Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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FEITOS & DESFEITAS >

Quando O Globo não lê O Globo

Por Gilson Caroni Filho em 27/11/2008 na edição 513

O leitor de O Globo, que pensa em vender seu carro usado para comprar um novo, está em apuros. A se guiar pelas informações que obtém no caderno de Economia do jornal, ele não sabe se deve abandonar seus planos ou se pode procurar o veículo que deseja e negociar com calma. É uma decisão a ser tomada de acordo com a página lida.


Afinal, deve dar crédito aos vaticínios da analista de economia Miriam Leitão, para quem vivemos na véspera do apocalipse, graças à conjugação da crise internacional com a falta de prudência do governo? Ou confiar que, passado um momento de instabilidade, a tendência da economia brasileira é se normalizar com as medidas que vêm sendo tomadas pelo Banco Central de abrir linhas para o financiamento do comércio exterior e de flexibilização do compulsório. Henrique Meirelles ou Miriam, eis a questão? Mantega ou Gustavo Franco, qual o norte a ser seguido?


Estamos na iminência de um brutal contingenciamento de crédito ou, como assegura Fábio Barbosa, presidente da Febraban ‘o mercado está pouco a pouco retornando à normalidade’? No Globo essa é uma questão que assume dimensões esquizofrênicas. A leitura da edição de domingo (23/11) é fundamental para entendermos o que anda acontecendo na imprensa nativa. Sintoma de tempos em que a análise dos fatos se confunde com o desejo das fontes e dos especialistas de plantão.


Berço esplêndido


Na página 28, em sua coluna, Miriam Leitão pontifica:




‘As locadoras brasileiras estão recusando terceirização de frota por que não conseguem comprar carros novos, nem repassar os velhos. Locadoras funcionam assim: usam sempre carros novos e revendem os já usados, às vezes para as próprias montadoras, mas esse giro agora está difícil, por dificuldades de captação de financiamento numa ponta, e falta de consumidor final na outra ponta do negócio’.


Pronto, é melhor o leitor adiar o sonho de adquirir um novo veículo. O motor do setor automotivo engasgou por falta de ajuste de custos.


Na página seguinte, em matéria assinada pelo jornalista Bruno Rosa, intitulada ‘Itens usados em alta’, o mesmo leitor fica sabendo que…




‘A crise já fez o consumidor brasileiro mudar de hábitos.As roupas novas deram lugar a remodelagem de peças antigas esquecidas no armário. O dinheiro aplicado no banco foi resgatado para adquirir um carro usado, que já está vendendo mais que os similares zero quilômetro’.


Boas novas, o sonho não morreu. Seu carro novo é uma possibilidade real.


O que explica que, na mesma edição, encontremos informações tão desencontradas? A resposta faria corar qualquer estudante de jornalismo. A colunista confiou na fonte e descuidou da apuração. Relegou a segundo plano a checagem do que noticiava. Produziu uma ficção econômica, permitindo que a fonte produzisse o fato.


O repórter Bruno, ao contrário da experiente jornalista, foi a campo e trouxe a notícia que desmentia a coluna. No meio disso tudo, um editor dormia em berço esplêndido, deixando claro que nem O GloboO Globo. Se o jornalismo deve ser o resultado de uma prática honesta, não há como deixar de perguntar se o nosso hipotético leitor compraria um carro usado de Miriam Leitão.


A resposta deve estar na sua preferência por páginas pares ou ímpares. Será esse o novo critérios de noticiabilidade: a velha prática do par ou ímpar, dependendo da aposta da fonte que pauta? A que ponto chegou o ‘ rigor jornalístico’

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Professor titular de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), Rio de Janeiro, RJ

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