Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

FEITOS & DESFEITAS > A PEDRA DO REINO

Por que ninguém viu a microssérie?

Por Márcio de Matos Souza em 19/06/2007 na edição 438

Como o jornalismo impresso repercutiu a estréia da microssérie A pedra do reino? Qual a contribuição da imprensa e da TV na rejeição do público a modelos narrativos diferenciados? Mais uma vez houve conflito entre opinião, gosto e consumo na cobertura? Todas essas questões vêm a calhar em face do apagão que se abateu sobre a mídia e a inteligentsia brasileira após a estréia da série. Para a Globo, era de se esperar o curto-circuito. Mas fica difícil entender por que a imprensa e os intelectuais não conseguiram (ou não quiseram) problematizar o impacto do novo trabalho de Luiz Fernando Carvalho.

Impacto, é bom lembrar, não é adjetivo. Portanto, não se está falando apenas do sucesso ou fracasso da série, mas do fenômeno em si, de seus desdobramentos e implicações.

No domingo (10/6), dois dias antes da estréia, quase todos os jornalões do país dedicaram páginas e mais páginas para A pedra… Na maioria dos textos, a discussão privilegiava os aspectos estéticos e quase sempre resvalava para o elogio rasgado. Um ou outro crítico mencionou a ‘ruptura do padrão televisivo’, mas o ponto de vista auto-referente apenas alertou para a dificuldade de se encarar o programa. Ninguém se dignou a investigar por que o distinto público teria tanta dificuldade.

Veio a estréia e a rejeição acachapante da audiência fez o ibope despencar para míseros 11 pontos. Os jornalistas ficaram atônitos. Alguns focaram na preocupação da Globo com a perda da liderança, outros resolveram atacar o hermetismo da série, mas ninguém, mais uma vez, pensou em ouvir o público para entender, de fato, as suas motivações.

Vale a pena apurar

É costume jornalístico explicar um fenômeno com base nos ‘pré-conceitos’ do próprio jornalista. Em parte isso acontece por causa da preguiça de ir a campo. Em parte porque se despreza a fonte em benefício das teses do jornal.

Aí, a coisa avança para o terreno da especulação leviana e ninguém consegue entender o que está acontecendo. Algo semelhante se deu em 2006, quando a grande imprensa julgou Lula como acabado para a disputa presidencial. Veio a eleição e, até hoje, nenhum jornal explicou por que o petista recebeu mais de 60 milhões de votos.

Eu tenho uma opinião pessoal sobre A pedra do reino, mas ela só diz respeito a mim. Em tempo: acho Luiz Fernando Carvalho um diretor talentoso. Às vezes, ele se comporta como uma prima donna, mas jamais passa em branco. Detesto cátedra, odeio intelectualóides, não idolatro experimentalistas, mas admiro à beça a pretensão criativa do cara. Acho mais digno pecar pela pretensão do que pela mediocridade.

Mas isso pouco importa. Como produto cultural, A pedra do reino deve ser compreendido – e estudado – a partir da visão da maioria, dos que consomem a obra. Já basta de elucubrações acadêmicas. Eu quero saber o que fez o grande público rejeitar acintosamente a microssérie. Estaria lobotomizado pela estética das novelas? Teria repertório precário? Ou simplesmente não suportou o estilo barroco-fantástico da narrativa? Alguém nos jornais, por favor, tome a iniciativa de apurar. Quando a maior rede de TV do país amarga o terceiro lugar no horário nobre durante toda uma semana, temos à mão um fato que transborda noticiabilidade.

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Relações Públicas, Salvador, BA

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/06/2007 balablog.zip.net balablog.zip.net

    Caro Márcio, será mesmo que essas questões são pertinentes.

    O dito marketing nos jornais estavam de fato colocando a coisa no plano do consumo?

    O que acontece é simples: A Globo pega um projeto como esse, chama o Farnandinho e faz a coisa acontecer. Leve em consideração o nome e o prestígio de Ariano e a coisa está pronta – errado!

    A receita parece promissora, mas se olharmos com mais atenção veremos que não passou de um jogo de faz de conta. Agora demoraremos mais cinco ou dez anos para vermos algum investimento num projeto audacioso. Quero dizer que isso tudo não passou de um cala boca em meia dúzia de gatos pingados que reclamam da TV.

    Se a coisa fosse feita pra dar certo mesmo, nunca que poderia se fazer o que foi feito nos jornais, pois o proprio discurso da mídia já anunciava em tom pedante e excludente que aquilo não era pra qualquer bico. Some isso ao fato de ser posto num horário inviável para a maioria dos trabalahdores e proto.

    Por que a novela das 8 é a mais assistida? por que é melhor?
    Acho que não necessáriamente. Tudo não passa de um arranjo conveniente. É depois do jornal mais assistido, depois que todos já jantaram, e o principal: antes de dormir.

  2. Comentou em 25/06/2007 Paulo Akira

    ‘Nenhum crivo é melhor que o crivo do público’.
    Deve ser verdade isso, basta olhar para nossos representantes políticos eleitos democraticamente…
    O povo brasileiro está, como afirma o autor do texto, lobotomizado, e isso vale tanto para o seu João, peão de obra, como para o Dr. João, da classe média. O povo brasileiro de uma maneira geral não sabe o que é cultura, isso é fato. Um estudo comparativo entre diversos povos pode revelar isso.
    Quanto à minissérie, não vi, não posso afirmar nada. Mas posso afirmar com certeza o seguinte: a Globo não tem muita piedade dos telespectadores ao colocar certos programas tão tarde da noite. Não se pode esperar que o estudante ou trabalhador fique acordado até 23 horas ou meia noite pra ver esses programas. Se o esperado é que se tenha grande audiência, que seja veiculado mais cedo.

  3. Comentou em 24/06/2007 Ernani Ladeira

    Acho uma grande hipocrisia taxar o povo brasileiro como pessoas de pouca cultura ou de uma cultura ‘pobre’. Se o povo é dessa maneira é porque cada um de nós (também estou incluído nisso) fizemos ou deixamos de fazer algo para que a população fosse aliendada. Ora, agora preparamos uma microsérie que o povo não consegue acompanhar e ainda chamamos o povo de burro, é muita falta de inteligência da nossa própria parte como formadores de opinião. Temos que prepará-los nas escolas e na mídia com excelência.

  4. Comentou em 23/06/2007 Thaís Pinheiro

    Muitos aqui estão falando que a população está ‘emburrecida’, não estaria preparada para tal obra.
    Então, por esse motivo, decide-se manter a mesma mediocridade na qual se encontra nossa televisão?
    E nossos caros colegas continuam falando somente sobre a estética… será que é porque também não entenderam o propósito do diretor e do escritor?

    Pensemos.

  5. Comentou em 19/06/2007 Hudson Lacerda

    A imagem da minissérie era muito cansativa, sempre tomada muito de perto e com mudanças muito rápidas (cortes), o que era extremamente cansativo visualmente (mal eu conseguia focalizar a nova cena e já vinha outra imagem). Mas como os diálogos e monólogos eram longos, o contraste entre imagem (rápida, móvel) e som (estático, monótono) me causou a impressão de que o tempo passava de uma maneira tensa mas no fundo a história não se desenrolava.

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