que, conseqüentemente, a espelha.

Abusos contra a legalidade

Volta e meia a sociedade brasileira sente que tem a necessidade de mostrar o local que cada um dos seus integrantes deve ocupar. Adriano e Vagner Love são os mais novos exemplos dessa necessidade. Negros e pobres, devem ficar na favela. E se saírem dela, devem esquecer e negar sempre que vieram de lá. Negros e pobres só podem namorar e casar com negras e pobres. Se namorarem com loiras, brancas e bonitas, que se comportem e não se exibam muito. Até Pelé sofreu isso. Negros e pobres devem ser cordatos e bem comportados, como o negro da casa grande, de Gilberto Freyre, e quando se comportarem mal, como os negros da senzala, devem ser punidos exemplarmente e sem compaixão.

Também volta e meia, a sociedade brasileira exerce sem disfarces a sua moralidade hipócrita de classe média. Adriano e Vagner Love são acusados de manter relações cordiais com o tráfico de drogas, o nefasto e assassino poder paralelo que assola o Rio de Janeiro e outras grandes cidades do país. Recentemente, o galã Fábio Assunção assumiu seu vício em cocaína. Não foi crucificado e acusado de colaborar com o tráfico de drogas, uma vez que comprava a cocaína nos morros cariocas, e não em farmácias. Foi tratado piedosamente, ganhou entrevista no Fantástico (que, aliás, abriu espaço para Adriano também) e recebeu todo o apoio para tratar sua dependência, como deve ser. Adriano e Vagner Love não usam drogas até que se prove em contrário, uma vez que passam por exames antidoping constantes e nunca foram flagrados com qualquer substância proibida.

O funk carioca é sucesso nacional e sua batida característica infesta nights e baladas de todas as classes sociais, de norte a sul do país. Ninguém parece se importar que seja uma música nascida nos morros e comunidades carentes do Rio de Janeiro. Ninguém parece se importar que contenha letras muitas vezes machistas, misóginas e que utilize as mesmas expressões idiomáticas nascidas no mesmo tráfico de drogas. Aliás, nesse tópico, essa mesma linguagem de ‘bondes’, ‘já é’, ‘perdeu’, ‘geral’, ‘alemão’, é amplamente usada nas casas das melhores famílias.

O momento mais importante do Big Brother Brasil chama-se ‘Paredão’. Saindo do funk, no Rio principalmente, mas também em outras cidades brasileiras, a sociedade não parece se importar com outros abusos contra a legalidade, com tantos Malufs, Arrudas, Garotinhos, Rorizes, eleitos e reeleitos. Isso sem falar nos crimes no trânsito, nas ligações clandestinas de água e luz em mansões na zona sul do Rio, na ocupação ilegal de áreas de mata atlântica por condomínios de luxo em Angra dos Reis e Paraty etc. etc. etc.

Cobertura sensacionalista

Por fim, a sociedade brasileira também gosta de transferir responsabilidades. O jornalista Andre Rizek, apresentador do programa Redação Sportv, argumentou na segunda-feira, 22 de março, que os jogadores recebem dinheiro por direito de imagem e por isso devem cuidar das mesmas. Tem razão o Rizek, mas a situação merece uma análise mais profunda. Adriano e Vagner Love recebem boas quantias de direito de imagem porque marcam muitos gols e jogam bem no maior e mais popular clube brasileiro.

Quando pararem de jogar, cessarão também os direitos de imagem. E aí está o ponto crucial da discussão. A função da dupla de ataque do Flamengo é fazer gols. Quem educa crianças e adolescentes são os pais e a escola. Quando um caso como esse aparece, cabe a pais e escolas mostrarem às crianças onde está o certo e onde está o errado. Provavelmente, se Adriano e Vagner Love tivessem tido acesso a escolas de qualidade, e não às sucateadas escolas públicas brasileiras, eles teriam mais claro a diferença entre o certo e o errado. Nessa mesma discussão, podemos analisar o papel da imprensa, principalmente dos diários mais populares que infestam as bancas de jornais do país.

A cobertura sensacionalista dada ao noticiário policial e a construção de personagens a partir das figuras dos traficantes (vide Elias Maluco, Fernandinho Beira-Mar, Marcinho VP, Escadinha e outros) também pode criar uma idéia de heroísmo e aventura. Mais uma vez cabe aos pais e escolas mostrar o certo e corrigir o errado.

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Jornalista, São Paulo, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 26/03/2010 Carlos N Mendes

    Não sei não, mas a atitude blasé dos dois, ao minimizar fortemente tanto a doação da moto quanto os fuzis dos traficantes, só jogou lenha na fogueira da polêmica. O único atenuante do dois é que se encontram na fronteira de dois mundos, a riqueza da esfera do futebol profissional e a dureza do preto-e-branco das favelas brasileiras. Uma saída para os dois seria questionar os jornalistas o por quê de tanto interesse neles, já que jamais se viu no Brasil repórter questionar ninguém de nosso jet-set a respeito de algum suposto sentimento de culpar por financiar a guerrilha do morro comprando tantas cocaína lá. Apontar hipocrisias sempre ajudar a enriquecer o debate.

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