Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DO LEITOR > ETNIA & RELIGIOSIDADE

Quando a imprensa perpetua estereótipos

Por Rosiane Rodrigues em 02/02/2010 na edição 575

Jornalistas são pessoas. Por mais distanciamento e olhar crítico, os ‘operadores da imprensa’ são produtos da sociedade em que vivem. Parece óbvio, mas observar em que contexto social nasceram e cresceram editores e repórteres é o primeiro passo para entender por que a maioria esmagadora dos veículos de comunicação presta um desserviço à liberdade religiosa no Brasil. E por que, mesmo diante de afirmações perturbadoras, somos tentados – e levados! – a jogar a opinião pública a perpetuar preconceitos e promover a discriminação.

Há pouco mais de um mês, o país se chocou com os casos das agulhas. Duas crianças – uma na Bahia e outra no Maranhão – teriam sido alvo de rituais macabros, conduzidos por sacerdotes de matriz africana. Dezenas de agulhas foram introduzidas nos corpos das vítimas. Um outro caso, em São Paulo, há cerca de duas semanas, dava conta de uma mulher que assassinou a empregada porque queria lhe tomar a filha recém-nascida. O corpo da jovem foi encontrado com uma vela na boca e sinais de violência. O fato foi atribuído a um ritual de magia negra, orientado por um pai de santo (?) que chegou a prestar depoimento na delegacia.

O interessante dos três casos é que nenhum sacerdote – seja da umbanda, do candomblé, do catimbó, do omolokô, Xangô de Minas – tenha sido ouvido ou consultado. Salvo o jornal Meia Hora (RJ), que após publicar na capa a manchete ‘Patroa mata empregada em ritual de magia negra’, sobre o assassinato ocorrido em São Paulo, ouviu um sacerdote de matriz africana que definiu o caso como um crime bárbaro que absolutamente não tinha ligação com qualquer prática da umbanda e do candomblé. A entrevista com o religioso saiu na edição seguinte, sem o mesmo destaque.

Ancestralidade e lógica familiar

Mas, por que ouvir uma fonte que parece nada ter a ver com a notícia? Primeiro para ter certeza de que os acusados são realmente sacerdotes ou adeptos de algum segmento da religiosidade afrobrasileira. Segundo para saber o que pensam ‘pais e mães de santo’ a respeito dos episódios. É uma lógica simples: ou todos os jornalistas são profundos conhecedores da religiosidade afrobrasileira e por isso autorizados a afirmar a veracidade e origem do sacerdote e suas práticas ou estão faltando mães de santo no país. Não creio em nenhuma das duas hipóteses.

E este é o ‘xis’ da questão. Quem, se não os próprios sacerdotes e adeptos das religiões de matriz africana, pode ratificar a origem de um sacerdote? Quem, se não os próprios ciganos, pode afirmar a ascendência de alguém que lê cartas? Não basta um cocar na cabeça para ser índio. Assim como roupas brancas e ‘farofas em alguidares’ não bastam para titular quem quer que seja como ‘pai ou mãe de santo’. A estruturação organizativa das comunidades que prescindem de ancestralidade possui uma lógica diferente. Seus praticantes precisam necessariamente pertencer a uma comunidade ou família. Na natureza não há geração espontânea. Para ser pai é necessário ter sido filho. E todo sacerdote ancestral (ialorixá, ogan, babalorixá, pajé, baba de umbanda) tem responsabilidade para com seus iniciados.

Digamos que as notícias fossem um pouco diferentes. Os acusados dos crimes se declarassem como padres da Igreja Ortodoxa ou freiras da Ordem do Sagrado Coração de Maria. O que fariam meus colegas? A resposta seria simples, se não fosse cruel. Ligariam imediatamente para o bispo da igreja ou para a madre do convento e checariam se os acusados são membros daquelas instituições. Até porque, chocados, pensariam que este não é um comportamento digno de um verdadeiro religioso. E – claro! – descreveriam detalhadamente todas as sanções que o sacerdote – se realmente o fosse! – sofreria, além de registrar a indignação de toda comunidade. O fato é que igrejas e outras ordens religiosas são organizadas por uma hierarquia vertical, fáceis de ser acessadas. Algo muito diferente do que acontece com as religiões e etnias que pautam suas tradições pela ancestralidade e lógica familiar.

‘Um Cristo louro de olhos azuis’

Há pouquíssimo tempo, se esconder e clamar por justiça divina eram as únicas opções dos seguidores das religiões de matriz africana. Com intuito de garantir suas estratégias de sobrevivência, religiosos e grupos étnicos se inviabilizaram – por séculos! – do ponto de vista da mobilização social e representação institucional. E, a verdade é que, poucos se sentem seguros o suficiente para lidar com jornalistas em situações tensas. A grande maioria se amua em seu cantinho e se sente incapaz de instigar as redações a terem um novo olhar sobre esses conflitos. Mas, mesmo a dificuldade de consultar fontes confiáveis não pode servir de argumento para que uma informação não seja honestamente apurada.

Mais que elucubrar possibilidades, percebam que é impensável para qualquer um que uma freira assassine uma mulher para lhe tomar seu bebê ou que um padre oriente um fiel a introduzir agulhas no próprio filho. Mas, por que tendemos a acreditar que aberrações como essas são possíveis de acontecer com seguidores da umbanda e candomblé? Por que não duvidamos que sacerdotes afrobrasileiros se utilizam de seres humanos em rituais macabros? De que tipo de gente estamos falando? É de gente que faz o mal, que tem pacto com demônios e que por isso se tornam assassinos frios e bestiais? Ou de pessoas religiosas, pais e mães de famílias, cidadãos comuns em busca de sua religação com o Criador, com liturgias e especificidades próprias?

Levamos para as redações uma gama inimaginável de (pré)conceitos que nem nós mesmos sabemos. Somos todos nascidos, criados e formados numa sociedade que ao colocar em prática suas idéias de dominação, perseguiu a religiosidade dos descendentes de escravos por 500 anos e que se pensa religiosa e filosoficamente a partir de conceitos europeizados do Cristo ‘loiro de olhos azuis’ e do primitivismo das sociedades ancestrais. A partir desta reflexão superficial, não é difícil entender o porquê de não nos preocuparmos em apurar sumariamente os dados que chegam às redações.

O princípio do contraditório

Nem sequer nos perguntamos: será que existe uma religião ou grupo étnico que sobreviva por meio de assassinatos e bestialidades? O que pensam os adeptos e sacerdotes desses segmentos quando alguém, se intitulando religioso ou membro da comunidade, assassina, rouba ou estupra num suposto ritual? Isso é prática religiosa? Ciganos roubam, mesmo, crianças? Muçulmanos são treinados para explodir bombas? Umbandistas enfiam agulhas em bebezinhos?

Assim também fica fácil entender a lógica utilizada por segmentos fundamentalistas que – possuidores de centenas de canais de rádios e TVs – alicerçaram suas doutrinas e liturgias calcadas na demonização do conteúdo simbólico das comunidades ancestrais. As igrejas neopentecostais apenas reforçam os conceitos aos quais fomos subjetiva e culturalmente doutrinados a aceitar. Desde os tempos da Coroa ouvimos que os rituais ciganos, africanos e indígenas são primitivos, praticados por seres sem almas – e, por que não? – acometidos de doenças mentais e pouco inteligentes. É por isso que o trabalho de ‘evangelização’ da intolerância (desenvolvido por bispos, pastores e apóstolos) nos púlpitos eletrônicos é tão eficaz.

A sociedade brasileira conhece muito pouco de suas origens e ignora conceitos elementares de segmentos que foram (e são) primordiais para a sua construção. Religiosos e comunidades étnicas acreditam que fazer valer o princípio do contraditório em notícias de crimes envolvendo supostas práticas ritualísticas é, ao mesmo tempo, diminuir o nosso próprio desconhecimento relativo aos grupos minoritários e informar genuinamente – sem correr o risco de sedimentar e perpetuar preconceitos.

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Coordenadora de Comunicação da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa

Todos os comentários

  1. Comentou em 08/02/2010 Thiago Conceição

    Iara, engraçada é a sua definição de ‘preconceito’. Desde quando uma crítica bem fundamentada é preconceito? Só por que você não gosta do que ouve? Conversar com espíritos ou ‘entidades’ e suborná-las para conseguir alguma coisa (dinheiro, ou que alguém morra, etc) não faz o mínimo sentido, além de ser algo negativo. Não permitir críticas a determinadas práticas de magia negra é o Estado estabelecendo o que é certo e errado, e quem discorda é punido, assim como em uma ditadura. A Europa está indo de mal a pior, agora na Inglaterra há câmeras nas ruas e máquinas de raio X que tiram fotos de pessoas sem roupas nos aeroportos. E se você se negar a deixarem tirar uma foto sua nua, vai para a cadeia. Engraçado é que não existe essa sensibilidade toda quando é algum esquerdinha criticando a igreja, generalizando sem fundamento algum.

  2. Comentou em 08/02/2010 iara af

    reprimir que se externem preconceitos em meios públicos, como jornais e revistas, tv etc, não é caminhar par uma ditatura socialista. é contribuir par que preconceitos não se alastrem e não se perpetuem.
    ditatura é um estado em que não se pode pensar diferente de um comando central que detém o poder político e policial. existe evolução da socieddae democrática quando ela entende que o livre pensar e exprimir esse penamento possui limitações, na medida em que externar determindas idéias contribui para uma sociedade menos igualitária para todos, notadamente as minorias. e isso é avanço social, não retrocesso . a liberdae de um termina quando começa a de outro, não?

  3. Comentou em 07/02/2010 Pedro peririra Pereirira

    Posso, sera que devo, Ateu e simplesmente aquele que nao cre em nada, nao se importa com quem acredita pois ele nao acredita nem que o outro possa acreditar , entao fica quieto, .esse e o ateu que age com a logica do que pensa. Outros, levantam bandeira em punho para tentar destruir o que os outros acreditam, partindo de um principio, que nao e ateologico, mas com um cientificismo de achar que DEus e do territorio da logica,, quanto desconhecimento…Nao ha logica em quqlquer DEus,.. e sim uma questao de Fe.. .Querer passa deus para o territorio da ciencia e depois tentar desacreditar o Crente e funçao da maioria dos ateus nao logicos , ou sejam, devotos da ciencia como fe, ou da historia como fe.. Acho que e nesse grupo que vc enquadra..Me da um tristeza quando vejo os adeptos de Dawkins batendo palminha para o mestre sem nunca ter lido tomas de aquino ou um alfarrabi ou um Anselmo de lion, um avicena, ou ate mesmo Platao na sua metafisica. Reverber e ruminar historicismo e sua verdentes e coisa primaria, qualquer estudante secundarista bem doutrinado espuma ate a boca em falar dos crimes da igreja da inquisiçao, do carater alienante da religioes, mas pobremente nao se sustentam em um debate onde as bases de cada debatedor sejam respeitadas ou seja ,saber que existem outros principios de conhecimento longe das mesmices historicas idiotizantes. Sem agressoes Ok

  4. Comentou em 07/02/2010 Marcelo Idiarte

    ‘Desejo apenas, que exista uma retidão maior no nosso pensamento e que não caiamos nos abismos das contradições “papagaisticas” onde só repetimos os que narram nossos livros de historinhas, onde discutimos tudo, exceto os dogmas contrários a Cristo e à Sua Igreja’. Um estudante de teologia pregando imparcialidade. Agora completou… É muito engraçado isso. Nós somos A Verdade, Os Éticos, Os Bem-intencionados, Os Bambambãs, mas quando erramos não é culpa nossa, sabe como é, apesar de tanta divindade nas nossas vidas e nas nossas almas ainda somos humanos e, portanto, podemos errar tanto quanto os demais que são párias idiotas porque não acreditam no Cristianismo ou sequer em um Deus… Deus é amor, mas nos autorizou a odiar e desprezar aqueles que não acreditam no Nosso Deus. Não houveram as Cruzadas, isso foi coisa que algum historiador ateu e rancoroso inventou. Tampouco houve Inquisição. Inclusive as dezenas de instrumentos de tortura [ http://www.cacp.org.br/cat-instru-tort.htm ] atribuídos à esta atividade pueril da Igreja ao longo de quase 700 anos, e que estão espalhados em museus pelo mundo afora, foram forjados pelos comunistas. O fato desta bandeira ter dizimado milhões de pessoas no passado e oprimir bilhões de pessoas no presente não quer dizer nada, afinal o princípio da coisa não era exatamente este. Nós somos puros, castos e moralmente bem-intencionados. Pois sim.

  5. Comentou em 06/02/2010 Thiago Conceição

    Olha quem chegou, mais um esquerdinha tentando censurar os demais. A verdade lhe incomoda? A verdade agora é chamada ‘intolerância’? Se qualquer um de vocês tivesse a mínima idéia sobre o que falam, saberiam que um ‘religião’ onde é possível fazer ‘trabalhos’ ou macumbas contra outros não pode ser levada a séria. Essa pseudo-religião é apenas uma ferramenta que os antigos usavam para a guerra.

  6. Comentou em 06/02/2010 Vicente Soares

    Para que o debate se mantenha em alto nível, como é costume entre os leitores deste observatório, peço ao moderador do site que atente para os comentários do senhor Thiago, uma vez que não estão de acordo com as regras estabelecidas. (Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade de idéias e pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem intolerância ou crime.)

  7. Comentou em 05/02/2010 Thiago Conceição

    Marcelo Idiarte, pare de falar abobrinhas. Jesus Cristo jamais promoveu nada disso e pessoas corruptas existem em qualquer lugar. Indenpendente do cristianismo, moralidade existe e é necessária para o desenvolvimento humano, e digo isso de um modo objetivo e prático e não como filosofia de botequim.

  8. Comentou em 03/02/2010 Rosiane Rodrigues

    Vc, me caro amigo, é o resumo da ignorância da qual falo no artigo. Incomodou? Que bom! Era para incomodar, mesmo.

    O artigo tem objetivo de fazer gente pensar e se expressar – o que é o mais importante. E, se assim não fosse, o denunciaria por racismo e intolerância religiosa com base no artigo 20 da Lei 7716/89. A pena varia de um a cinco anos.

    Eram de sectários e fanáticos que a Alemanha nazista estava cheia quando dizimou milhares de vidas humanas. A ‘raça superior’ começou a exterminar os ‘inferiores’… isso te lembra alguma coisa?

    Faço questão de utilizar minha profissão à serviço da liberdade. E me orgulho disso.

  9. Comentou em 04/05/2006 MAGNO AURÉLIO GUEDES SOBRAL sobral

    fico indgnado como a ingnorancia de alguns jornalista de emissoras de tv importantes sem conhecimento profundo de determinado assunto, como nesse caso do gás da bolivia vem a publico se manifestar como se sua opinião fosse a verdade, é preciso que muitos deles assistise tv debate da cultura para entender que este assunto não é apenas bravatas que vai resolver a questão. Fico felís por ver que o nosso principal mandatario (presidente), ver as coisas com mas profundidade, e tudo se resolve com boa politica de estado, não podemos e pra cima da bolivia temos que respeitar suas decisões internas. hoje a PETROBRAS tem condições de resolver este problema da melhor maneira sem o alarde nacionalista de alguns jornalistas outras autoridades que vê nesse episodio uma maneira de prejudicar a politica externa do itamarati, vindo atingir a figura do presidente que agiu da maneira mas centrada, como compete ao mandatario de uma nação civilizada.

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