Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Qualidade, sim, mas só da imagem

Por Gustavo Audi em 23/12/2008 na edição 517

A televisão não pode ser usada como forma democrática para a inclusão social. A TV é uma mídia de massa; nem a digitalização com interatividade tira a estrutura de transmissão de um para muitos – o mesmo sinal sairá da emissora para chegar aos telespectadores. Ou seja, o indivíduo não pode escolher o que vai ver, pois ele não busca pela informação personalizada, ele a recebe pronta. A única forma de democratizar a informação seria segmentar a TV aberta em diversos canais com programações diferentes e em horários diversos – desta forma, o espectador poderia optar por assistir este ou aquele programa. E quando novas concessões serão dadas pelo governo? Não precisa responder…

Isso nos leva a outro debate: qualidade. Demorei um pouco para entender (leia-se: acreditar) que os radiodifusores realmente consideram a monoprogramação em alta definição para a TV digital aberta como a melhor opção para a população brasileira. Para mim, por trás do padrão havia interesses comerciais e hegemônicos; os radiodifusores pretendiam manter a posição dominante e lucrativa que há décadas possuem. Ainda acho que há esses tipos de interesses, mas um elemento veio à minha cabeça: as emissoras realmente acham que produzem programas de qualidade.

Audiência das novelas caiu muito

Fernando Bittencourt, da Rede Globo, afirmou no V Fórum de TV Digital, organizado pelo IETV, que o Brasil produz o melhor conteúdo do mundo em comparação às TVs abertas dos outros países; para ele, a TV Digital deve priorizar a qualidade, mas da imagem, e não do conteúdo. Isso não é novidade, é lugar-comum ouvir esse discurso na televisão. Na verdade, o brasileiro tem muito disso: adora reclamar (com razão) dos seus problemas, mas para os outros, tudo o que faz é da melhor qualidade – é o mal do pobre de espírito: diminui o que é dos outros para valorizar o seu (a ABTA adora falar que a TV aberta é a melhor).

A mídia considera que possui o melhor conteúdo do mundo e, por isso, não precisa de diversidade nem interatividade de fato. Seu conteúdo é completo, tornando desnecessário o uso de valores agregados. Seu conteúdo é tão bom, mas tão bom, que as pessoas que aderem à TV por assinatura o fazem para assistir aos canais abertos. Será? Há pesquisas que afirmam isso, mas as mesmas pessoas que usam este discurso negam a perda de audiência da televisão para outras mídias – dizem que o que ocorre é um aumento do tempo gasto com entretenimento, ou seja, a porcentagem de audiência diminui, todavia o número de telespectadores permanece ou cresce.

Vamos ver outros dados: o tempo de permanência do brasileiro na internet é o maior do mundo (e continua crescendo); o número de celulares não pára de crescer; a indústria de jogos contabiliza cada vez mais lucro; a venda de computadores e laptops aumentou; o acesso à internet dobrou no último ano (o Brasil está entre os dez países com mais usuários de banda larga); a audiência das novelas caiu muito nos últimos oito anos… Precisa de mais exemplos para provar que o brasileiro gasta o seu tempo com outras coisas e menos com a televisão?

Décadas de programas popularescos

Tentei, nos últimos dias, assistir à TV aberta. Não consegui por muito tempo. Sensacionalismo, apelação, violência – uma programação nivelada por baixo. É clara a tentativa de atrair o máximo do público através de conteúdos cada vez mais apelativos – a própria Globo, com seu ‘padrão de qualidade superior’, teve de se render à competição e baixar o nível dos seus programas. Além disso, programas de sucesso são cópias de produtos estrangeiros, como Big Brother, Ídolos e a versão brasileira do Pimp My Ride, que passa no Caldeirão do Huck (o qual, juntamente com Silvio Santos, é campeão em adotar programas estrangeiros). Se a produção brasileira é assim tão boa, para que copiar tanto de fora?

Inclusive, o número de reexibições cresceu muito depois da década de 1980 (o Vale a Pena Ver de Novo realmente vale a pena?). Soma-se a isso a compra de desenhos animados e seriados estrangeiros, como House, Lost e Friends.

Apesar de tudo isso, é inegável que a maior parte da população está conformada com a qualidade da TV. Esta anomalia possui uma justificativa: ocorre porque a população não tem acesso às verdadeiras informações – diversificadas, educativas, importantes, abundantes. Não digo que a população é ignorante por causa da televisão, entretanto continua assim com a sua ajuda e apoio. Se dermos a opção de conteúdo educacional na programação, a população com o tempo quererá aprender.

Por que um brasileiro comum não faz questão de ver um programa no estilo do Discovery Channel? Porque esse tipo de programa não é valorizado, no lugar dele é mais fácil usar mulheres seminuas ou um programa sobre celebridades. O povo brasileiro é estimulado a não pensar, e a TV, dentre os meios de comunicação, é a melhor mídia para isso.

Não defendo uma mudança radical no conteúdo veiculado; mas sim, uma reformulação nas estratégias para que, no médio-longo prazo e de forma gradual, o telespectador possa ver a educação como uma forma de entretenimento. A nova minissérie da Globo, Capitu, ainda não teve o retorno de audiência desejado. O que fazer então? Jogar cenas de nudismo e violência? A culpa pelo descaso com produções inteligentes não é da população; são décadas de programas popularescos e de rápida assimilação.

Um caminho alternativo

É errado achar que, por estar presente em mais de 90% dos lares, a televisão é a melhor forma de inclusão social. A TV brasileira é comercial, nunca priorizará a inclusão do cidadão sobre o lucro. O governo não tem mais força para criar uma TV pública que seja presente na vida das pessoas. Apesar de defender a criação da TV Brasil (ou de qualquer canal realmente público), honestamente não acredito que consiga se transformar em uma BBC ou que tenha força para competir com as emissoras comerciais.

Investir nessa televisão é divulgar um conteúdo fraco, pensado para vender espaço publicitário. Não digo que a TV aberta deva deixar de existir, pelo contrário; o entretenimento superficial e, desculpem, burro, é essencial para o indivíduo. A catarse de um dia penoso de trabalho pode ser assistir a um programa abolutamente inútil do ponto de vista educacional. Sem problemas, contanto que não seja só isso que a pessoa faça no restante de seu dia (e é exatamente o que os radiodifusores querem: consumo integral de seus produtos, pois quanto mais consumo, maior o valor do minuto vendido aos anunciantes).

Tentar combater essa fome por audiência é perda de tempo. As empresas de telecomunicações estão tentando bater de frente com as emissoras e ainda não conseguiram quase nada. Não é este o caminho. Nós, pró-democráticos do acesso à informação, não podemos com eles. Então, por que não pegar um caminho alternativo?

Sistema lucrativo para poucos

Deixem a TV aberta para eles! Concedam todo o espectro de radiofreqüência para os canais já existentes. Nós não precisamos disso para crescer intelectualmente. Temos livros, internet, escola, computadores… Em vez de tentar humanizar os radiodifusores, o governo poderia investir mais nos Telecentros, comprando computadores melhores e fornecendo mais oficinas de uso do equipamento; incentivar a criação de lan houses (voltadas para o acesso à internet, e não somente jogos em rede); usar o dinheiro acumulado no Fust (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações) para, de fato, universalizar os serviços de telecomunicações através de acesso à banda larga em todas as escolas do país, internet wireless gratuita em locais públicos, subsídio na compra de equipamentos com fins educativos por parte de ONGs; incentivos fiscais aos provedores de internet e produtores de conteúdo genuinamente brasileiros etc. (Peço humildemente que se alguém conhece programas que estimulem o acesso à informação sem ser pela televisão, divulgue para todos.)

Pela tangente, podemos educar melhor a população. A conseqüência disso será uma exigência maior por programas inteligentes, informativos e educativos. Com um indivíduo minimamente capacitado (quando digo capacitado, quero dizer conhecedor do verdadeiro significado do termo qualidade), as emissoras não poderão manter no ar o Domingão do Faustão, Domingo Legal (na verdade, a programação do Domingo deixaria de existir…), A Praça é Nossa, João Kleber, Márcia ou qualquer outro programa cuja qualidade é duvidosa.

Não sei quanto aos outros, mas quanto mais eu estudo, menos vejo televisão aberta. Se isso acontece comigo, e aconteceu no restante do mundo, aceitar que a televisão é a principal fonte de informação do brasileiro é compactuar com a manutenção de um sistema inferior, centralizador e lucrativo para poucos. As emissoras podem querer isso, mas nós, cidadãos, não podemos querer.

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Formado em Rádio e TV pela UFRJ e especialista em Mídias Digitais pela Unesa

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