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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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FEITOS & DESFEITAS > DARKO MAVER

Por uma poética da farsa

Por Guy Amado em 27/05/2008 na edição 487

A polêmica envolvendo o artista sérvio-esloveno Darko Maver e sua trajetória meteórica e singular no circuito artístico europeu, culminando com o convite para participar da Bienal de Veneza de 1999, segue ainda relativamente desconhecida ou pouco comentada pela mídia brasileira.

Os rumores sobre este artista – uma das mais enigmáticas figuras a aparecer no mundo da arte nos últimos tempos – e seu trabalho começaram em 1998, em circuitos de arte underground europeus: um sujeito que perambulava pela decadente Iugoslávia, morando em motéis e prédios abandonados e realizando estranhas ‘intervenções’ nestes locais. Mesmo ano em que começam a circular fotos e artigos sobre o artista, tendo uma conhecida galeria de perfil experimental de Ljubljana, a Kapelica, exibido a documentação de seu famigerado projeto itinerante ‘Tanz der Spinne’. Este consistia em uma série de, digamos, instalações-performances apresentando simulações de cenários de assassinatos violentos, que Maver construía utilizando manequins hiper-realistas de cadáveres que dispunha em espaços públicos como hotéis, hospitais, banheiros etc.

As instalações eram tão bem realizadas que era quase impossível perceber que se tratava de ambientações artificiais, de tons sanguinolentos. O projeto começou a provocar fortes reações por parte da mídia, passando a ganhar cobertura em jornais e revistas especializadas.

Ainda em outubro de 1998, Maver é acusado, de acordo com o Código Penal iugoslavo, de atividades ‘antipatrióticas’ e ‘propaganda hostil’ – pelo teor de seu trabalho – e tem sua obra censurada, sendo afinal encarcerado em Podgorica, uma penitenciária na região do Kosovo. O evento teve certa repercussão, com periódicos locais afirmando que Maver teria sido preso sem ter tido direito a um julgamento.

À parte os acontecimentos turbulentos envolvendo o artista, sua trajetória seguia despertando o interesse internacional e, em 1999, duas revistas de arte italianas escrevem sobre Maver: Tema Celeste basicamente reproduz um press release com seus dados biográficos sucintos e a Flesh Out publica um artigo mais extenso, com imagens de seus trabalhos. Logo em seguida, a confirmação definitiva do prestígio que o artista sérvio vinha conquistando de modo difuso se dá de maneira inabalável: Darko Maver é oficialmente convidado a participar da 48ª Bienal de Veneza, um dos dois eventos mais prestigiosos do mundo.

Notícia desconcertante

Em maio do mesmo ano, contudo, o primeiro choque: é anunciada a morte de Maver na prisão de Podgorica, onde ainda se encontrava encarcerado, em circunstâncias relativamente nebulosas – a imagem de seu cadáver jogado no piso da cela reforçava a ambigüidade trágica do contexto. O fato foi interpretado como um desfecho grandioso para a notoriedade repentina que o artista viera conquistando, tendo sido organizadas uma ‘retrospectiva’ de sua obra em Roma [na galeria Forte Prenestino, em setembro] e uma ‘performance-réquiem’ dedicada a Maver na Bienal de Arte Jovem, na mesma cidade.

Um grupo de representantes da obra de Darko decide então montar, postumamente, um projeto do artista na Bienalle, consistindo numa instalação apresentando o documentário Darko Maver – A arte da guerra. O filme é projetado intermitentemente numa sala no interior do Pavilhão Italiano, com o piso recoberto por milhares de folhetos expressando luto pela morte do artista. Sua obra é divertidamente interpretada de modos diversos e contrastantes: para uns era ‘conseqüência direta da real situação nos Bálcãs’ e para outros tratava-se de uma forma radical de body art, leituras não raro permeadas de sofisticados apanágios pós-modernos. O apelo dos trabalhos de Maver, de um modo geral, parecia jazer na mistura de violência, arte e realismo de suas criações.

No início de 2000, vem a bomba definitiva, na forma de uma notícia desconcertante acerca da persona misteriosa de Darko Maver: um extenso press release confeccionado pelo coletivo de artistas conhecido como 0100101110101101.ORG (em conluio com o grupo Luther Blissett, originário de Bolonha) trazia os dizeres ‘Declaramos ter inventado a vida e as obras do artista Darko Maver, nascido em Krupanj [Sérvia e Montenegro] em 1962 e morto na prisão de Podgorica em 30 de Abril de 1999’.

Componente repulsivo

Nunca houve nenhum Darko Maver. O artista que instigara a Itália e a Europa no ano anterior pelo radicalismo mórbido, visceralidade e estranheza de suas ações artísticas, era uma farsa, fruto tão-somente da vívida imaginação de um grupo de jovens. O nome, verídico, foi ‘emprestado’ de um falecido criminologista esloveno. O próprio rosto de Maver, nas raras fotografias do ‘artista’ que chegaram a circular na mídia, era na verdade de Roberto Capelli, veterano integrante do Luther Blissett.

As imagens, que se acreditavam registrar ‘manequins realistas’ em situações indigestas, eram na verdade fotos de crimes reais, repelentes imagens de cadáveres disponíveis gratuitamente na internet, em sites como www.rotten.com e similares, acessíveis a qualquer um com estômago forte. Um dado que por si só já desperta questões instigantes: a realidade alimentando um projeto que se apresenta como simulacro daquela, e que em grande medida foi bem assimilado justamente por sua assumida característica ‘artificial’, que neutralizaria o componente potencialmente repulsivo do objeto do trabalho.

A ‘ação-projeto’ Darko Maver certamente suscita algumas outras indagações sobre seu significado e desdobramentos. Os integrantes da 0100101110101101.ORG afirmam ter tentado ‘explicitar os mecanismos que gerenciam o sistema da arte contemporânea, para evidenciar que críticos e curadores estão aptos a criar um artista, independente do valor ou qualidade de suas obras’.

Realidade e ficção

Fica claro que o principal objetivo dos mentores do projeto foi o desejo de denunciar a natureza artificial deste meio, mirando especialmente a relatividade de critérios em torno dos mecanismos de legitimação que podem determinar [ou não] uma trajetória artística, questionando assim o papel desempenhado por críticos, curadores e pela mídia no mesmo processo. É ressaltada a noção de que se alguém investido do estatuto de especialista [crítico, curador] não atesta a existência e o valor de um artista contemporâneo, este artista ‘não existe’. Em outra medida, é também tensionado o papel fundamental da grande mídia na dinâmica mais e mais difusa do processo de atestar a ‘realidade’ aos olhos do cidadão-consumidor. Afinal, ‘se saiu no jornal há de ser verdade’.

Centrados no impulso de penetrar a resistência do sistema de arte, os autores da farsa parecem valer-se de um modelo clássico, que se inspira no cavalo de Tróia: algo como ‘infiltrar para conquistar’ – ou, no caso, para pôr em xeque alguns paradigmas que regem a obscura dinâmica de legitimação de papéis no circuito da arte contemporânea.

Se os limites entre realidade e ficção (quando ainda os conseguimos detectar) se mostram mais e mais tênues – e sobretudo no campo da arte, em que investigações acerca do estatuto da representação e do simulacro não cessam de alimentar sua práxis na atualidade –, o projeto Darko Maver os explicita por um viés crítico e instaura uma reflexão de natureza talvez desconfortável, mas pertinente. E, de quebra, imprime sua marca, de uma forma ou de outra, na historiografia da arte recente – ainda que por uma via menos ortodoxa.

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Pesquisador e crítico de arte

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