Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > MARKETING ELEITORAL

Presidente ou presidenta, que diferença faz?

Por Ligia Martins de Almeida em 23/03/2010 na edição 582

O PT, conforme noticia a imprensa, encontrou uma forma fácil de diferenciar sua candidata à Presidência da República. Em vez de fazer um programa que fale de saúde da mulher, aborto, educação de filhos, salários iguais aos dos homens que desempenham o mesmo trabalho, criação de creches etc., etc., a agremiação bolou uma estratégia de marketing que, certamente na opinião dos homens do partido, resolve tudo. Decidiu mudar o título da candidata. A partir de agora, ela é simplesmente ‘a presidenta’.

‘Soa mal aos ouvidos, mas pode ir se acostumando, porque o martelo já está quase batido: na campanha, Dilma Rousseff será tratada como `presidenta´ e, se for eleita, assim será chamada oficialmente. A cúpula de campanha de Dilma avalia que a palavra no feminino reforça a idéia de uma mulher na presidência. O PT submeteu o `presidenta´ a uma pesquisa. Segundo se constatou, as pessoas estranham no início, mas depois aprovam. Dilma Rousseff também gostou da solução’ (Veja, 21/03/2010).

O que o PT não levou em consideração é a definição de presidenta apresentada pelos dicionários. Segundo o Michaelis e o Aurélio, a palavra presidenta se aplica tanto à mulher que preside como à esposa do presidente. Portanto, dona Marisa Letícia é a presidenta. E Dilma, eleita ou não, vai continuar sendo vista, pela grande massa, como ‘a mulher do Lula’, no bom sentido. A mulher que ele escolheu para ser sua sucessora.

Questões que interessam às mulheres

Não resta dúvida de que o Partido dos Trabalhadores é bom de marketing. Se a expressão vai pegar ou não, ou se isso tem alguma relevância no processo eleitoral, não faz diferença. O fato é que uma decisão interna – será que eles não têm coisas mais sérias a discutir na campanha? – vira notícia, pequena, é verdade, e mantém o nome da candidata no ar. Enquanto isso, na pobreza do Partido Verde, Marina da Silva – não se sabe ainda se ela quer ser chamada de presidente ou presidenta porque nenhum jornal teve interesse em lhe fazer a pergunta – continua lutando para ganhar espaço na mídia.

O que a situação das duas – comparando o noticiário sobre Dilma e Marina na mídia – comprova é que a questão feminina e a situação das mulheres não é prioridade de campanha. Portanto, não faz diferença se elas vão ser chamadas de presidente ou presidenta. O substantivo, usado no masculino ou no feminino, não vai mudar a essência de nenhuma delas. Nem sua preocupação com suas iguais.

Elas são, nesse momento, duas pessoas disputando o poder. Uma é poderosa, conta com uma enorme máquina a seu dispor e, por tabela, ocupa mais e mais espaço na mídia, das inaugurações junto com o presidente ao interesse que desperta entre os internautas. A outra disputa por um partido pequeno, só vira notícia quando participa de simpósios internacionais ou, como aconteceu recentemente, quando é entrevistada para falar do grande sucesso do momento, Avatar, o filme que tenta mobilizar pessoas para a causa ecológica.

O fato de serem mulheres parece ser irrelevante, tanto para elas quanto para a mídia ou para os seus partidos.

Resta esperar para ver se o candidato do PSDB terá mais sensibilidade e vai saber aproveitar o vazio que as duas mulheres estão deixando nos seus programas de governo. Se for esperto, José Serra levará às eleitoras uma mensagem que mostre que um dos candidatos se preocupa com elas e vai tentar fazer alguma coisa para melhorar a situação das milhões de mulheres carentes que dependem do SUS para cuidar da saúde, precisam de melhores condições de moradia e trabalho e sonham em dar uma boa educação para os filhos.

Cabe à mídia reunir os três e discutir – em profundidade – as questões que interessam às mulheres. Seria uma boa forma de ajudar as eleitoras a definir seu voto. Sem se deixarem levar por artigos masculinos ou femininos que, na verdade, não querem dizer rigorosamente nada.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/03/2010 Wanderley Lemes

    Isso é o que eu chamaria de falsa polêmica , até o que pode ser uma estratégia do partido, logo uma decisão particular, vira tema para discussão.Ainda bem que todos esses estudantes mineiros que comentaram aqui sabem que o nome do cargo não tem qualquer importância.

  2. Comentou em 25/03/2010 Gabriel Assunção

    A ligação de Dilma com o presidente Lula e a aprovação e respeito que ele conquistou ao longo de seus dois mandatos de certa forma ‘obriga’ a mídia a dar espaço considerável àquela uma vez que ela e o próprio presidente estão estritamente ligados em todas as ações políticas do país atualmente. Lula sabe que eleger Dilma não será tão simples como seria eleger um candidato com histórico em eleições diretas e maior empatia com os eleitores, vide Marta Suplicy, citando um exemplo feminino, que, mesmo com problemas de aceitação e em sua história política, definitivamente representa o universo das mulheres de forma consideravelmente superior e mais bem percebida pelas eleitoras. A citação de Marina Silva é o melhor exemplo de como estar no poder muda não só a possibilidade de maior sucesso em uma candidatura, mas também como a imprensa não raras vezes ignora o que considera menos importante ou que simplesmente não será notícia de interesse imediato do grande público. Monopolizar a disputa entre Dilma e Serra, restringindo as nomeações específicas apenas aos dois, quando estas de fato cabem em outros candidatos (a afirmação da possibilidade de uma primeira presidente mulher só fica clara nestas eleições, apesar de outras candidatas já terem se candidatado ao cargo anteriormente), é o retrato da exclusão e da manutenção do monopólio que tem grandes chances de ser confirmado nas urnas.

  3. Comentou em 25/03/2010 Ana Flávia Goulart

    Mais uma vez, os marketeiros das campanhas políticas tentam maniputal todos os recursos disponíveis para eleger um candidato. Dessa vez, é a língua portuguesa. Essa eleição é, a exemplo da última corrida pela prefeitura de Belo Horizonte, mais uma que será disputada baseada no poder.
    O poder que hoje está nas mão de quem governa é utilizado para influenciar efetivamente no resultado da escolha da população. A imensa presença da candidata “da situação” na imprensa é mais uma semelhança com as eleições municipais de 2008.
    O fato de serem duas mulheres na disputa pela Presidência da República não está sendo levado em conta da maneira que poderia, caregando a bandeira feminina. Uma simples ação de marketing não pode substituir as propostas que são a base de uma campanha eleitoral.

  4. Comentou em 25/03/2010 Raoni Jardim

    A disputa entre os candidatos a presidente nas eleições de 2010 já começou cedo. Pesquisas mostram um empate técnico entre o candidato do PSDB José Serra e a Candidata do PT Dilma Rousseff. As campanhas publicitárias vão fazer uma grande diferença, já que o país está “acostumado” a ver ou o PT ou o PSDB disputando a candidatura e dividiu os eleitores baseados apenas nestes dois partidos, muito similar ao sistema americano, que existem vários partidos, mas apenas dois conseguem emplacar candidatos.
    Dilma tem uma certa vantagem na campanha publicitária por ser a primeira mulher com possibilidade de ser eleita para o cargo de “presidenta”. Apenas o fato de ser uma mulher já garante vários votos, não só de mulheres e feministas, mas também de todos os brasileiros que esperam por uma mudança de ótica do sistema governamental. Serra terá que achar uma boa campanha publicitária para combater sua concorrente.

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