Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > LEITURAS DE VEJA

Quando o criminoso ganha espaço

Por Ligia Martins de Almeida em 27/07/2010 na edição 600

Quanto tempo a revista Veja terá que esperar para dar três páginas de entrevista – com direito a foto em dupla central – ao goleiro Bruno, o criminoso preferido da mídia no momento, mostrar seu ‘arrependimento’? A julgar pelo espaço dado à entrevista do ex-ator Guilherme de Pádua, um dia chegará a vez dele. A desculpa para dar a palavra ao assassino confesso da atriz Daniella Perez, morta em 1992, foi uma longa matéria de capa sobre o perdão, na edição corrente da revista.

Claro que a revista teria preferido falar novamente de Bruno se ele admitisse o crime e pedisse perdão. Mas já que ele ainda nem foi formalmente acusado, serve um crime do passado em que todos os envolvidos eram celebridades: o assassino, sua cúmplice e a vítima, todos ex-atores da TV Globo.

O grande destaque de Veja é a entrevista do assassino Guilherme de Pádua. Mas como o caso, tão falado e já esquecido, não renderia as oito páginas iniciais da matéria, foi preciso procurar muito assunto para compor o texto.

Entre os pecados – perdoados ou não –, são citados o ex-presidente Bill Clinton, o jogador de golfe Tiger Woods (que traíram as esposas), o pai da apresentadora Xuxa (que traiu a mãe dela), o goleiro Júlio Cesar, que cometeu o pecado de fazer parte da derrota da seleção de futebol brasileira, o papa João Paulo II e alguns mortais, que dão bons exemplos aos outros cidadãos. No meio desses pecados – que não sei se a igreja católica classifica como veniais ou mortais –, o destaque fica mesmo com o ex-ator, que matou uma menina de 22 anos e agora sonha em ser perdoado pela mãe da vítima, a autora de novelas Glória Perez.

No foco da mídia

A pergunta que os leitores devem estar se fazendo é se um assassino confesso, condenado a 19 anos de prisão, dos quais só cumpriu sete, serve de exemplo para alguém só porque se converteu a uma religião. Na entrevista, ele fala do sofrimento na cadeia, do sonho de se tornar pastor, da rejeição que ainda sente por ter cometido um crime. E do fato de tanto ele quanto sua ex-mulher (cúmplice no assassinato) terem reconstruído novos casamentos. Enfim, um sofredor que tenta viver em paz, arrependido do seu erro.

Se o repórter fosse um pouco mais atento, teria pegado o arrependido pregador pela palavra, quando ele diz:

‘Se o assassinato tivesse sido premeditado, teria sido mais bem executado. Todos viram que eu fui o último a estar com ela. Se houvesse premeditado, teria feito de outra maneira.’

Parece tão arrependido quanto o jogador de futebol Felipe Melo, que, durante a Copa do Mundo, respondeu à pergunta de um repórter sobre sua merecida expulsão de campo dizendo: ‘Se fosse para quebrar, eu tinha entrado na perna dele de outro jeito.’

Teria sido melhor – embora menos sensacionalista – se, em vez de falar com o criminoso, Veja tivesse dedicado o mesmo espaço à mãe da vítima. Se o perdão depende basicamente de quem foi ofendido, não faz o menor sentido abrir espaço para os criminosos. Como não faz sentido colocar no mesmo nível traição entre casais, derrota no futebol e assassinatos. Parece que se ao menos um dos envolvidos for uma celebridade, vale a pena até inventar matérias que justifiquem falar de quem é – ou foi – famoso.

O perigo maior é os leitores acabarem convencidos de que realmente precisam saber mais sobre os escolhidos pela mídia. Não importa se são pessoas que fizerem alguma coisa boa ou se são criminosos. Se estão na mídia, é porque merecem.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 29/07/2010 Maurício Fleury Curado

    Caro Sr. Boris Dunas;

    os comentários sobre suas palavras dessa vez são pertinentes, posto que o senhor desviou-se totalmente do ponto em questão para, do nada, relacionar a atitude de uns com acusações de outros.
    Nâo cabe aqui discutir o tema em si, mas sem dúvida, o teor do comentário destaca uma necessidade sua – incontrolável, pelo que parece – de atacar e xingar determinado grupo político-partidário.
    É fundamental que tenhamos nossas posições, entedimentos e preferências, mas cada coisa no seu lugar e na sua hora.
    Peço desculpas pelo desvio do tema, mas, sob minha perspectiva, achei relevante fazer essas colocações com o objetivo de contribuir para o bom e qualificado debate.

    No tocante à decisão da revista de priorizar as citadas figuras, em misturança indigesta e foco distorcido (sim, o perdão é de quem foi ofendido), com todo o respeito… sem comentários….
    Cordiais saudações!

  2. Comentou em 28/07/2010 Benedito Oliveira

    ‘…goleiro Bruno, o criminoso preferido da mídia…’, pelo amor de Deus, o que é isso ? Ele já foi, pelo menos, denunciado ? Que civilização é essa que estamos formando aqui no Brasil onde o linchamento é a regra geral ?
    O goleiro Bruno, assim como eu e a articulista, merecemos uma polícia e uma justiça que tenham critérios, métodos e competência para investigar, processar e julgar com legalidade e isenção toda e qualquer pessoa acusada. O resto é insegurança e selvageria.

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