Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > SEXTA-FEIRA, 7/09

PT quer mudar regra para
concessões de rádio e TV

Por Textos selecionados por Luiz Antonio Magalhães em 07/09/2007 na edição 449


Leia abaixo a seleção de sexta-feira para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Sexta-feira, 7 de setembro de 2007


MÍDIA & POLÍTICA
Fábio Zanini


PT endossa atos contra concessões de TVs


‘Quatro dias depois de apoiar um plebiscito sobre a reestatização da Vale do Rio Doce, o PT decidiu novamente flertar com a agenda ‘chavista’ de alguns movimentos sociais, desta vez com relação à renovação de concessões de TV.


Decisão da Executiva Nacional divulgada ontem diz que o PT ‘acompanhará’ manifestações programadas para 5 de outubro sobre a renovação das concessões das TVs e cita especificamente a Rede Globo.


Segundo os organizadores, nesta data vencem concessões das TVs Bandeirantes, Gazeta, Cultura e de cinco afiliadas da Rede Globo. O Ministério das Comunicações não comentou o caso, nem confirmou o vencimento das licenças.


A Executiva decidiu ainda orientar a bancada do partido na Câmara dos Deputados a ‘fazer gestões’ para mudar o atual sistema de concessões.


Os protestos são organizados por entidades como CUT, MST e UNE, que pretendem atacar a renovação das concessões sem a fixação de ‘condicionantes’ como cota mínima de programação cultural, pedagógica e regional, além de acesso mais fácil a direito de resposta.


‘Movimentos sociais e entidades do campo da comunicação vêm preparando mobilizações nas quais pretendem questionar o sistema de concessões, a concentração de propriedade e cobrar critérios que garantam a participação da sociedade organizada nas outorgas e renovações e no acompanhamento do conteúdo transmitido. A Executiva acompanhará o desenrolar destas mobilizações e solicitará à nossa bancada no Parlamento que faça as gestões necessárias para que seja revisto o atual sistema de concessões’, diz o PT.


Fazem parte da Executiva, entre outros, o presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini, e o assessor especial da Presidência Marco Aurélio Garcia.


Ao escolher o verbo ‘acompanhar’, o partido propositadamente usa linguagem ambígua, diferentemente do caso da Vale, em que o apoio à consulta é explícito. Segundo a Folha apurou, a opção foi por uma dose de cautela em tema tão sensível. A sinalização que o partido quer mandar é de que pretende entrar no debate sobre as concessões de TV.


‘O PT, pela sua história, não teria dificuldade nenhuma em apoiar os protestos sobre comunicação. Mas por enquanto é um acompanhamento político que estamos fazendo’, disse o deputado federal Jilmar Tatto (SP), um dos vice-presidentes da legenda. Tatto entregou ontem cópia da nota ao ministro Franklin Martins (Comunicação Social), que não quis se comprometer com seu teor.


Protestos


Os protestos de 5 de outubro estão marcados para as 27 capitais do país. ‘A sociedade não aceita a renovação automática das concessões sem condicionantes’, disse Antonio Carlos Spis, representante da CUT. Os organizadores não têm ilusão de que conseguirão barrar a renovação da concessão, como ocorreu na Venezuela, onde foi cassada da concessão da RCTV, a principal emissora do país. ‘Queremos fazer a crítica, o debate político’, afirma Spis.


O PT, na sua nota, ainda pede ao governo a realização de uma conferência nacional sobre democratização da comunicação e cobra que o conselho da nova TV pública, prevista para ser criada no final do ano, seja ‘representativo da sociedade’.


Ontem, em reunião com 15 deputados petistas, Martins disse que o governo poderá enviar uma medida provisória criando a TV pública, e não um projeto de lei. A MP criaria imediatamente a emissora, enquanto um projeto pode ser arrastar por anos. A decisão deve ser tomada até o fim deste mês.’


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GLOBO E RECORD NÃO COMENTAM OS PROTESTOS


‘A assessoria de imprensa da Rede Globo afirmou ontem que não comentaria a resolução do PT, pois ‘não poderia se manifestar sobre algo que ainda não aconteceu’, referindo-se às mobilizações. Também consultada, a Rede Record disse que não falaria sobre o tema. A Band não respondeu até o fechamento desta edição se iria comentar o caso.’


GRAMPOS EM DEBATE
Editorial


Limites à arapongagem


‘RÉCEM-INDICADO para assumir a diretoria geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Paulo Lacerda prometeu ‘ampla reestruturação’, para atender ao desejo do presidente Lula de ‘dar uma nova cara’ ao órgão. Antes mesmo de assumir, afirmou que pretende levar ao Congresso um projeto de lei que permita à Abin fazer escutas telefônicas em casos ‘especialíssimos’, como os de suspeita de terrorismo e sabotagem. É uma proposta descabida.


No plano conceitual, quanto mais órgãos públicos puderem realizar escutas com autorização judicial maiores as chances de violações do artigo 5º da Carta, que, em seu inciso XII, define o sigilo das comunicações telefônicas como direito inviolável do cidadão.


No mais, a própria idéia de combate ao terrorismo e a atos de sabotagem parece escapar às atribuições da Abin. Até agora relegada a segundo plano no governo petista, a agência, que responde diretamente ao gabinete da Presidência, tem a missão de centralizar informações de inteligência para o Planalto.


Não cabe a ela apurar infrações penais contra a ordem política e social, como as eventuais ações terroristas e de sabotagem. O parágrafo primeiro do artigo 144 da Constituição determina que tais investigações são de responsabilidade da Polícia Federal, órgão que Lacerda dirigia até a última segunda-feira.


Se, no curso de suas atividades regulares, agentes da Abin encontrarem indícios de operações criminosas, devem repassar suas suspeitas à PF, que tem a missão constitucional de investigá-las, inclusive requerendo à Justiça a quebra do sigilo, se for o caso.


E o novo comandante da Abin, em vez de tentar ampliar seu poder de arapongagem, faria melhor se assumisse o compromisso de impedir que seus subordinados façam escutas clandestinas -prática que os notabilizou.’


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Agora, petróleo


‘De uma hora para outra, dos sites de ‘Wall Street Journal’ e ‘Financial Times’ até o chinês ‘Diário do Povo’, de BBC e Bloomberg aos sites globais do setor, amontoaram-se ontem relatos da descoberta na bacia de Santos, anunciada anteontem. Subiram ações da Petrobras na Bovespa e da BG em Londres, por conta. É petróleo ‘leve’, raro para a ‘gigante brasileira’. Já especulam por quantos anos poderia suprir os EUA. Já prevêem até a ‘especulação sobre uma segunda província do tamanho de Campos’, agora em Santos.


Isso, após os louvores de ‘WSJ’ e ‘FT’ à Petrobras.


AGORA, CPI


Ao fundo, aqui, corre pela blogosfera mais especulação – sobre a CPI da Petrobras. É uma das muitas em fila na mesa de Romeu Tuma, ele que está ‘de malas prontas para sair do DEM’ e viu o filho virar secretário de Justiça.


E outra investigação sobre a Petrobras é seguida de perto na blogosfera -a da Comissão de Valores Mobiliários, após questionamentos do DEM e do PSDB de Paulo Renato.


VALE VS. PETROBRAS


E muito mais corre pela web. Lauro Jardim segue dia após dia a disputa de cargos na estatal, entre dois PMDBs.


E o Relatório Reservado acompanha o estranhamento entre Vale, que até contratou Henri Philippe Reichstul, ex do governo FHC, e Petrobras. De ontem, ‘no dia em que a Vale entrar na exploração de petróleo, a Petrobras vai extrair e exportar minério. Já no gás para consumo…’.


BILHÕES E BILHÕES


A Unidade de Inteligência da ‘Economist’ fez relatório, ecoado na BBC, dizendo que o investimento externo no Brasil deve fechar 2007 em US$ 34,5 bi, salto de 83,5%. Resultado que viria ‘apesar da turbulência nos mercados mundiais’, mas deve ‘se reduzir gradualmente’ de 2009 a 2011, quando também cairia ‘o preço das commodities’.


RESISTENTES E…


O ‘Financial Times’ deu em longa reportagem que ‘uma característica notável das preocupações do último mês nos mercados globais é a resistência dos emergentes’.


Mas haveria emergentes e emergentes, destaca o jornal. De um lado, cita Rússia, Brasil e Peru. De outro, a Venezuela, mais Turquia, Bulgária etc.


DESEQUILIBRADOS


A situação na Venezuela se agravou ontem a ponto de ser destaque do Market Watch, da Dow Jones, registrando que, ‘na América Latina, as economias desequilibradas de Venezuela e Argentina são mais vulneráveis, enquanto o Brasil é bem mais saudável’.


TELES E O FUTURO


A ‘Forbes’ deu relatório da ONU avaliando que ‘61% dos assinantes de celular estão em países em desenvolvimento como Brasil, China, Índia e Rússia’. Os Brics de sempre, mas, também como sempre, no título, ‘O futuro das teles [está] na Índia e na China’.


CAMPO DE BATALHA


‘FT’ e outros noticiaram a decisão judicial no Brasil que liberou a Anatel para aprovar a fusão Telefônica/Telecom Itália. É capítulo da ‘batalha pelo domínio do mercado de celulares em alto crescimento no país’. Mercado de ‘crítica importância’ para as duas ex-estatais em conflito aberto -a Telefônica e a Telmex.


‘CIDADE DE DEUS 2’


O ‘hype’, no dizer do ‘Guardian’, sobre o filme ‘Tropa de Elite’ , ainda nem lançado mas muito visto, chegou ao próprio jornal londrino, na longa reportagem ‘Uma nova geração de ‘desaparecidos’ leva às ruas do Rio a angústia’.


O correspondente Tom Philips acompanhou cenas de crueza não muito diversa daquelas que ele descreve do novo filme, ‘hypado’ no texto como ‘Cidade de Deus 2’.


HIPÓTESE PRIMEIRA


Em registro lacônico ontem no ‘Jornal Nacional’, ‘foi concluída hoje a obra para aumentar a segurança’ em Congonhas. Enfim, são ‘as ranhuras’ que ‘servem para escoar a água da chuva’.


MUNDO CÃO


Nas manchetes do ‘Jornal da Record’, violência. Para abrir a escalada, ‘Irmão do cirurgião acusado de mutilar 20 mulheres é denunciado’. Depois, ‘A polícia paulista usa ‘pitbulls’ e provoca polêmica’.’


PUBLICIDADE
Folha de S. Paulo


Conar confirma direito da Folha de usar o slogan ‘maior jornal do país’


‘O Conselho de Ética do Conar (Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária) confirmou o direito da Folha de utilizar em suas campanhas publicitárias as expressões ‘o jornal que mais vende no Brasil’ e ‘o maior jornal do país’. A frase ‘tem os classificados que vendem mais’ não deve ser usada por ‘ninguém’, segundo a decisão do conselho.


A definição ocorreu no dia 16 de agosto, quando o órgão analisou, em segunda instância, recurso do jornal ‘O Estado de S.Paulo’ para impedir que a Folha usasse as frases citadas.


O caso começou em maio deste ano, quando o jornal ‘O Estado de S.Paulo’ entrou com uma representação no Conar contra o uso das três frases.


Em primeira instância, o conselho decidiu, no dia 14 de junho, que a expressão ‘o jornal que mais vende no Brasil’ pode ser usada desde que a Folha informe no anúncio dados de circulação do IVC (Instituto de Verificação de Circulação).


Em relação à expressão ‘o maior jornal do Brasil’, o conselho diz que a Folha pode continuar a usá-la desde que especifique que ‘trata-se do maior jornal do Brasil em número de leitores, segundo o Ibope’.


A terceira expressão, ‘tem os classificados que vendem mais’, não deve ser usada por nenhum veículo porque não há pesquisas que indiquem com exatidão qual é o jornal cujos classificados vendem mais.


O jornal ‘O Estado de S.Paulo’ recorreu da decisão de primeira instância. No dia 16 do mês passado, o conselho de ética manteve, em segunda instância, a decisão anunciada em junho. Como a decisão foi unânime entre os 14 conselheiros que participaram do julgamento, não cabe recurso.


‘Há mais de 20 anos (1986 a 2006), a Folha de S.Paulo aparece como líder na média anual de circulação paga de jornais. A Folha liderou a circulação paga em julho, último mês aferido, com 298.060 exemplares vendidos, enquanto ‘O Estado de S. Paulo’ ocupa apenas a quinta posição, com 236.427 exemplares vendidos. Além disso, a Folha detém o maior número de leitores (2.632.000) do Brasil, segundo o Instituto Ibope, enquanto o Estado ocupa apenas a quarta posição nesse quesito (1.810.000)’, afirmou a Folha em nota oficial.


Procurado pela reportagem, o Grupo Estado disse que não se pronunciaria sobre o caso.’


CASO SCHOEDL
Folha de S. Paulo


Justiça proíbe Record de exibir imagem ‘íntima’ de promotor


‘O promotor Thales Schoedl, que responde a processo por matar um jovem a tiros e balear outro em um luau em Bertioga (SP), em 2004, conseguiu liminar para proibir a Rede Record de exibir imagens de sua ‘vida íntima e privada’.


Segundo a decisão judicial, a emissora tem de pagar R$ 10 mil a cada dia em que veicular imagens de Schoedl feitas com câmera escondida. Nas cenas, ele aparece em um restaurante e em uma academia de ginástica.


Em outra liminar, a Justiça proibiu a emissora de usar imagens de Mariana Ozores Bartoletti, namorada do promotor na época.


A emissora afirma que vai recorrer da decisão.’


TELEVISÃO
Daniel Castro


TV Cultura pede transmissor digital a Lula


‘Sustentada pelo governo de São Paulo, a TV Cultura pediu ao governo federal a doação de um transmissor digital importado que custa entre R$ 3,5 milhões e R$ 4 milhões instalado.


O transmissor é a ‘contrapartida’ que a Cultura espera do governo Lula para ceder sua torre, no Sumaré (zona oeste de São Paulo), para a futura TV pública nacional, que tem o nome provisório de TV Brasil.


Com urgência para entrar no ar (a previsão é dezembro), a TV Brasil precisa alugar uma torre para instalar antenas e transmissores. O valor que o governo federal gastar no transmissor da TV Cultura será abatido do aluguel que teria que pagar pelo uso da torre.


As negociações estão sendo feitas entre a Cultura e a Radiobrás, estatal que, assim como a TVE do Rio, será extinta e incorporada pela nova TV Brasil.


Segundo José Roberto Garcez, presidente da Radiobrás, o acordo já está ‘praticamente fechado’. Faltam definir detalhes jurídicos (como será feita a transferência do transmissor) e duração da parceria. Há também uma negociação para que TV Justiça, TV Câmara e TV Senado dividam o custo do transmissor e, futuramente, também compartilhem a torre.


Procurado pela Folha, Roque Freitas, coordenador de comunicação da Cultura, disse inicialmente que a emissora não tinha nada a falar sobre o assunto. Depois, pediu o envio de perguntas por e-mail.


MODELO A TV Brasil, a TV pública federal que o presidente Lula planeja lançar em dezembro, deverá ser uma ‘empresa não-dependente’ _e não uma fundação. Todo início de ano, o governo federal fará um ‘aporte de capital’, de R$ 350 milhões, para o custeio e investimentos da emissora. E não poderá ‘contingenciar’ (bloquear) nenhum centavo dessa verba.


NOTÁVEL O secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, Orlando Senna, era tido ontem como futuro diretor-executivo da TV Brasil. A indicação faz parte de acordo entre os ministros Gilberto Gil (Cultura) e Franklin Martins (Comunicação Social). Inicialmente, a TV pública seria tocada pelo ministério de Gil _mas a ‘missão’ foi transferida para Martins.


SEM MÁSCARA A Record está editando os capítulos de ‘Zorro’. A novela latina vai sair do ar mais cedo, no final do mês. Anteontem, a emissora mudou seu horário, das 18h25 para as 17h30. A audiência, que já era insatisfatória, despencou para 2 pontos.


DIGITAL A campanha de lançamento da TV digital, que seria feita por todas as emissoras em setembro, foi adiada para outubro. Os filmes, de teor didático e sob responsabilidade da Globo, ainda não estão prontos.


DESCAMINHOS Diretor de programação da Globo, Antonio Zimermann apostou com Walter Zagari, vice da Record, que ‘Caminhos do Coração’ não daria 11 pontos anteontem. Perdeu um jantar. A produção marcou 15.’


***


Cultura estréia ‘Doc TV Ibero-América’


‘Depois de apresentar títulos nacionais premiados como ‘Aboio’, de Marília Rocha, e ‘Acidente’, de Cao Guimarães, a faixa ‘Doc TV’, da Cultura, amplia hoje suas fronteiras e passa a mostrar destaques da produção não-ficcional da Ibero-América. Documentários de Cuba, México, Porto Rico, Colômbia, Costa Rica, Peru, Panamá e Chile, entre outros, estão no pacote.


A estréia é com o boliviano ‘Inal Mama’, de Eduardo Lopez, que esquadrinha as diferentes facetas da folha de coca: matéria-prima para a produção de cocaína, detentora de propriedades medicinais, instrumento de poder… Mais frugal promete ser ‘Argentina e Sua Fábrica de Futebol’, programado para a sexta que vem. Na fita de Sérgio Iglesias, que investiga as engrenagens das peneiras dos times profissionais dos ‘hermanos’. Mais para frente, o cardápio


tem um perfil do fotógrafo mexicano Héctor García, o relato da batalha de um povoado cubano contra intempéries marítimas e terrestres e o reencontro de dois cineastas com um amigo de infância que foi o primeiro soldado dos Estados Unidos a desertar das tropas na guerra do Iraque.


Em tempo: a quarta leva do ‘Doc TV’ Brasil está sendo produzida e deve estrear em breve. Até agora, 95 documentários já foram exibidos na faixa.


DOC TV IBERO-AMÉRICA


Quando: hoje, às 22h40


Onde: TV Cultura’


CRÔNICA
Carlos Heitor Cony


Lady Di: cúmplice e vítima


‘ENTRE AS coisas inúteis que fiz, a mais cansativa foi a de me apertar num poleiro da catedral de São Paulo, em 1981, para assistir ao casamento do príncipe de Gales com uma professorinha que estava sendo vendida como plebéia, chamada Diana.


Tarefa profissional apenas, que me obrigou a cumprir o complicado calvário entre embaixadas e agências de notícias para descolar a credencial que dava, ao fotógrafo Antônio Rudge e a mim, o direito que estava sendo disputado -segundo me disseram- por mais de 10 mil jornalistas de todo o mundo.


Na época, escrevi umas cinco ou seis matérias para as finadas ‘Manchete’ e ‘Fatos&Fotos’, dando conta do pouco que vi e do muito que procurei adivinhar naquela cerimônia que foi considerada ‘o casamento do século’. Três detalhes me impressionaram. Primeiro: o pai da noiva, Lord Spencer, adentrou a bela catedral de Cristóvão Wren cambaleante, não era ele que apoiava a filha mas a filha que o apoiava, para que não desabasse antes de chegar ao altar. Devia ter exagerado no gim -bebida a que era chegado, só perdendo a ‘pole position’ para a rainha-mãe, avó do noivo, também chegada ao gim sem tônica. Por duas ou três vezes, mesmo amparado pela noiva, ele ameaçou se despencar nos bancos cheios de convidados da nobreza mundial.


Segundo: o príncipe Charles estava simples e belamente apavorado, com medo de cometer alguma gafe. Não olhava para ninguém, somente para a mãe, a rainha Elizabeth 2ª, que o esperava no altar com cara e postura da professora de boas maneiras rastreando a performance de seu aluno mais caro. Até mesmo na hora do ‘sim’, antes de pronunciá-lo, ele olhou para a mãe. Deviam ter ensaiado um código: um piscar de olhos ou uma cabeça baixa consagraria um casamento ou um escândalo.


Terceiro: a própria noiva em si. Apesar da pompa e circunstância, aos compassos da marcha homônima de Elgar, era toda modéstia e pasmo, a Cinderela que encontrara o encantamento de um príncipe de carne e osso, herdeiro de um trono de verdade.


Tudo era festa então, dentro e fora da catedral. Mais tarde, os dois apareceram na sacada do palácio real, o povo delirava, não pedia bis como nas óperas, mas o beijo tradicional e obrigatório de dois noivos que afinal estavam casados. E o beijo não vinha. Eu precisava daquele beijo para a capa do número especial das revistas para as quais trabalhava, Rudge entrava em desespero, a sua lente mais poderosa assestada para o casal. E nada de beijo.


Os dois se retiraram da sacada, mas a gritaria do povo aumentou, tiveram de voltar. Afinal, o beijo rápido, protocolar, a nobreza obriga e o povo ficou satisfeito, começou a cantar, que Deus salvasse a rainha -não a rainha que estava lá dentro, de cara amarrada, mas a futura rainha, toda branca, parecia feita de espuma e neve.


Semana passada, houve um entupimento nos canais da televisão com filmes, documentários e programas celebrando os dez anos da morte da moça que, ao contrário da Inês cantada por Camões, nem depois de morta foi rainha. Parcela considerável da opinião pública considera que a mídia a matou, pagando fortunas aos paparazzi por fotos consideradas quentes e capazes de aumentar as vendas. Do bravo Antônio Rudge, que esperou um tempão para ter a foto dela beijando o marido, logo após o casamento, aos fotógrafos que a perseguiram pelas ruas de Paris naquele 31 de agosto de 1997, Lady Di foi mais cúmplice do que vítima da sociedade que quer saber ‘tudo’ e de alguma forma paga para ser informada.


Um dos documentários exibidos na TV mostra Diana e seu mais recente namorado, no iate do pai de Dodi, naquele que seria o último passeio dos dois. De repente, o rapaz repara que estão sendo seguidos por uma lancha cheia de fotógrafos. Reclama de seus seguranças, responsáveis por sua privacidade: ‘Como foi que eles souberam do nosso passeio?’. Moça honesta, Diana respondeu: ‘Fui eu que avisei’.


Dois dias depois, no hotel Ritz, em Paris, ela e o namorado quiseram jantar fora. Tudo indicava que ele a pediria em casamento. Desta vez, não foi ela que avisou: os fotógrafos estavam lá, adivinhando que alguma coisa podia acontecer. A foto de Dodi colocando o anel de noivado no dedo de Diana valeria alguns milhões de dólares. Bem informada, a sociedade pagaria.’


MEMÓRIA / LUCIANO PAVAROTTI
João Batista Natali


Morre o popstar da ópera


‘O tenor Luciano Pavarotti morreu ontem em Modena, Itália, vitimado por um câncer no pâncreas que o havia levado a uma cirurgia de emergência em julho do ano passado, num hospital de Nova York.


Ele estava com 71 anos e morreu por volta das 5h locais. No momento de sua morte, estavam na casa dele sua mulher, Nicoletta Mantovani, 36, as quatro filhas do tenor, sua irmã, Gabriela, sobrinhos e um grupo reduzido de amigos.


Desde anteontem, os veículos de comunicação italianos noticiavam brusca piora de Pavarotti, que sempre esteve ‘sereno’ com sua saúde, disse o médico oncologista Antonio Frassoldati, que o atendeu em seus últimos dias.


Em entrevista a um canal de TV italiano, Frassoldati disse que o tenor se manteve ‘muito consciente da situação, sempre tentando combater a doença’.


O prefeito de Modena, Giorgio Pighi, disse que o funeral de Pavarotti acontecerá amanhã, mas o horário será confirmado hoje. Uma missa será celebrada na catedral da cidade, que deverá dar a seu teatro o nome do tenor.


A Itália ficou em estado de comoção. Diversos fãs manifestaram pesar em sites dos principais jornais e canais de TV do país. Em nota, o empresário do tenor, Terri Robson, disse que Pavarotti estava empenhado em completar a gravação de uma série de músicas sacras.


Importância


Pavarotti foi um personagem singular na música lírica da segunda metade do século 20. Não tanto por suas qualidades, imensas, mas por ter se tornado um grande nome na mídia. Possuía uma fortuna de ‘centenas de milhões de dólares’, disse seu ex-empresário Herbert Breslin. Durante seus 43 anos de carreira vendeu 100 milhões de LPs e CDs. Segundo cálculos do crítico britânico Norman Lebrecht, essa marca, no setor erudito da indústria de discos, só é superada pelo maestro austríaco Herbert von Karajan (200 milhões), morto em 1989, e que gravou 900 títulos, 24 vezes a mais que o tenor.


Apesar dessa estrondosa presença comercial, poucos são os críticos que consideravam Pavarotti como o ‘maior e o melhor’ cantor de ópera de todos os tempos.


Em geral, considera-se que sua voz não tinha a pureza de timbre atribuído a Enrico Caruso, Beniamino Gigli ou Lauritz Melchior. Em cena, ele jamais teria sido um ator tão competente quanto Plácido Domingo -espanhol e seu companheiro, com José Carreras, em Os Três Tenores, sucesso de vendas nos anos 90.


Mas Pavarotti foi insuperável em seu carisma. Ele tinha o poder de transmitir uma quantidade infinita de sentimentos armazenada numa ária de Bellini, Donizetti ou Puccini. O público era capaz de ignorar sua aparência histriônica e aplaudi-lo como se nenhum outro cantor jamais tivesse chegado a seus pés.


Já no fim da carreira, no Kennedy Center, em Washington, entrou em 2001 para o Guinness ao ser solicitado 165 vezes diante das cortinas pelo público que o ovacionava.


Qualidades


Suas qualidades técnicas foram bem resumidas por Anthony Tommasini, crítico do ‘New York Times’. A sonoridade de sua voz era inconfundível, ‘quente e envolvente, com uma ponta escura de barítono’. Seu fraseado emergia com uma encantadora naturalidade, atingindo na escala cromática um dó extremamente agudo. Alguns puristas, no entanto, consideravam que Pavarotti exagerava em suas redundâncias, acrescentando à letra, à melodia e à orquestração algumas curtíssimas pausas desesperadas de aspiração para reforçar a dramaticidade do personagem.


Um dos quatro filhos de um padeiro e tenor amador de Modena, Pavarotti nasceu em 12 de outubro de 1935. Seus primeiros heróis foram jogadores de futebol -torcia para a Juventus, de Turim- e tenores como Martinelli, Caruso e Schipa, presentes no fonógrafo de seu pai.


O primeiro salto em sua carreira se deu em 1965, em Miami, quando substituiu um tenor acamado numa produção regida pelo britânico Richard Bonynge, com a mulher dele como parceira, a soprano australiana Joan Sutherland.


O regente e a cantora apadrinharam o polimento final de uma voz já encantadora. E foi pelas mãos deles que Pavarotti recebeu convites para se apresentar no Scala de Milão -foi um dos solistas do ‘Réquiem’, de Verdi, regido por Karajan- e, no ano seguinte, no Covent Garden, de Londres.


Mais ou menos naquela época, o cantor recebeu de um dos diretores do selo Decca um conselho que o modificaria bastante. Além de um agente, ele precisaria de um especialista em marketing que projetasse sua imagem. Foi assim que, nos 36 anos seguintes, o tenor e Herbert Breslin estariam associados para criar a figura do popstar da ópera.


‘Eu gosto de dinheiro’, afirmava Breslin. E o obtia. Os cachês sempre tiveram um teto -hoje fixado em Nova York ou Viena em US$ 15 mil por récita. Mas Breslin passou a vender Pavarotti para shows em ginásios de esporte ou estádios, cobrando US$ 300 mil.


Nesses espetáculos, o cantor não deveria se limitar ao repertório clássico. Precisaria também apresentar cançonetas napolitanas ou música pop.


Pavarotti e Breslin romperam em 2002. Mas já havia 12 anos que o cantor se associara ao empresário húngaro Tibor Rudas, o inventor de Os Três Tenores, que estrearam em 1990 na Copa do Mundo da Itália. Oito anos depois, na Copa da França, cada um deles embolsou US$ 3 milhões por uma nova apresentação.


Como celebridade assumida, o tenor italiano se ensimesmou num universo cheio de manias que Breslin, ao romper com ele, maldosamente relatou, em 2004, num riquíssimo livro de mexericos, intitulado ‘The King and I’ (o rei e eu).’


***


CIDADE NATAL DO TENOR FAZ HOMENAGENS


‘O prefeito de Modena, cidade onde nasceu e morreu Pavarotti, anunciou ontem uma proposta para que o famoso Teatro Comunale da cidade passe a levar o nome do tenor. ‘Pavarotti deu prestígio a Modena’, disse o prefeito, Giorgio Pighi, que também confirmou que o funeral do tenor será realizado amanhã, na cidade. Tanto o Comunale quanto o célebre Alla Scala, de Milão, organizarão em 2008 um concurso internacional de canto que também levará o nome de Pavarotti. ‘É um momento de luto, mas estamos orgulhosos de termos conhecido um dos grandes personagens de nossa época. Foi um privilégio para os modenenses.’’


Irineu Franco Perpetuo


Fase pop quase ofuscou voz privilegiada


‘Nos últimos anos de sua carreira, os problemas vocais e pessoais de Luciano Pavarotti ocuparam tanto a mídia que quase chegaram a jogar no esquecimento as inegáveis qualidades que fizeram do tenor um dos maiores fenômenos da ópera no século 20, ao lado do também tenor Enrico Caruso e da soprano Maria Callas.


Pavarotti pegou uma ária de Puccini (‘Nessun Dorma’, da ópera ‘Turandot’) e deu a ela popularidade e difusão equivalentes às de uma canção pop. Isso aconteceu na abertura da Copa do Mundo de 1990, na Itália, no célebre concerto dos Três Tenores. Sim, Plácido Domingo e José Carreras também estavam lá, mas foi a ária de Pavarotti, inegavelmente, o item de maior sucesso da noite.


Com o talento moldado por Ettore Campogalliani (mesmo professor de canto de outro prodígio de Modena, a soprano Mirella Freni), Pavarotti estreou em 1961, em ‘La Bohème’. A gravação da récita é reveladora: o público solta um ‘oh’ de espanto ao ouvir o jovem e desconhecido tenor atingir e sustentar, sem esforço, o dó agudo da ária ‘Che Gelida Manina’.


Dós de peito seriam a especialidade e a glória do jovem Pavarotti. Nova York se prostrou ao ouvi-lo emitir, no palco do Metropolitan, como se dificuldade não houvesse, os nove dós da ária de tenor da ópera ‘A Filha do Regimento’, de Donizetti; e os fanáticos gostam de cronometrar o mais longo dó sustentado pelo tenor (aparentemente, foram 13 segundos, em ‘Il Trovatore’, de Verdi).


Inicialmente um tenor ligeiro, centrado nos papéis do ‘bel canto’ (como Nemorino, no ‘Elixir do Amor’, de Donizetti -talvez, sua criação mais emblemática dessa época), Pavarotti rapidamente evoluiu para o registro de tenor lírico -Riccardo, em ‘Un Ballo in Maschera’, de Verdi, foi possivelmente o melhor veículo para seu timbre inconfundível, dourado e cheio de harmônicos, dotado, no registro agudo, daquele brilho especial que os italianos chamam de ‘squillo’.


Parceiro do pop


Mas os triunfos e o brilho, infelizmente, não contam a história toda. A partir dos Três Tenores, e com o subseqüente e inevitável declínio vocal, Pavarotti (que nunca foi fã de ensaios, nem parecia ter conhecimentos sólidos em leitura de partituras) privilegiou cada vez mais as facilidades de cantar um repertório batido em apresentações ao ar livre, com o auxílio amigo do microfone, relegando a segundo plano o estresse das récitas de ópera (em 1992, o implacável público do Scala de Milão vaiou sua atuação em ‘Don Carlo’, de Verdi).


E seus parceiros primordiais de duetos, que um dia haviam sido lendas da ópera, como a soprano Joan Sutherland, passaram a ser astros pop, como Michael Bolton, Enrique Iglesias e as Spice Girls. Sua fama e fortuna cresciam na proporção direta da queda de sua reputação entre os especialistas da ópera, que quase unanimemente passaram a reconhecer em Plácido Domingo o maior tenor de sua geração.


Pertencem a esta fase as aparições mais célebres de Pavarotti no Brasil. Em 1991, debaixo de chuva, no estádio do Pacaembu, em SP, ainda com a voz em forma, ele se defrontou com um público menos interessado em aplaudir seus agudos que por choramingar pela falta, no repertório do espetáculo, de ‘Caruso’, melosa canção de Lucio Dalla.


Em 1995, reverenciou Romário e atraiu celebridades ao Metropolitan, no Rio de Janeiro, enquanto em 1998, em outro estádio -desta vez, no Beira-Rio, em Porto Alegre-, dividiu o palco com Roberto Carlos, em embaraçosa interpretação da ‘Ave Maria’, de Schubert, e da napolitana ‘O Sole Mio’.


A mais constrangedora aconteceu em Salvador, em 2000, novamente debaixo de chuva, quando, ao lado de Maria Bethânia e Gal Costa, Pavarotti apresentou o triste espetáculo de uma vocalidade decrépita. No mesmo ano, esteve em São Paulo em apresentação dos Três Tenores.


Felizmente, como seu legado, resta uma discografia caudalosa, na qual é possível esquecer esses momentos desabonadores e matar a saudade de uma das mais privilegiadas vozes de tenor do século 20.’


***


REPERCUSSÃO


‘JOSÉ CARRERAS, tenor espanhol:


‘É uma grande perda, não só de uma das melhores vozes que já existiram mas também de um amigo próximo. Ele foi sem dúvida um dos mais importantes tenores de todos os tempos. Era um homem maravilhoso, uma pessoa carismática. E um bom jogador de pôquer’


PLÁCIDO DOMINGO, tenor espanhol:


‘Amei seu maravilhoso senso de humor, e em vários de nossos concertos com José Carreras, os chamados concertos dos Três Tenores, nos esquecíamos que estávamos diante de uma platéia, porque nos divertíamos tanto entre nós’


FRANCO ZEFFIRELLI, diretor italiano:


‘Havia tenores, e depois havia Pavarotti. Foi graças a Luciano Pavarotti que a cultura da ópera penetrou nas novas gerações como se não fosse diferente do resto’


JOAN SUTHERLAND, soprano australiana:


‘A qualidade do seu som era diferente. Você sabia imediatamente que era o Luciano’


MONTSERRAT CABALLÉ, soprano espanhola:


‘Amei-o muito e admirei-o mais ainda. Sinto a perda dele na alma. Falei com ele tão recentemente que parece inacreditável que tenha nos deixado’


ZUBIN MEHTA, maestro indiano:


‘Como cantor, Pavarotti marcou um modelo que ficará conosco por décadas’


NICOLAS SARKOZY, presidente da França:


‘Luciano Pavarotti era o mais conhecido cantor clássico do mundo, a melhor encarnação do grande tenor popular desde Enrico Caruso. Suas qualidades artísticas, seu entusiasmo e seu carisma seduziram o mundo inteiro’


BAN KI-MOON, secretário-geral da ONU:


‘Ao fazer concertos e reunir amigos talentosos para arrecadar fundos, gerou milhões para a ajuda humanitária’’


***


‘Pavarotti era um dos maiores do mundo’, diz Roberto Carlos


‘O cantor Roberto Carlos, 66, exprimiu em nota, ontem, seu pesar pela morte do tenor Luciano Pavarotti, ocorrida ontem de madrugada. ‘Eu tenho o privilégio de ter conhecido pessoalmente Luciano Pavarotti e a honra de ter feito um show com ele [em 1998, em Porto Alegre]. Um homem simples, muito amável, um artista fantástico. […] O mundo se emocionou muitas vezes com Pavarotti. Um ser humano e um artista muito especial, com certeza um dos maiores tenores do mundo. Que Deus o proteja e o abençoe’, disse.’


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O Estado de S. Paulo


Sexta-feira, 7 de setembro de 2007


MEMÓRIA / LUCIANO PAVAROTTI
João Luiz Sampaio


O tenor das multidões


‘O mundo da ópera não será mais o mesmo. É verdade que já há alguns anos o tenor Luciano Pavarotti afastara-se dos palcos, dedicando-se apenas a ocasionais aparições em concertos ao ar live. Mas sua morte, na madrugada de ontem, aos 71 anos, deixa um vazio difícil de ser preenchido. Havia, antes de mais nada, a voz, um timbre inconfundível, espontâneo, instintivo, natural mesmo. Mas não era só isso. Nenhum outro cantor lírico alcançou sua fama e atraiu tantas multidões por onde passava. Carismático, os braços abertos com o inconfundível lenço branco nas mãos, o sorriso largo… Pavarotti foi o tenor das multidões. E, com ele, se vai um dos personagens mais importantes de toda a história do gênero operístico.


O tenor havia anunciado para 2006 sua turnê de despedida. Após alguns concertos, no entanto, foi hospitalizado em Nova York e passou por uma cirurgia devido a um câncer no pâncreas. Do hospital seguiu para a sua Modena natal, onde passou os últimos tempos acompanhado da família. Há cerca de dois meses, sua filha Giuliana afirmara em entrevista a uma revista italiana que seu pai sabia ter ‘pouco tempo de vida’ à sua frente. Desmentidos oficiais se seguiram. Mas no início de agosto ele foi internado em uma clínica de Modena, por conta de uma febre alta. Há cerca de duas semanas, voltou para casa. Na tarde de quarta-feira, no entanto, fontes ligadas à família informaram a uma emissora de TV italiana que Pavarotti estava inconsciente e apresentava um quadro de insuficiência renal. Acompanhado por familiares e amigos, morreu em casa, às 5 da manhã (meia-noite no horário de Brasília).


Obituários, perfis, entrevistas vão tentar dar conta nos próximos tempos da importância de Pavarotti. Não vai ser tarefa fácil. Por um lado, temos os seus grandes triunfos nos teatros de ópera – seu Rodolfo em La Bohème, os inúmeros papéis de Donizetti em que ele era imbatível, as gravações que deixou com Mirella Freni, Joan Sutherland e Montserrat Caballé, suas grandes companheiras de palco. Mas há também um Pavarotti mais polêmico, o cantor que nem sempre sabia escolher seu repertório, que fustigava a rivalidade com outros tenores, que enlouquecia os colegas com exigências como ensaios em seu quarto de hotel, que fazia concertos para multidões, cantando lado a lado com astros da música pop em duetos que muitas vezes beiravam o constrangedor, chegando a receber mais de US$ 1 milhão por aparição.


De cara, o que se pode dizer é que os dois lados são fundamentais para se compreender Pavarotti e os motivos que fizeram dele, ainda em vida, um verdadeiro mito. Nos últimos anos, a cada temporada surgia no cenário um candidato ao posto de ‘o novo Pavarotti’ – Roberto Alagna, Salvatore Licitra, etc, etc, etc. Uma coisa é clara. Pode esquecer. Pavarotti houve um só, no que teve de melhor e de mais contraditório. E figuras como ele não aparecem a todo momento.


Repercussão


‘Sempre admirei sua voz divina, com seu timbre inconfundível. Amava seu senso de humor. Em nossos concertos com José Carreras esquecíamos que estávamos nos apresentando porque nos divertíamos muito’


PLÁCIDO DOMINGO


TENOR


‘É uma grande perda, não apenas uma das maiores vozes de todos os tempos, mas foi um grande amigo. Ele foi, sem dúvida nenhuma, um dos tenores mais importantes de todos os tempos. Um homem maravilhoso e carismático. Ele sempre me ajudou nos momentos mais difíceis, em especial quando fiquei doente. Ele sempre me ligava oferecendo apoio e animando meu espírito’


JOSÉ CARRERAS


TENOR


‘Alguns cantam ópera. Luciano era uma ópera. Ele vivia suas canções. Um grande e generoso amigo. Falei com ele na semana passada. A voz que um dia foi maior que qualquer banda de rock já era apenas um sussurro’


BONO VOX


CANTOR DO U2


‘Era a minha alma gêmea e uma pessoa fantástica. Cantei muitas vezes com ele, nos palcos e nos estúdios. Eu o amava muito e o admirava ainda mais. Sinto sua perda na minha alma. Não posso acreditar que nos deixou.’


MONTSERRAT CABALLÉ


Soprano


‘É um dia muito triste para a música e para o mundo’


ELTON JOHN


CANTOR E COMPOSITOR


‘A qualidade do som de sua voz era diferente. Você a ouvia e sabia imediatamente que se tratava de Luciano’


JOAN SUTHERLAND


SOPRANO


‘A voz de Luciano era tão bonita e sua emissão tão natural que era capaz de tocar diretamente as pessoas, mesmo quem não conhece ou se interessa por ópera’


JAMES LEVINE


DIRETOR DO METROPOLITAN OPERA HOUSE DE NOVA YORK


‘Sua morte significa o desaparecimento do maior tenor de nossa época e a perda de um ser humano que tinha um impacto extraordinário sobre as pessoas por meio de sua arte’


IOAN HOLENDER


DIRETOR DA ÓPERA DE VIENA


‘A dor em meu coração só é aliviada pela certeza de que sua arte permanecerá conosco’


ANDREA BOCELLI


TENOR


‘Ele mostrou ao mundo a mais autência imagem artística de nosso país, despertando emoções e espalhando paixão e cultura’


ROMANO PRODI


PRIMEIRO-MINISTRO ITALIANO


‘Seu coração era tão grande quanto a sua voz. Ele sempre criava uma atmosfera positiva em torno dele.’


ZUBIN MEHTA


MAESTRO


‘Havia tenores e havia Pavarotti. Seu maior mérito é o de ter abordado a música em sua globalidade, dos cantos populares à lírica’


FRANCO ZEFFIRELLI


CINEASTA E DIRETOR TEATRAL


‘O mundo perdeu um grande tenor, mas eu perdi um amigo. Crescemos juntos, estudamos juntos e Deus nos abençoou com grandes carreiras. Perdi meu irmão’


MIRELLA FRENI


SOPRANO


‘Ele foi a junção da emoção com a versatilidade, que só tem um paralelo na história, Maria Callas. E teve ainda inquestionável importância na popularização do canto lírico.’


JAMIL MALUF


MAESTRO


‘Fica um vazio na música. Não há ninguém que possa substituir essa figura incrível. A música dele era intuitiva, isso que encantava.’


ROBERTO MINCZUK


Maestro’


Antonio Gonçalves Filho


O cantor que trocou a ópera pelo mundo pop


‘Nascido em Modena, na região de Emilia Romagna, Itália, em 1935, Pavarotti estreou nos palcos no dia 29 de abril de 1961, no papel de Rodolfo, da ópera La Bohème, de Puccini. Quatro anos depois, o tenor, então com 30 anos, fez sua estréia americana ao lado de um mito da ópera, Joan Sutherland, que o recomendou para substituir um cantor doente na ópera de Miami. No mesmo ano, 1965, apresentou-se pela primeira vez no templo da ópera, o Teatro alla Scala de Milão, interpretando novamente o papel de Rodolfo.


O triunfo viria, porém, em 1969, quando Pavarotti cantou I Lombardi em Roma ao lado de Renata Scotto. Gravado num selo independente, o disco teve repercussão imediata e abriu as portas do Metropolitan para o tenor, em 1972. Não demorou para que ele se tornasse uma figura popular, graças a seu jeito simpático, risonho e a um guardanapo que virou sua marca registrada. Essa história começa em 1973, quando, ao pedir um lenço para sua estréia em Liberty, Missouri, ganhou um guardanapo em seu lugar. Outra marca registrada de Pavarotti foi a ária Nessun Dorma, da ópera Turandot. Desde 1990, quando foi escolhida como tema da Copa do Mundo, a ária de Pucini foi cantada inúmeras vezes por Pavarotti, que soube aproveitar bem seu carisma e familiaridade com as câmeras de televisão.


É dessa época o primeiro concerto dos três tenores nas termas de Caracalla, Roma, dirigido pelo maestro Zubin Mehta, que resultou no disco clássico mais vendido da história. Nos anos 1990 Pavarotti cantaria em diversos concertos ao ar livre, entre eles o primeiro dedicado a um programa erudito no Hyde Park de Londres, que reuniu 150 mil pessoas. Esse número seria ultrapassado pelo concerto que Pavarotti fez no Central Park de Nova York em 1993, atraindo 500 mil pessoas para o parque.


Os três tenores apresentaram-se em todas as copas mundiais de futebol desde 1994 até 2002. O crítico Norman Lambrecht condenou exaustivamente essas apresentações. Desde que começaram a se apresentar juntos, dois deles , Luciano Pavarotti e José Carreras, pararam de cantar ópera, observou com justiça o autor de Quem Matou a Música Clássica?. As pessoas só podiam ver nos palcos das casas de ópera o espanhol Plácido Domingo.


Não satisfeito em cantar com os colegas da ópera, Pavarotti fez diversas apresentações ao lado de músicos populares, entre eles a cantora Vanesssa Wiliams e o grupo de rock irlandês U2, com o qual cantou Miss Sarajevo. Tudo por uma boa causa, mesmo que o preço para a música seja alto. Pavarotti, justiça seja feita, sempre se colocou a serviço da ONU em campanhas pela paz e o desarmamento, fazendo apresentações na Bósnia e outras regiões de conflito.


A última gravação foi feita há três anos, Ti Adoro, compilação de seus maiores sucessos cantados no estilo ‘popera’, ou seja, misturando uma interpretação operística com acento pop. Seu empresário por 36 anos, Herbert Breslin, um ano depois, isto é, em 2004, lançou o livro O Rei e Eu, em que, comentando o estilo, defende que, na verdade, Pavarotti jamais aprendeu a ler partitura direito, tendo dificuldade para acompanhar as partes orquestrais.


Descontando o ressentimento de Breslin, são procedentes as críticas que fazem ao tenor por certa negligência, embora Breslin tenha sido, como se diz, o homem por trás da máscara. Foi ele quem levou Pavarotti para a televisão e, se não pode ser culpado por todos os erros de seu pupilo, não há como negar que o crossover performático ao lado de cantores pop como Bono, do U2, é, no mínimo, um equívoco lamentável devido à influência do empresário. Breslin, não se pode esquecer, foi o homem que colocou um ridículo chapéu fedora vermelho no maestro George Solti. Conhecia o (mau) gosto popular.


Pavarotti não fez concessões ao público médio. Ele era a própria cara desse público médio com sua brega mansão italiana e sua falta de escrúpulos em cantar para qualquer um, desde que pagasse bem, como o empresário húngaro Tibor Rudas, que lhe ofereceu US$ 1 milhão para cantar num cassino. Breslin conta que Pavarotti gostava tanto de dinheiro que sugeriu a ele um encontro com Nixon para pedir ao então presidente norte-americano isenção de impostos para cantores líricos. Argumento: a vida deles não é muito longa e precisam garantir a aposentadoria.


Há três anos o tenor fez seu último papel numa ópera, o de Cavaradossi, na Tosca montada pelo Metropolitan, recebendo uma ovação de 12 minutos. Nada excepcional para quem entrou para o livro dos recordes como o cantor lírico que mais vezes (165) voltou ao palco para agradecer os aplausos. É inegável o carisma de Pavarotti, mas o certo é que, desde os anos 1980, foi incapaz de renovar seu repertório ou se interessar por peças que poderiam ter apontado outro caminho para o tenor além do óbvio. O mundo da ópera vai lembrar dele por suas apresentações e gravações dos anos 1960 e 1970, quando sua voz e dicção eram claras para interpretar Donizetti e nem pensava em cantar ao lado de Roberto Carlos. Como ele, Pavarotti nunca foi uma presença intelectual.’


***


Polêmicas e cancelamentos marcaram seus últimos anos


‘Em maio de 2002, o diretor-geral do Metropolitan Opera House de Nova York, Joseph Volpe, subiu ao palco do teatro para comunicar ao público que o tenor Luciano Pavarotti não cantaria naquela que seria sua despedida do mundo da ópera. ‘Recebemos há pouco uma ligação informando que ele está gripado e que não poderá cantar. Pedi a ele que viesse pessoalmente explicar a vocês sua ausência, mas ele se recusou.’ O cancelamento de última hora seria apenas mais um dentre muitos os episódios polêmicos que marcaram os seus últimos anos de carreira.


Polêmicas, na verdade, nunca faltaram na vida de Pavarotti. A primeira delas surgiu no fim dos anos 70, quando ele e o colega espanhol Plácido Domingo brigavam pelo título de ‘o maior tenor’ da época. Em setembro de 1979, a revista Time dedicou sua capa a Pavarotti, chamando-o de ‘O tenor de ouro da ópera’; semanas depois, a Newsweek estamparia a foto de Domingo em sua capa, com a manchete ‘O Rei da Ópera’. Exigências de cachês e regalias similares, a pressão pelas melhores récitas e produções e a troca de insultos entre fãs foram durante muito tempo os ingredientes da rivalidade entre os dois – defensores do espanhol exaltavam seu talento de ator; os do italiano, questionavam a ausência, em Domingo, dos agudos que fizeram a fama de Pavarotti. E assim por diante.


A disputa chegaria ao fim com a reunião dos dois, mais José Carreras, para o concerto dos Três Tenores. Certo? Não exatamente. Herbert Breslin, então empresário de Pavarotti, lembra em sua biografia, The King and I, que um contrato feito às escondidas com a gravadora Decca garantiu a Pavarotti um cachê pelo menos meio milhão maior que o oferecido a Domingo e Carreras, que teriam condicionado uma nova reunião do grupo a uma equiparação nos cachês. ‘Os concertos dos Três Tenores eram amigáveis na superfície, mas a atmosfera nos bastidores não era exatamente de confiança’, escreveu.


O livro de Breslin joga luz sobre algumas outras polêmicas que marcaram os últimos anos profissionais de Pavarotti. Em maio de 2000, ele se encontrou com o ministro das finanças italiano para assumir uma dívida de cerca de US$ 12 milhões em impostos não pagos. Pouco antes, ele já havia ocupado as manchetes ao assumir o relacionamento com sua secretária Nicoletta Mantovani, 34 anos mais nova, pedindo divórcio da mulher Adua e casando-se novamente. A quem o indagasse sobre essas questões, no entanto, Pavarotti tinha uma só resposta: meu amor pela música é maior do que tudo.’


Lauro Machado Coelho


Um timbre de quem já nasceu tenor


‘Um timbre privilegiado, com grande riqueza de coloridos – a sua mais notável qualidade, ele a recebeu como uma dádiva da natureza: nasceu tenor. Ao contrário de cantores como Carlo Bergonzi ou Plácido Domingo, que iniciaram a carreira como barítonos e, depois, reiniciaram os estudos para colocar a voz no registro mais agudo, Luciano Pavarotti era um tenor natural. Dotado, além disso, da mais preciosa das características: um timbre absolutamente inconfundível, que permitia à sua legião de admiradores reconhecê-lo, bastando, para isso, ouvi-lo cantar dois ou três compassos.


Esse filho de um padeiro e de uma operária de tecelagem de Modena, na Emilia Romagna, não se destinava, de início, à carreira lírica. Torcedor fanático do Juventus, chegou a pensar na carreira de jogador profissional; mas acabou optando pela de professor, e chegou a obter o diploma elementar. Cantava, entretanto, juntamente com Fernando Pavarotti, seu pai, no coral Gioachino Rossini, de sua cidade, com o qual viajou para o País de Gales, onde ganharam o primeiro prêmio do Concurso Internacional de Corais de Llangollen. Entusiasmado com esse resultado, Luciano começou, ao voltar para casa, a estudar canto com Arrigo Pola.


Dando-se conta do talento de seu aluno, Pola o encaminhou para a classe do respeitado Ettore Campogalliani, professor, entre outros, de Mirella Freni – que também é de Modena e amiga de infância de Luciano (quando o menino nasceu, a signora Pavarotti, que tinha pouco leite, pediu à sra. Freni, sua vizinha e colega na tecelagem, que o amamentasse, junto com a recém-nascida Mirella; o que será que havia nesse leite, meu Deus?!). Sob a orientação de Campogalliani, Luciano ganhou o primeiro lugar no concurso de canto que lhe permitiu estrear em Reggio Emilia, em abril de 1961, como o Rodolfo da Bohème, que estava destinado a ser um de seus maiores papéis.


Fato marcante na carreira de Pavarotti foi o seu encontro com Joan Sutherland e seu marido, o regente Richard Bonynge que, naquela época, se empenhavam no resgate do grande repertório de belcanto do início do século 19. Convidado a fazer com eles uma turnê pela Austrália, Luciano cantou Rodolfo ao lado de Sutherland, no Dade County Auditorium da Greater Miami Opera, numa noite de fevereiro de 1965 em que o tenor escalado estava indisposto. Foi a estréia, nos Estados Unidos, de um cantor que, por muito tempo, teve o público americano na palma da mão. O sucesso desse espetáculo fez surgir o convite para que, em 28 de abril, ele subisse ao ambicionado palco do Scala de Milão, sempre como Rodolfo. E, terminada a turnê australiana, voltou a esse teatro para fazer, em 26 de março de 1966, o Tebaldo dos I Capuleti e i Montecchi, de Bellini.


A noite de 17 de fevereiro de 1972, no Metropolitan de Nova York, marca o recorde de 17 chamadas para o aplauso, por uma platéia enlouquecida pela facilidade dos nove dós seguidos de ‘Ô mes amis, quel jour de fête’, numa Fille du Régiment com Joan Sutherland, que o disco imortalizou como uma de suas gravações mais perfeitas. Daí em diante, ídolo do público americano, tornaram-se cada vez mais freqüentes as suas aparições na televisão – sobretudo na Bohème de março de 1977, o primeiro Live From The Met transmitido para milhões de telespectadores de todo o país.


A essa altura, o ganhador de muitos Grammy Awards e discos de ouro e platina já não tinha mais o porte atlético do torcedor do Juventus, que um dia pensara em ser jogador de futebol. Numa noite de 1973, em que ele ia se apresentar em Liberty, no Missouri, dentro do Fine Arts Program, transpirava tanto que pediu um lenço – e só o que acharam a lhe oferecer foi um guardanapo de mesa. Surgiu aí o seu hábito de cantar tendo nas mãos um enorme lenço de renda, que se tornou a sua marca registrada.


No início da década de 80, o tenor criou a Pavarotti International Voice Competition, destinada a revelar cantores jovens e, em 1982, cantou com os vencedores na Bohème e no Elisir (entre eles, estava a brasileira Leila Guimarães). Para comemorar, em 1986, seus 25 anos de carreira, levou os vencedores à Itália para espetáculos de gala da Bohème em Modena e Gênova e, depois, à China, para apresentações em Pequim. Ali, cantou diante de 10 mil pessoas, no Grande Salão do Povo. A essa altura, porém, a celebridade e as pressões dos teatros e gravadoras o estavam levando, cada vez mais, a estender – perigosamente – os limites de seu repertório.


Foram inegavelmente convincentes seus resultados em Puccini: o Pinkerton da Butterfly com Freni/Karajan; o Calaf da Turandot com Sutherland, Caballé/Mehta. Ou no Riccardo do Ballo in Maschera, de que fez seu território. Mas às vezes eles foram altamente discutíveis – Andrea Chénier, o Tonio dos Pagliacci, Don Carlo – ou simplesmente lamentáveis, como o bisonho Otello de 1991 com Te Kanawa/Solti.


A década de 80 se encerra com o fato que contribuiu definitivamente para fazer de Pavarotti um fenômeno de massa: a transformação de sua ‘Nessun Dorma’, da Turandot, na canção-tema da Copa de 1990, realizada na Itália. Na véspera do final dessa Copa, veio finalmente o concerto dos Três Tenores, reunindo, nas Termas de Caracalla, em Roma, Pavarotti, Plácido Domingo e José Carreras – um evento beneficente que se converteu num tremendo sucesso comercial, o disco clássico de maior vendagem de todos os tempos.


Entramos aí na fase dos megaconcertos ao ar livre da década de 90: o do Hyde Park, de Londres, diante de 150 mil pessoas; o do Grande Gramado do Central Park, em Nova York, para 500 mil espectadores; o de Paris, à sombra da Torre Eiffel, para 300 mil – números que a televisão multiplicava em milhões no mundo inteiro. E os concertos dos Três Tenores se repetiram, cada vez mais rotineiros, em Los Angeles, em Paris, em Yokohama, em São Paulo. ‘Essa fase de cantor das multidões assinala uma postura cada vez mais desleixada’, comenta o pesquisador de música lírica Renato Rocha Mesquita. ‘Certamente porque o público, que afluía em massa para assisti-lo, não se preocupava com estilo, e nem se dava conta de que ele mesmo não se importava mais com as regras do belcanto. É a fase das canções, das parcerias com cantores populares, dos pot-pourris, do inevitável caminho para o declínio.’


A ascensão para o estrelato vinha acompanhada de um cortejo de problemas: as exigências cada vez mais estapafúrdias – como a de transportar para a China toda a cozinha de seu restaurante predileto – e a reputação de ter-se tornado ‘o Rei dos Cancelamentos’. Em 1989, tinha causado grandes repercussões a decisão de Ardis Krainik, diretor do Lyric Opera de Chicago, de romper com ele um contrato que se estendera por 15 anos porque, nos oito últimos desses anos, Pavarotti cancelara 26 das 41 apresentações previstas. Aliás, tinha sido no Lyric, durante uma Gioconda, em 1979, que ocorrera o incidente responsável pela sua ruptura com Renata Scotto. E a causa dessa ruptura tinha sido não apenas a vaidade de um divo que tudo fazia para deixar em segundo plano a prima-dona. Scotto também se insurgira contra a exigência descabida de Luciano de que os ensaios com piano fossem feitos em seu hotel.


É verdade que, ao lado disso, o cantor envolveu-se em inúmeras causas beneficentes e humanitárias. As séries de shows intitulados Pavarotti And Friends, reunindo intérpretes clássicos e populares, levantaram fundos para ajudar refugiados e crianças carentes na Bósnia e na Guatemala, em Kosovo e no Iraque.


Ter-se tornado, em dezembro de 1998, o primeiro (e único) cantor de ópera a se apresentar no programa Saturday Night Live, da televisão americana, ao lado da cantora pop Vanessa Williams, projetou de forma astronômica o prestígio do artista que, naquele mesmo ano, recebera o Grammy Legend Award, raríssimas vezes concedido. Mas o preço, lembra Renato Mesquita, ‘foi a decadência – provocada não só pela idade, mas também pelo desleixo com a própria saúde, e o excesso de exposição’.


A publicação, em 2004, de The King & I, escrito por Herbert Breslin, seu agente durante 36 anos, que rompera com ele de forma rumorosa dois anos antes, veio jogar mais lenha na fogueira. Breslin criticava suas limitações como ator, suas exigências abusivas durante as turnês, e expunha o segredo de Polichinelo (responsável por uma certa uniformidade de suas interpretações): Pavarotti não sabia ler música e, dotado de muito boa memória, decorava as partituras que lhe eram ensinadas por seu coach – durante muitos anos, Tonnino Tonnini exerceu essa função. O livro sensacionalista de Breslin, porém, dizia apenas aquilo que os ouvidos do público podiam perceber: muito antes de sua despedida do palco – no Metropolitan, em 13 de março de 2004, com a Tosca – já estavam claros os sinais de que chegara ao fim uma voz preciosa, que poderia ter durado mais, se ele tivesse sabido administrá-la judiciosamente.


Se passarmos em revista as etapas da vida e produção desse popularíssimo cantor, não é difícil concordar com o julgamento formulado por Renato Mesquita: ‘Pavarotti fica, na história da ópera do século 20, em um patamar muito elevado, sim; mas pelo que fez na fase inicial de sua carreira. Infelizmente, ele não soube envelhecer da mesma forma que Plácido Domingo, por exemplo, está sabendo.’’


INGLATERRA
O Estado de S. Paulo


BBC decide não exibir programa sobre clima


‘Ambientalistas e políticos criticaram a BBC, a TV pública britânica, por cancelar a exibição do programa Planet Relief, sobre aquecimento global. A emissora se justificou afirmando que não é sua missão liderar a opinião pública nesse tema. Para os críticos, a BBC sugere que não há consenso científico sobre a realidade do efeito estufa.’


TELEVISÃO
Flávia Guerra


DOCTV Ibero-América busca a unidade latina


‘Não é exagero afirmar que esta é a maior investida conjunta já feita em toda a América Latina para mostrar em primeiro plano, em horário nobre, o que tem sido raridade na TV: a cara do latino-americano. Sem cair no didatismo nem apelar para a exploração folclórica do personagem em primeiro plano, a seleção de 13 documentários da primeira edição do DOCTV Ibero-América estréia hoje na TV Cultura, às 22h40, com potencial para mudar a maneira do latino-americano ver a si mesmo e seus vizinhos.


E é a Bolívia que abre essa viagem pelos rincões da latinidade. Em Inal Mama, o diretor Eduardo Lopez percorre os caminhos da coca pelo sagrado e do profano. A mesma planta que tira a fome, a fadiga e garante o sustento de famílias das comunidades guaranis vira matéria-prima para a indústria do tráfico de drogas. É essa mesma folha de coca que ganha oferendas em altares sagrados. E é o mesmo poder estimulante da folha sagrada que leva para a prisão de São Pedro aqueles que caem no conto do dinheiro fácil e rápido. ‘Para mim, era uma aventura. Só queria ser alguém na vida’, diz um brasileiro que foi parar na prisão quando tornou-se mula e carregava cocaína da Bolívia para abastecer o Rio.


Eduardo Lopez, assim como todos os outros diretores latino-americanos, recebeu US$ 100mil para realizar seu documentário, que será exibido simultaneamente em todas as TV públicas de todos os 13 países participantes. Desse valor geral, R$ 80 mil partiu de um fundo comum de financiamento. Os outros R$ 20 mil partiram de cada uma das TVs pública de cada país. ‘Não tenho o valor do orçamento geral gasto, haja vista que houve investimento com as oficinas de roteiro realizadas. Mas só de somar o orçamento de cada filme, o valor já chega a R$ 1,3 milhão’, informa Carlos Wagner La-Bella, coordenador de produção independente e documentários da TV Cultura.


Quanto às oficinas de roteiro, elas serviram para que todos os criadores escolhidos por cada país pudessem discutir entre si o processo de criação e a abordagem dos temas e dos roteiros. ‘Além desse trabalho conjuno, a unidade é mantida também na exibição desses documentários. Todos serão exibidos na mesma ordem e no mesmo horário em todo o continente’, conta La-Bella. Os próximos documentários vão ao ar toda semana. O Brasil entra em cena no dia 21, com Jesus no Mundo Maravilha, de Newton Cannito.’


Cristina Padiglione


Placar se pulveriza


‘Domingo sempre foi o ponto mais frágil da hegemonia da Globo, mas, nos últimos três anos, com o Domingo Legal em baixa e Silvio Santos idem, o terreno parecia livre para o plim-plim. No último mês, no entanto, a briga nas tardes de domingo indica não mais uma disputa polarizada entre duas redes, mas pulverizada entre três emissoras: Gugu Liberato tem apresentado alguma reação no ibope e Tom Cavalcante soma esforços à audiência herdada de Eliana na Record. Resumo da ópera: faz pelo menos um mês que o Domingão do Faustão não chega à média de 20 pontos na Grande São Paulo.


Somando os dois trechos do programa (e o intervalo, com futebol, não tem ajudado), o Domingão oscilou entre 18 e 19 pontos, a contar de 5 de agosto a 2 de setembro. Nos tempos em que disputava a liderança com Gugu, Faustão ficava no patamar dos 25 aos 28 pontos.


Nos dados comparativos com a concorrência, Faustão obteve, em 5 de agosto, 18 de média, ante 14 do SBT e 12 da Record. Em 12/8, o placar foi de 19 (Globo), 12 (SBT) e 10 (Record); em 19/8, de 19 a 13 (SBT) e 10 (Record); em 26/8, de 18 a 11 e 9; e no domingo passado, 18 a 11 e 10.


Manchete


Renata Sorrah e Herson Capri serão Célia Mara e João Pedro em Duas Caras, próxima novela das 9. Na trama, os dois são amantes há anos e o romance se tornará público pelas manchetes dos jornais: em passeio do casal ao circo, ele será atingido por uma bala perdida.’


Keila Jimenez


Mona Dorf estréia no canal Ideal


‘Com estréia prevista para 1º de outubro, o canal pago Ideal, novo fruto do grupo Abril, já está com seu casting montado. Nomes como Mona Dorf e Laura Vie terão programas na emissora, que vai ao ar primeiramente pela operadora TVA. Mona apresentará o Confraria Ideal, atração em que o bate-papo com o convidado acontece na cozinha. O Ideal terá foco em carreiras, gestão e negócios. O canal será para pessoas recém-formadas, que buscam aperfeiçoamento profissional ou abrir sua pequena empresa.


Entre-linhas


Em Paraíso Tropical, ao saber que o sonho de Antenor é ter um filho, Olavo decide engravidar Bebel e providenciar um falso herdeiro para o Grupo Cavalcanti.


Depois de engravidar Bebel, Olavo vai tramar para que a moça passe uma noite com Antenor e, em seguida, vai pedir para ela procurar Lúcia e contar que espera um filho de seu marido. A cena deve ir ao ar no dia 19.


A SKY abrirá hoje o sinal da TV5 Monde para promover o início da Copa do Mundo de Rugby. O sinal será mantido até o dia 1.°de outubro aos assinantes.’


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