Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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FEITOS & DESFEITAS >

Propriedades ‘agropessimistas’

Por Paulo de Almeida em 31/08/2010 na edição 605

O Brasil, como o mundo inteiro, vive um conflito prolongado entre o interesse da agroindústria e as verdadeiras necessidades da população e do meio ambiente. Prova disto é a reprodução pela Folha de S.Paulo de um texto sujo da revista britânica The Economist, que repete uma ladainha da tal Revolução Verde desmascarada há décadas, mas que ainda encontra gente porca para comprar seus insumos perniciosos – e também vendê-los através de lavagens cerebrais.

O texto segue o roteiro da Santa Inquisição, que primeiro amedrontava suas vítimas para depois vender ‘seu peixe’ com pretextos absurdos. E inicia seu lobby citando dados da FAO (agência da ONU para alimentação e agricultura) de que ‘a produção mundial de grãos terá que crescer 50% e a de carne terá que dobrar para suprir a demanda’. Isto é uma hipótese, mas até aí tudo bem. Mas a distorção dos fatos fica evidente quando chama de ‘agropoessimistas’ as ‘pequenas propriedades com práticas orgânicas’, que saíram fora da ‘alternativa’ da velha Revolução Verde, que na verdade quer mesmo é vender seus milagres patenteáveis com a dependência à monocultura, que não é viável sem os caríssimos agrotóxicos, é claro.

Quanta mentira e falta de escrúpulo, principalmente quando o exemplo se vira para a faminta África, que deveria seguir o modelo da monocultura brasileira, que pode até superar a dos USA, diz o texto. Realmente é uma máfia muito feia, já que a realidade nos mostra que nos USA a agricultura emprega menos de 1% da população. É isto mesmo! E no mais, do que podemos nos gabar após cinco décadas de Revolução Verde se 1.020.000.000 de pessoas passam fome e 70% delas vivem na zona rural? E se anualmente a agricultura destrói 7-10 milhões de hectares de solos e 20% da superfície terrestre está degradada? Se um terço da produção mundial de grãos é usado para alimentar animais, e disto só 10% é transformado em carne? E se a gente considera a tendência de produção agrícola para alimentar a indústria dos biocombustíveis (parece piada), não há dúvidas de que os verdadeiros agropessimistas são mesmo aqueles que apostam num jogo perdido há muito tempo, e que só vai adiante às custas de vergonhosos subsídios gigantescos com o dinheiro público, e da propaganda enganosa.

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