Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

FEITOS & DESFEITAS > ECOS DE BUSH NO BRASIL

Prós e contras na cobertura da imprensa

Por Cássio Gusson em 20/03/2007 na edição 425

A cobertura feita pela imprensa, brasileira e mundial, referente à visita do presidente Bush ao Brasil mostrou-se, no geral, de boa qualidade, embora algumas faltas tenham prejudicado a cobertura em diversos momentos, o que revela problemas de observação, como este Observatório tem apontado há muito tempo e que agora ficaram extremamente evidentes por se tratar de um acontecimento de repercussão mundial.

O erro que culminou em que quase todos os veículos de imprensa dessem a ‘mesma notícia’ foi, como apontou Marcelo Beraba em coluna de domingo (11/3), na Folha de S.Paulo, a falta em não escolher fontes alternativas na avaliação de todos os pontos que uma determinada matéria suscita.

O porquê da ‘bolha’

Antes da chegada de Bush, Folha e Estado de S.Paulo anunciaram as medidas de segurança que a ‘bolha’ previa, bem como o roteiro de sua viagem. A Folha, nesse primeiro momento, teve o mérito de publicar matérias chamando atenção para os contrastes a que a cidade de São Paulo está sujeita e como a prefeitura tentou ‘esconder a sujeira debaixo do tapete’, realizando operações para ‘maquiar’ as ruas pelas quais o presidente norte-americano passaria. Mostrou também foto do Hilton com a vista de frente para o mar de gente que reside na favela da Av. Jornalista Roberto Marinho, mostrando a desigualdade social que afeta o país.

Já nesse primeiro momento (anterior à chegada de Bush), os jornais e órgãos da imprensa em geral deixaram de abordar temas que seriam propícios para uma melhor clareza do tema. Deixaram de argumentar o por quê da adoção total do plano de segurança norte-americano, ‘bolha’ que transtornou e prejudicou milhares de paulistanos. Não haveria outras possibilidades? Outros meios? Foi exigência? De quem? Por quê? Também não foi questionado quanto se gastou para a elaboração desse esquema de segurança e com que dinheiro esses gastos foram ou serão pagos.

Omissões e especulações

A grande maioria dos impressos nacionais saiu com reportagens na sexta-feira mostrando as manifestações desfavoráveis ao presidente norte-americano. Jornais e emissoras do mundo todo – como a Al Jazira, El Universal e The New York Times, entre outros –seguiram a mesma tendência e alguns, como Le Monde, consideraram mais importante a questão da agenda ‘flex’ de Bush, que a imprensa brasileira também abordou em seus cadernos respectivos.

Falhas cometidas dizem tanto respeito ao que apontou o editorial da Folha de domingo, criticando o caráter infantil e arruaceiro das manifestações, como a não apuração concreta de fatos, como o da Al Jazira ter sido impendida de transmitir imagens de onde já havia recebido autorização para fazê-las, sendo que artigo na Folha revelava como a rede sofre preconceitos da equipe de assessoria do presidente norte-americano.

Com relação às manifestações de quinta-feira e aos bloqueios feitos para preservar a ‘bolha’, faltaram matérias mostrando o prejuízo que paulistanos diversos tiveram e a conseqüência desses prejuízos. Reportagens mais consistentes foram sobre as questões Chávez, álcool e ajuda social norte-americana. Faltaram análises técnicas sérias, e não baseadas em pontos subjetivos, sobre as conseqüências ambientais e sociais de uma triplicação da produção de cana.

O Brasil não corre o riso de ser novamente um grande cafezal? No que diz respeito a Chávez, nenhum dos veículos de imprensa procurou ouvir palavras do presidente venezuelano ou de representantes do mesmo. Somente figuraram as especulações sobre o caso Bush x Chávez, com o Brasil exercendo o papel de ‘me isento pois sou amigo dos dois e torço para que vença o melhor, pois estarei com ele’.

Esmola para os pobres

No sábado, os jornais deram prioridade às propostas de investimento e colaboração entre os dois países. Propostas que na verdade não representam acordos ou ‘vias de fato’ porque precisam ser aprovadas pelos respectivos Congressos de ambos os países antes de entrarem em vigor. Não se abordou o conteúdo dessas propostas, nem tampouco as possibilidades reais e de infra-estrutura para realização das mesmas.

El Mercurio, The Washington Post, The Washington Times, The Sun, El Universal e outros foram exemplos idênticos. Adotaram a questão das propostas, porém cometendo os mesmos erros que os brasileiros. Neste dia em questão, a Folha de S. Paulo publicou artigos, na seção ‘Tendências e Debates’, somente sobre o tema, o que ajudou a acrescentar informações sobre o fato, mas não passou do ‘chove e não molha’ que a grande imprensa realizou. Faltaram também matérias mostrando como ficou a cidade depois da visita e como ficaram os moradores que foram impedidos de sair de suas casas durante o cortejo presidencial.

Pouca atenção foi dispensada à manifestação na Argentina, que contou com a presença de Chávez e com foco nas discussões Bush/Lula, erro crasso da imprensa, que não zelou pela informação completa e não abordou com relevância o assunto. Merece créditos, porém, por mostrar que a ‘ajuda social de Bush’ não passa de, na verdade, de uma redução da esmola para os pobres, pois a ajuda já existia e com a visita foram anunciados, pela assessoria norte-americana, números de grande porte, com o objetivo de impressionar, mas que, na verdade, representam valores ínfimos e mesmo menores do que os de 2005/2006.

Perguntas para Bento 16

Ficou latente a falta da imprensa em analisar o assunto de acordo com a sua complexidade. A gradual inserção do álcool combustível certamente mudará o cenário de poder mundial, que atualmente é concentrado no petróleo. Chávez representa o principal ponto de ‘resistência’ ao modelo norte-americano, apoiado em seus petrodólares e em sua política populista, que tem angariado seguidores por todo o mundo. Devido à sua complexidade, estes temas não poderiam ter sido tratados apenas como notícia – e ainda menos como notícia de ‘mão única’.

À imprensa caberia ouvir as vozes envolvidas e não, por exemplo, apenas publicar uma entrevista de ‘cartas marcadas’, como foi a coletiva com o presidente norte-americano. O zelo no trato da informação, abordando as particularidades e elementos que a compõem, é dever da imprensa, o que não foi totalmente cumprido neste evento. Perdeu-se a oportunidade de realizar matérias mais consistentes e esclarecedoras sobre um evento de repercussão e importância global.

Espera-se que esta ‘superfície’ não fique em voga quando outros líderes mundiais visitarem o Brasil – afinal, há muito o que perguntar a Bento 16, inclusive sobre Bush, Chávez e a política de intolerância que começa a se vislumbrar entre ambos.

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Coordenador de Comunicação, Jundiaí, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/03/2007 Moyzes Braz

    Cássio, sobre a cobertura dos ‘protestos’ não só aqui, mas em toda a América Latina, vale salientar que os tais protestos carregavam, como visto nas imagens da TV, bandeiras, faixas e slogans de movimentos comunistas mesmo, em sua totalidade. No entanto, na hora de noticiar, atenta-se ao fato do protestos ser ‘contra Bush’, mas ignora-se solenemente que o protesto faz menção à propaganda comunista. Eu não estava lá, milhões de pessoas não estavam lá. Aliás, outras milhões estavam se lixando para como a visita. Portanto os ‘protestos’ são de militantes comunistas, não da população. Ao ignorar esse fato, dá-se a impressão que a ‘população’ dos países foram às ruas, o que é uma mentira. Por isso acho desonesto noticiar o protesto, mas não noticiar QUEM faz o protesto, o que seria justo.

    Da mesma forma ao ‘protesto’ no estádio feito na Argentina: dos 40 mil que lotaram o estádio, a maioria teve a passagem de ônibus paga pelo próprio Chavez. Tal qual são feitas nas ‘manifestações’ de sem-terra ou de comunistas em Brasília, o próprio governo paga o deslocamento dos militantes. O da Argentina, ficou muito na cara que era um protesto fake, para propaganda personalista de Chavez, por isso a Imprensa não caiu na dele.

    Acho que, apesar das preferências de cada um, de direita ou esquerda, a imprensa tem o DEVER de sempre abordar os DOIS lados, se não for assim, adeus democracia.

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