Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > ELEIÇÕES NA TV

Quando a Globo vira o leme

Por Edilton Siqueira em 09/11/2004 na edição 302

A vitória de Bush já era coisa mais ou menos esperada, a não ser pela Rede Globo, a julgar pela euforia com que âncoras mencionavam as peripécias de John Kerry durante a campanha, bem como os deslizes do xerife texano Bush. Ver a emissora torcer a favor da oposição foi até divertido. Foi. Mal o democrata perdedor pôs o fone no gancho e já na noite seguinte sacudiram a poeira na ‘ilha da Fantasia’.

Os primeiros indícios vieram no jornal Bom Dia Brasil, apelidado de ‘chantilly’ (bonitinho, docinho, não alimenta e enjoa), no qual um ‘analista internacional especializado no Brasil’, americano e professor da Universidade de Columbia, afirmou que a vitória de Bush seria melhor para os negócios do Brasil. É de se concordar em parte, pois com tanta preocupação com guerras é bem verdade que o governo americano descuidou um pouco da velha orgia latino-americana. Até cederam em algumas disputas econômicas mais complexas, como a dos subsídios ao aço. O complicado é a que custo esse ‘descuido’ ocorreu, especialmente no tocante à prática do terrorismo de Estado (olhos abertos para o Haiti).

Com a recente vitória dos ‘falcões’ nas eleições presidenciais, a orgia tende a virar estupro, se lembrarmos o Plano Colômbia e suas iniciativas correlatas, como a ‘invasão financiada’ da Base de Lançamentos em Alcântara. Se com Kerry perderíamos mercado, com Bush podemos perder mesmo é território!

Vira, vira, vira… virou!

O movimento mais brusco dessa guinada deu-se no Jornal Nacional. A reviravolta tomou corpo e começou a desfilar quando da apresentação de pesquisas indicando que muitos votaram em Bush na esperança da valorização da moral e dos costumes, ao mesmo tempo que endossam atitudes tais como negar direitos civis a homossexuais, pilhar nações inteiras, destruir soberanias e matar inocentes.

A bola subiu ainda mais no fiapo de entrevista com o presidente mexicano, Vicente Fox (o início de uma série que promete), enaltecendo a boa vida da abertura de mercado. Valorizando os acordos bilaterais como viga-mestra da mais nova ordem mundial, o chefe de Estado parecia uma bacante em transe, tentando nos fazer esquecer, por hora, com quem o México faz fronteira e as crises econômicas que enfrentou nos anos 1990.

Finalmente, a guinada atingiu a estratosfera na afirmação que poderia ser considerada vexatória, senão mesmo absurda, quando um outro especialista, agora em assuntos para a América Latina, considerava que as pressões americanas sobre o Brasil envolveriam principalmente as inspeções a respeito do programa de energia nuclear brasileiro.

A pendenga por conta das centrífugas de beneficiamento de combustível nuclear fora tema de extensa matéria no Jornal Nacional dias antes, quando se defendia claramente a soberania nacional no setor. Dessa vez, o tal analista afirmou que o Irã poderia requerer tratamento especial caso o Brasil fosse agraciado com a benevolência.

Ajuda lembrar que ocorreu situação semelhante quando nosso compatriota José Maurício Bustani, quando encarregado inspeções semelhantes, requereu tratamento igualitário para todos os países, inclusive EUA, sendo ‘delicadamente’ destituído do cargo por pressão americana. A regra vale para nós, mas não vale para eles, como costuma ocorrer aos donos da bola.

Fechar aspas

De volta às opiniões do tal ‘especialista’, temos o primeiro absurdo: o Brasil deveria ceder às pressões americanas e mais uma vez espalhar ao vento sua propriedade intelectual. Nada contra, mas se é para liberar tecnologia, vale o princípio infantil ‘mostre o seu que eu mostro o meu’. Segundo absurdo: o Brasil deveria usar isso como moeda de troca no apoio a uma causa nobre, como a promoção do programa de erradicação da fome e da pobreza defendido pelo presidente Lula.

Problema é que negociar esse tipo de acordo com um governo que não teve sequer a coragem de assinar o protocolo de Kyoto transforma a luta contra a fome em causa ao mesmo tempo nobre e insólita.

Questões importantes:

1) Até quando os cordeiros perguntarão aos lobos se já é hora do jantar?

2) Qual o ângulo mínimo a que poderemos nos curvar sem quebrar a espinha?

3) Isso é jornalismo de velame, ideologia à base da biruta ou imprensa cata-vento?

A Globo morde, mas assopra. Não foi de propósito, mas não deixa de ser curioso. Na novela que segue o Jornal Nacional, uma cena falava da reabertura de um antigo diário fechado, na trama, durante a ditadura militar (capítulo exibido no mesmo dia da demissão do ministro da Defesa). Mais curioso: o personagem do ator José Mayer desatou a citar figuras da nata do jornalismo brasileiro e surpreendeu iniciando pela referência a Alberto Dines. Em compensação, quase encerraram a lista com Diogo Mainardi. Bem poderiam ter fechado as aspas mais cedo, mas ninguém é perfeito.

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Analista de sistemas e estudante de Filosofia, Recife (PE)

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