Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Prezado fulano

Por Sérgio Augusto  em 05/05/2015 na edição 849

O homem é um animal que escreve cartas. Lewis Carroll, autor da frase, poderia ter dito que o homem é o único animal que escreve cartas, pois nenhum outro bicho disso é capaz. Para ensiná-lo a aprimorar essa habilidade, Carroll ofereceu-lhe num ensaio oito ou nove regras básicas, das quais só me recordo da última: o pós-escrito, o vulgar P.S., deve ser o mais curto possível.

Desrespeitá-la, dizem, é um atributo mais feminino do que masculino e mais dos séculos 19 e 18, detalhe que dificilmente será ventilado no curso sobre troca de cartas entre grandes autores que o Instituto Moreira Salles inicia, no Rio, no próximo dia 13. Quando nada porque os missivistas enfocados nas sete palestras do curso Remetente/Destinatário viveram no século passado, e apenas um deles, a poeta Elizabeth Bishop, era mulher – mas do tipo que não deixa nada para dizer depois do “sincerely yours”.

(A propósito, nas 459 cartas que ela trocou com o poeta Robert Lowell entre 1947 e 1977, foi Lowell quem mais se valeu de um P.S., todos, se bem me lembro, convenientemente curtos.)

Os demais remetentes são Kafka (destinatários: o velho Kafka, Felice, Milena, Max Brod), Fernando Pessoa (só os arrulhos para Ofélia Queiroz rendem uma palestra), Mário de Andrade (epistoleiro glutão: Bandeira, Tarsila, Sérgio Buarque de Holanda, etc.) e Rainer Maria Rilke (não há como fugir à dezena de cartas para o jovem poeta Franz Kappus).

Falando nisso, a primeira carta de Rilke a Kappus, escrita em 1903, é um dos destaques do belo florilégio epistolar reunido por Shaun Usher em Cartas Extraordinárias, que a Cia. das Letras lançou tem pouco tempo. Outras atrações: o bilhete suicida de Virginia Woolf, a receita de scones que a rainha Elizabeth enviou a Eisenhower, um pedido que o adolescente Fidel Alejandro Castro Ruz (sim, o próprio) remeteu a Franklin Roosevelt, a súplica de Gandhi para que Hitler “tivesse calma”, a proposta para virar agente no combate às drogas que Elvis fez ao presidente Nixon, a puxada que Groucho Marx deu em Woody Allen quando este ainda fazia stand up.

Mais do que desvanecido, Allen agradeceu ao ídolo, que embora avesso a responder cartas (“não dá dinheiro – a menos que sejam cartas de crédito da Suíça ou da máfia”), respondeu ao jovem discípulo. Como respondera, seis anos antes, ao mais improvável remetente e destinatário de sua vida: o poeta T.S. Eliot. A má vontade de Groucho com cartas era só da boca para fora.

Marxólogo juramentado

Por incrível que pareça, a iniciativa partiu de Eliot. Em 1961, o poeta enviou a Groucho um bilhete, cheio de elogios, no qual pedia uma foto autografada. Prontamente atendido, Eliot, porém, não se deu por satisfeito. Preferia uma foto clássica de Groucho, com bigode pintado e um charuto entre os dedos; no que foi atendido – com dois anos de atraso. Grato, o poeta anunciou a entronização do mimo na parede de sua sala, ao lado das fotos de “amigos famosos, como W.B. Yeats e Paul Valéry”.

A amizade epistolar entre os dois não está registrada em Cartas Extraordinárias nem entrou nos volumes da correspondência completa de Eliot editados até agora. Sua divulgação ocorreu por intermédio de Groucho, que do poeta ganhou também um retrato autografado, “mesmo sem charuto”, pilheriou o remetente num P.S.

Foi uma das mais insólitas relações do século passado. O que podia haver de comum entre o intelectual nascido no Missouri que se tornou o protótipo do inglês empertigado, de terno, colete e guarda-chuva, amante da ordem e das boas maneiras, e o filho de imigrantes pobres cujo humor anárquico e vaudevillesco sempre tratou com insolência a elite social, econômica e cultural a que Eliot pertencia?

O poeta, que aos olhos de Ottoline Morrell mais parecia um coveiro, era um catolicão sem a menor simpatia por judeus; Groucho era judeu e um tanto complexado por não ter tido uma educação formal à altura de sua diabólica inteligência. Compartilhavam o mesmo gosto por nomes incomuns (Prufrock, Macavity, Skimbleshanks, Rufus T. Firefly, Otis Driftwood) e, quem sabe, um irreprimível fascínio pelo que os diferençava. Eliot e Groucho deram uma coloração especial ao truísmo de que os opostos se atraem.

Groucho ficou magoado ao não ver seu nome mencionado entre as celebridades intelectuais que coabitavam a parede da sala de Eliot. A involuntária indiscrição foi cometida por Stephen Spender num ensaio sobre Eliot para o suplemento literário do New York Times, que Groucho por acaso leu – e não deixou passar em branco. Eliot, habilmente, aventou a hipótese de Spender ter-se referido apenas aos retratos a óleo e às aquarelas – e a amizade permaneceu nos trilhos.

Corresponderam-se durante três anos, até poucos meses antes da morte do poeta, em janeiro de 1965.

Numa noite de junho de 1964 jantaram juntos, com as respectivas, na residência londrina dos Eliot. Desse encontro, o único que tiveram, só se conhece a versão marxiana. Na manhã seguinte ao jantar, Groucho contou tudo por carta ao irmão Gummo. Para não fazer feio, passara a semana anterior lendo Morte na Catedral e Terra Arrasada. No meio da conversa, socorreu-se de Shakespeare, puxando discussão sobre a “inacreditável tolice do velho rei Lear”, mas o anfitrião só estava a fim mesmo era de trocar impressões sobre Os Galhofeiros, Uma Noite na Ópera e O Diabo a Quatro. Pareciam, na feliz observação do marxólogo juramentado Lee Siegel, dois personagens de uma peça escrita por Samuel Beckett e Neil Simon.

***

Sérgio Augusto é jornalista, colunista do Estado de S.Paulo

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