Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > ENTREVISTA / BERENICE MENDES

Por um mercado exibidor popular no Brasil

Por FNDC em 20/01/2009 na edição 521

Regionalizar a produção e estimular a produção independente de televisão no Brasil, conforme determina a Constituição: esses são os principais desafios que a cineasta Berenice Mendes tem à frente da Gerência Executiva de Coprodução e Projetos Especiais da TV Brasil, cargo assumido recentemente. Berenice vê na televisão pública a grande oportunidade de mostrar o quanto uma produção cultural regionalizada, independente e livre das pressões comerciais pode ser qualificada, interessante e, principalmente, colaborar para a democratização da comunicação no país e o aperfeiçoamento da sociedade brasileira.

Representante da Associação Nacional das Entidades de Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões (Aneate) na Coordenação Executiva do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), Berenice milita ativamente por uma comunicação democrática. Para ela a batalha diária dos artistas que vivem à margem da grande mídia une essa categoria ao desejo de uma comunicação com espaço para todos. A identidade dos brasileiros decorre da diversidade cultural e essa diversidade deve estar acessível a todos, sustenta Berenice.

Nesta entrevista ao e-Fórum, Berenice traça seus objetivos e desafios na TV Brasil, analisa o mercado de audiovisual no país e expõe os entraves enfrentados pelos profissionais desse setor.

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Qual é a situação da produção audiovisual no país, seus problemas, retrocessos e avanços?

Berenice Mendes Vou falar do ponto de vista da produção, pois quando falamos em audiovisual as pessoas sempre pensam em produção. A produção é um dos elos da cadeia produtiva do audiovisual e melhorou muitíssimo. Nós tivemos crises graves nos anos 90, e em vários outros momentos um crises um pouco menores, mas acredito que hoje isso está superado. Os produtores brasileiros assumiram a mudança tecnológica e a adotaram, houve a transição tecnológica para a tecnologia digital. Hoje o nosso cinema tem qualidade de imagem, de som, estética, comparável a de qualquer cinema do planeta. Os filmes continuam sendo muito criativos, o nosso elenco é maravilhoso, temos bons diretores, tanto veteranos quanto novos, a cada momento há sempre um bom filme, uma boa idéia de um bom roteirista, de um bom novo diretor. Porém, continuamos absolutamente sufocados por um mercado de salas de cinema que não é um mercado do filme brasileiro, é um mercado da cinematografia estrangeira, principalmente norte-americana ligada à Hollywood. Além disso, há o descumprimento sistemático da Constituição pelas televisões no tange a exibição da produção independente.

Então, do que se produz no Brasil, acredito que somente 10% chega ao público, sendo. otimista. Esse é o grande nó, o grande problema do audiovisual brasileiro hoje. Como chegar ao público, como estar acessível à população. Essa é questão que precisamos resolver. Porque esse audiovisual é feito em 90, 95% com recursos públicos ou oriundos basicamente de renúncia fiscal, seja federal estadual, ou municipal. Como que a gente pode estar produzindo, investindo recursos da população num produto sem dar o retorno?

Essa equação terá que ser solucionada de alguma forma. A nossa proposta, do FNDC, no quarto eixo que pauta nossas ações, o da ampla divulgação da cultura, trás embutido a proposta de criação de um circuito popular de audiovisual, e hoje em dia, com a tecnologia digital, ele é muito mais fácil ser ativado e realizado com preços populares. Acho que a gente tem que esquecer o circuito das mil e 800 salas, essa grande vitrine que já não nos serve, e tomar consciência da existência de um mercado e de uma população desejosa de assistir as nossas realizações. A grande tarefa está em criar, estabelecer um novo formato, um novo mercado exibidor popular no Brasil.

Sobre sua ida para a direção da Gerência Executiva de Coprodução e Projetos Especiais da TV Brasil, quais as funções a serem desempenhadas? Quais os maiores desafios desse novo papel?

B.M. – Na realidade eu estou indo para a TV Brasil com a missão de colaborar com a equipe que lá está no processo de construção da TV pública. Acho que a grande tarefa que me aguarda é tentar por em prática programas que obedeçam e configurem o que está previsto na Constituição: a regionalização da produção e o estímulo à produção independente de TV no Brasil. Aí tem uma série de tarefas, como formatar tudo isso através de editais públicos, dentro da legalidade, dentro dos princípios de economia, da imparcialidade. Isso é necessário para que na TV pública brasileira não se crie aquela casta, aquele sistema de feudos e de amigos, que houve na Embrafilme. Que seja uma coisa moderna, ágil, com moralidade, com imparcialidade e com eficácia. Por outro lado, fazer com que nossos realizadores compreendam que, apesar dessa profunda angústia que o realizador brasileiro vive, porque não tem acesso às telas, a TV não pode produzir o filme do Oscar, o filme de Cannes que não conseguiram realizar. Que a TV é um veiculo diferenciado, que tem continuidade, que tem uma grade, que tem que ser alimentada. É outro tipo de produto, que é necessário.

Fazer essa aproximação, fazer esse trabalho deslanchar, é para isso que estou indo, para colaborar com a diretoria de programação. Fui chamada pelo Leopoldo Nunes, que é o diretor de programação, para colaborar nesse aspecto. Os grandes desafios são justamente mostrar, conseguir levar, organizar essa produção independente, regional, colocá-la no ar. Conseguir fazer com que a TV Brasil passe a entrar no controle remoto das pessoas, que também venha a ter essa grande divulgação e para que seja possível à sociedade ver que uma programação cultural, sem objetivos comerciais, pode ter audiência, pode ter sucesso. E, sobretudo, pode colaborar com a construção da sociedade brasileira.

Como você relaciona essas novas funções com o FNDC e sua militância?

B.M. – Em relação à Aneate, com exceção da representação no FNDC, eu não estou ocupando nenhum cargo dentro. Sou da diretoria do Sated do Paraná, mas não também com uma função executiva, estou no conselho, então eu vou continuar militando. Claro que vai diminuir um pouco a possibilidade de participação, mas a militância decorre da consciência. Mesmo que você não esteja na linha de frente, está atento, apoiando, de alguma forma colaborando sempre.

Por outro lado, o FNDC sabe que é dentro da TV pública se pode criar uma consciência muito grande da importância da televisão, não apenas sobre as sociedades, os mercados, a cultura de um povo, como sobre a subjetividade das pessoas, dos indivíduos. A gente sabe que as televisões comerciais pela própria imposição de mercado, de audiência, rivalidade, concorrência, tendem a ter uma programação homogeneizada que resulta nessa programação sem profundidade, que pouco contribui para a formação subsidiária da condição de ser humano.

A TV pública, por outro lado, como não sofre essas pressões de mercado, de recursos, ela é o lugar propício para elaboração de formatos, de linguagem, abrindo espaço para a diversidade da cultura brasileira, a produção e as propostas regionais, abrigando a produção independente e formatando-as com novas linguagens, novas programações. À TV pública cabe apresentar essas novas programações para a população, até para que um seriado, um novo programa que seja feito na TV pública tenha tanto sucesso que seja adotado pelas TVs comerciais. Acho que esse seria o grande objetivo, fazer uma TV pública e, criando formatos, mostrar para o mercado o que é possível fazer para que o sistema comercial se aproprie disso e gradativamente vá melhorando a qualidade da sua programação.

Eu creio que com controle público, com a participação da sociedade, com a participação dos realizadores independentes, da produção regional, a TV Brasil tem tudo para se constituir num dos grandes sonhos do FNDC, que vê num aparato como esse um grande instrumento na luta pela democratização da comunicação. Óbvio que não é suficiente, mas já é um grande encaminhamento.

Como está a situação da Associação Nacional das Entidades de Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões (Aneate)?

B.M. – Os artistas, pela própria natureza do oficio, são seres mutáveis, no sentido de que estão sempre atrás de sua arte, da expressão de seus talentos, e isso não é nada fácil no Brasil. Por um lado, o sistema de produção cultural do país obriga ao artista ser seu próprio empresário, ir atrás de seus recursos. Por outro lado, a cultura de massa, essa cedida pela indústria cultural, faz com que os artistas que estão sob o amparo da Aneate e dos Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões [Sateds], que são os artistas de teatro, de circo, de ópera, de artes cênicas, da dança e os trabalhadores de cinema, em alguns estados tenham que correr incessantemente atrás de sua própria vida.

Apesar de tudo ainda tem no interior, por exemplo, uma família que faz teatro mambembe, ou uma família circense, que vive na estrada, de pequenas cidades em pequenas cidades. Ainda tem quem goste de ver o circo chegar, o teatro. Apesar de toda a intensidade e influência da TV, do rádio, do vídeo na cabeça das pessoas, essas atividades ainda têm um certo espaço.

O processo de militância política do artista é muito diferenciado, não há como fazer as assembléias constantemente como as outras categorias fazem. É um processo de militância diferenciado, que nem por isso deixa de ser tão legítimo, ou tão participativo ou intenso como das outras categorias. No momento em que se tem, como tivemos no ano passado e retrasado, uma conferência nacional de cultura, essas classes estão presentes, discutindo, debatendo como historicamente vemos.

Em razão de todas essas dificuldades, na das reuniões que nós tivemos, surgiu uma proposta que acabou sendo aprovada, de uma reforma institucional, de uma transformação da estrutura da Aneate, saindo de uma estrutura verticalizada, tradicional de sindicato, com presidência e tal, para uma estrutura colegiada, para criação de um grande conselho dos Sateds, que seria o CoNearte (Conselho Nacional das Entidades de Artistas e Técnicos). Essa alteração, essa reforma, essa modernização está e curso. Madalena Rodrigues, que é nossa companheira, presidente do Sated de Minas Gerais está levando a frente esse processo. Ainda não está consolidado, mas é o momento que a nossa entidade vive hoje – momento de reforma e modernização institucional.

Quais serão os benefícios que essa reforma trará à Aneate?

B.M. – Essa reforma vai tornar a Aneate mais flexível. No colegiado, todos os participantes têm o poder de decisão, de fala, de visibilidade igual, as tarefas serão divididas ainda que tenha aquele que formalmente terá que assinar, responder legalmente. Em uma categoria com tantas dificuldades de se reunir nacionalmente, ter uma estrutura onde tenha um só presidente, um só diretor de imprensa, dá pouca agilidade de resposta para alguma coisa que esteja acontecendo longe da direção. Assim, tendo a entidade um colegiado, todo mundo faz parte com representatividade da instância nacional.

Tem uma questão muito complicada na militância dos artistas que é as relações com a indústria cultural. Ela criou uma legitimidade, que não deixa de ser verdadeira, mas atribuiu poderes de representação para artistas não necessariamente derivados de sua militância, ou da representatividade conquistada, mas sim de sua fama na TV, no cinema. Então, às vezes um presidente de sindicato de estados como Bahia e Minas Gerais, com muitos artistas, com uma cultura imensa, acaba valendo menos que uma jovem estrela de uma TV, de uma novela, para ir conversar com um secretário, um governador. É muito complicado. Para nós, abrir a representação para esse conselho vai possibilitar que se manifestem com legitimidade, e de forma incisiva, mais representantes em todo país.

Como a categoria se relaciona com a democratização da comunicação, em quais aspectos ela se beneficiaria diretamente?

B.M. – Tudo está interligado. Por exemplo, para os artistas de circo, de dança – desde as mais antigas de salão até o mesmo balé profissional – ou o teatro (que não sejam os ‘globais’), a grande mídia não está aberta. Talvez haja espaço nas rádios culturais, nas rádios comunitárias. Isso sem falarmos dos músicos regionais, que não têm possibilidade alguma, não tem espaço nenhum, de projeção, de divulgação do seu trabalho. Nós trabalhamos dentro daquela visão de que o Brasil não é só o Brasil do eixo Rio/São Paulo e de que no Brasil as concessões são públicas têm responsabilidade social, ou deveriam ter, para com a diversidade. A nossa identidade como brasileiros é a nossa diversidade cultural, decorre da nossa diversidade cultural.

Então, acho que a categoria não apenas tem na luta pela democratização da comunicação um objetivo importante e permanente, por que tem tudo a se beneficiar, assim como acho que ela é muitas vezes, não conscientemente, uma das categorias que mais luta. Mesmo que não esteja dentro do sindicato ela está forçando a barra para conseguir espaços, porque o artista é um ser que se não se comunicar, a arte dele não existe. É próprio do artista isso, ele faz a arte e a arte demanda comunicação por si só.

Como você aborda a questão do Brasil ser um país reconhecidamente audiovisual – da televisão, das imagens – em detrimento da leitura, da aquisição de conhecimento pelo acesso a livros, jornais?

B.M. – Eu acho que esse processo ocorre no mundo inteiro. Vivemos uma fase de transição da cultura letrada, lógica, formal para a cultura audiovisual. Eu acho que não há o que lamentar, são processos, são estágios. O século 20, desde o finalzinho do 19, com o surgimento do cinema, do rádio, da televisão, e depois toda digitalização fez com que as pessoas tenham outra forma de ler o mundo, de entender as coisas e realmente o poder das imagens, do som, ele é muito intenso. Também a tecnologia da informática, do computador, com o tremendo salto de acessibilidade à cultura que a web traz, faz com que a gente esteja passando por um novo momento.

Mas é obvio que se há ganhos, também há perdas. Se o Brasil já era um país ágrafo – um país onde 75% da população não lê, e quando o faz lê um parágrafo e olha lá, se limita às manchetes dos grandes jornais e fim de papo, não se aprofunda nas matérias – a tendência é isso aumentar. E isso torna ainda mais necessário o controle público sobre os meios de comunicação, porque eles passarão a ser os meios quase que únicos de informação das pessoas, de lazer. Eu particularmente lamento a existência de milhões de pessoas que desconhecem o prazer de ler uma bela obra de ficção, de poesia, científica, uma bela obra filosófica que é de uma imensa fonte de prazer. Mas penso, ao mesmo tempo,que uma mídia não mata a outra, acredito que o livro, o jornal, a revista continuarão existindo. No entanto, penso que a cultura audiovisual tende a ser totalizante.

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Da Redação FNDC

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