Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA ESPORTIVA

Pressão e falta de ética

Por Ricardo Linhares em 04/10/2005 na edição 349

Poucas vezes nos últimos tempos me sinto tão lesado por uma decisão como no caso dos jogos manipulados pelo árbitro Edílson Pereira de Carvalho. Impossível não ficar irritado, como torcedor e profissional, quando o presidente do STJD, Luiz Zveiter, deixa-se levar pela pressão da mídia e interesses comerciais para tomar uma decisão. Pior: a imprensa esportiva se mostrou antiética ao não analisar todos os lados da questão, optando por agir em benefício próprio.

Quantas vezes ouvi nos últimos dias companheiros de profissão tratarem a questão emitindo frases vazias como ‘Temos que salvar o Campeonato Brasileiro’ ou ‘A decisão do STJD não pode, de forma alguma, ameaçar o andamento do campeonato’. Será que todos não deveríamos nos preocupar com a justiça antes de tentar salvar uma competição? O pior mesmo é ouvir vários colegas dizerem que ‘a única decisão de bom senso é mandar realizar novamente todos os 11 jogos’. Quer dizer, caras-pálidas, que aqueles que discordam de vocês não têm bom senso? Fala sério!

Pisaram na bola

Duro foi ouvir o consenso dos jornalistas da ESPN Brasil, de que todas os jogos teriam de ser repetidos, sem que se preocupassem em ouvir o contraponto de algum colega de profissão. Será que bom senso é mandar repetir o jogo entre Figueirense e Juventude porque o time catarinense poderia ter vencido por 7 a 1, caso o árbitro não tentasse prejudicá-lo?

Esse foi o argumento utilizado por todos (ou quase todos na emissora). Eu e mais 65% de votantes (assinantes do próprio canal), segundo pesquisa feita no programa Sportcenter Domingo (dia 2/10), mais o próprio clube catarinense, consideramos a decisão do STJD absurda. O técnico Paulo Autuori, do São Paulo, afirmou que uma pergunta mataria a questão: por que repetir esse jogo, que foi realizado em Caxias do Sul? E nenhum dos comentaristas da mesa se dignou a respondê-la. Nem mesmo se deram ao trabalho de fazer um mísero comentário sobre a indignação do vice-presidente jurídico do Figueirense, que entrou ao vivo durante o programa. Lamentável!

Cito a ESPN Brasil porque tenho profundo respeito pelo trabalho que o canal faz, idem aos profissionais. Considero Paulo Vinícius Coelho o melhor comentarista esportivo do Brasil, conheço e reconheço a competência e a ética do Mauro Cezar Pereira, que, aliás, fez com que eu trilhasse o caminho do jornalismo esportivo. Mas acho que pisaram na bola, assim como seus companheiros de emissora.. E cito aqui os meus argumentos:

1) Mandar repetir todos os 11 jogos sem provas de manipulação do resultado é ferir um dos princípios básicos do direito. Como deveria saber Luiz Zveiter, todo acusado é inocente até prova em contrário. Ou seja, não se pode anular jogos simplesmente porque ‘o depoimento do Edílson não é confiável’, como alegou o presidente do STJD na entrevista coletiva que teve o bom senso (talvez o único no caso) de conceder no salão de festas de seu prédio, em Niterói (RJ). Convidada, a imprensa não rebateu o fato de que agir sem provas significa, provavelmente, prejudicar inocentes. No caso, clubes de futebol.

2) Desde o início do caso, a imprensa bateu na tecla de que não teria valor na análise do vídeo dos jogos apitados por Edílson, com o objetivo de detectar atos de má fé. Luiz Zveiter, que criou uma comissão para análise, fez questão de aparecer em vários programas de TV, como não deve fazer alguém que decidirá um caso. Escalou mal seu time, mudou um integrante e, depois, extinguiu a nascitura comissão. A imprensa acertou: analisar jogos em vídeo não tem valor, pois um árbitro pode influenciar o resultado de forma a não ser vista pela TV. Mas os jornalistas fizeram um contraponto absurdo: como não existe maneira de analisar se houve má fé, a solução é anular todos os 11 jogos. Ou seja: se um assassino confessa cometer um crime e temos outros crimes insolúveis na cidade, o certo é condená-lo por todos os anteriores, mesmo que não haja provas. Dessa forma, salvaremos a cidade. Será?

3) Anular quatro jogos me parece absurdo: o já citado Juventude x Figueirense e Santos x Corinthians, este pelo mesmo motivo, ou seja, há gravações anteriores ao estouro do caso que mostram que Edílson não conseguiu fazer o resultado a favor do Timão, como desejavam os mandantes do jogo ilegal; Internacional x Coritiba e Fluminense x Brasiliense também, pois o site clandestino não estava mais aceitando apostas para partidas dirigidas por Edílson, como prova outra gravação levada a público pela Polícia Federal. No último caso, poder-se-ia incluir São Paulo x Corinthians, mas foi o primeiro a sair das apostas, e restaria uma dúvida: será que Edílson soube disso a tempo de não tentar comprometer o resultado?

4) Quanto aos outros sete jogos, segundo reza a Justiça, deve-se buscar provas para que qualquer decisão seja tomada, inclusive anulação de jogos. Há uma gravação que aponta contaminação de Vasco x Figueirense. Então, este deve ser anulado. Quanto aos outros seis, restaria esperar que a Polícia Federal apresentasse suas conclusões. Se a demora viesse a comprometer de vez o campeonato, que está a dois meses do fim, que o STJD decidisse pela anulação da competição.

Lamentável, sim, porém mais justo do que sair prejudicando clubes a torto e a direito (e também beneficiando, como acontece com o Corinthians) apenas para agradar às empresas envolvidas comercialmente com o Campeonato Brasileiro e à imprensa em geral. Se não houver reviravolta no caso, uma coisa é certa: Luiz Zveiter, CBF e imprensa terão participação direta, ilegal e irresponsável no resultado da competição, tanto em relação ao título quanto aos rebaixados para a Série B.

******

Jornalista e colunista do Futebol na web

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem