Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DA VEJA

Quando o jornalismo de latrina dispara contra a beatitude

Por Walter Falceta Jr. em 16/01/2006 na edição 364

Felizmente, milito entre aqueles jornalistas ‘amigos’ do padre Júlio Lancelotti, sacerdote católico que tanto incomoda aos poderosos da mídia criminosa e das castas cínicas neoliberais. Posso afirmar que o clérigo da Moóca figura entre os paulistanos mais respeitáveis, honestos e altruístas que conheci. Por isso, tenho colaborado voluntariamente em um de seus belíssimos projetos com o ‘Povo da Rua’.


Tentei adivinhar quando emergiria, em toda plenitude, essa aguda e inevitável contenda na maior cidade brasileira: de um lado, a Pastoral de Rua e seu líder; de outro, Veja e aquilo que costumávamos epitetar vanguarda do atraso.


Padre Júlio representa o que há de melhor em nossa sociedade. Ostenta como atributos a tolerância, a compaixão, a energia para o trabalho, a perseverança, a humildade e a coragem. É o homem da Casa Vida, instituição reconhecida internacionalmente por seu trabalho pelas crianças e adolescentes portadores do HIV. Seus serviços oferecem um fio de esperança aos que foram humilhados, destituídos, feridos, maltratados e excluídos pela farisaica elite brasileira. Sim, nessa comunidade da outra São Paulo há também os loucos, os consumidos pelo vício e os seduzidos pelo crime de varejo. A esses homens, mulheres e crianças feitos párias, à beira do redemoinho da morte, padre Julio estende a mão, como faria seu líder, não Bento 16, o emplumado árbitro do Tribunal do Santo Ofício, mas o rústico carpinteiro da Galiléia, Jesus de Nazaré.


Como amante da dialética e das dialéticas, sempre me protegi do recurso fácil ao maniqueísmo. Aqui, entretanto, falta-me alternativa. Veja resume e simboliza o que há de pior em São Paulo, o que há de mais letal à cultura da vida no Brasil.


À margem direita do rio, empina-se arrogante a torre do ‘pecado’, hoje convertida em bunker dos corleones da comunicação. Entre tantos colegas de boa índole, mistura-se o que há de pior em nossas fileiras, empenhados num maquiavélico processo em que a manipulação da doxa tem por objetivo destruir a episteme. O panfleto mente! Depois, distorce, trama, sabota, e agride. Em seus quadros, mantém os mais obstinados inimigos da verdade, dedicados a restaurar preconceitos, atiçar ódios e instituir intolerâncias. Mais que tudo, entretanto, a colorida cartilha do mal esforça-se por injetar nas veias da classe média a desconfiança e o medo.


Porta-voz da malta de predadores que há séculos controla cofres e mentes em Pindorama, o ‘odiário’ oficial oposicionista publica mais uma pérola em sua edição nº 1938 (de 11/1/2006). Trata-se de iguaria de fel preparada por encomenda de certos abantesmas dracúleos, hoje estabelecidos nos porões da alcaidia.


Onze pecados


Surpreende a enorme quantidade de incorreções em tão escassas e mal digitadas linhas. Seguem 11 pecados da ‘reportagem’ de 11 de janeiro.


1. A chamada ‘Pastoral de Rua’ não se constitui em organização política, tampouco mantém qualquer ligação com o Partido dos Trabalhadores, o partido demonizado semanalmente por Veja.


2. Indaga-se: que tropas o papa Bento 16 – aqui invocado como Inquisidor – pode mover contra a Pastoral de Rua? Na calada da noite, invadir os arquivos da Sé Romana e triturar secretamente os documentos do Concílio Vaticano II? Apagar das fotos oficiais a figura de João 23? Ou fingir que não existe uma Doutrina Social na Igreja, cuja preocupação com os excluídos mereceu apoio até do finado João Paulo II? No entanto, tratamos aqui de assuntos de relevância histórica, cuja compreensão demanda pesquisa e capacidade de interpretação. Esses talentos e competências, definitivamente, não são mais o forte dos repórteres de Veja.


3. Ao tratar do povo de rua, a jornalista comete mais um pecado ao referir-se à ‘categoria’. Certamente, a moça jamais gastou os olhinhos num texto de Aristóteles, ou teria mais zelo com o que escreve. Compreenderia conceitos e teria recursos para vencer o transe abriliano e enxergar com alguma clareza a realidade. A repórter tampouco logra entender a abrangência do termo ‘povo da rua’. Desconhece o sentido antropológico da expressão e sua gênese no estudo das condições sociais e econômicas dos excluídos urbanos.


4. Na seqüência, mais uma vez atrapalhada com conceitos e categorias, a repórter apronta uma lambança, misturando sem-teto com ambulantes e menores em situação de abandono com produtores de ‘excrementos’. Por fim, sugere que estejam todos associados, de algum modo, à bandidagem. Santo Agostinho, protegei-nos do veneno da ignorância. O termo ‘pivetes’ insere-se na velha estratégia de Veja em recorrer ao esculacho linguístico para desqualificar o ‘outro’.


5. Sonsa, a repórter parece tentar convencer o leitor de que padre Júlio inventou a expressão ‘prática higienista’. Priva o leitor de conhecer a origem do termo e suas implicações históricas. Seguramente, jamais manteve qualquer contato com os relatos sobre a política higienista de Washington Luís, cuja ação, aliás, teve como alvos especialmente os desfavorecidos da Várzea do Carmo, nas bordas do Tamanduateí. Se estudasse um pouco mais, a jornalista compreenderia que práticas desse tipo não eliminam a pobreza, apenas a transferem (muitas vezes, temporariamente) de lugar. Não por acaso, boa parte do povo de rua aglutina-se hoje na região do Glicério, parte da mesma Várzea.


6. Indaga-se à repórter de que forma dez mil pessoas em situação de rua podem servir como ‘rebanho de manobra’ para o sacerdote. Sairá o padre como candidato do demoníaco Partido dos Trabalhadores? Os tais excluídos serão utilizados para pintar propaganda eleitoral em muros, distribuir panfletos e executar boca-de-urna ilegal? Ou será que serão imolados para que se evidencie a fragilidade do sistema de segurança pública em São Paulo? Afinal, quais seriam os objetivos do padre? Na visão paranóica de Veja, o clérigo da Moóca planeja uma espécie de sinistro confisco. Pretende, quem sabe, tomar o poder para dividir as mansões do Morumbi e de Higienópolis entre os catadores de papel do Centro Velho. [Em se tratando de violência, pergunta-se: por que Veja silencia sobre o processo contra os acusados de assassinar sete moradores de rua, em 2004? Será que, neste caso, a impunidade não se converte em assunto de interesse jornalístico?]


7. Não é verdade que o padre Júlio seja contrário à oferta de albergues e abrigos para os moradores em situação de rua. Erguesse o traseiro da cadeira e a repórter poderia conhecer albergues nos quais o clérigo desenvolve suas atividades de promoção social. Para visitar, por exemplo, a casa de convivência São Martinho de Lima, no Belenzinho (sim, existe uma Zona Leste na cidade), a repórter não perderia mais que duas horas.


8. O rabo do texto é típico do cinismo retórico de Veja. A repórter tenta confundir padre Júlio com o templo ao qual está legalmente ligado, propriedade da igreja e não do sacerdote. Numa sofística pouco sofisticada, a jornalista propõe a invasão da casa de cultos. Ora, que não se confunda Jesus com Genésio. Ou será que os católicos do Opus Dei e o Sumo Pontífice concordariam em abrir a Catedral de São Pedro para acolher os imigrantes albaneses e marroquinos que afluem diariamente à Itália? Sugerir que o padre passe a viver debaixo do viaduto equivale a recomendar que os infectologistas desenvolvam as doenças que combatem. A sandice permite imaginar que, durante a redação do texto, a autora vivenciasse um estado alterado – experiência, aliás, corriqueira nos altos círculos de escribas de Veja.


9. Os profissionais de imprensa bem informados sabem que a ‘entrevista’ com o padre desenrolou-se cordialmente, versando sobre outros assuntos, como as conquistas e desafios do trabalho missionário nas ruas de São Paulo. O esclarecimento dos fatos sugere duas hipóteses. a) Como é de praxe, o material da moça foi violentamente adulterado e editado pela intelligentsia que controla a revista. b) Durante o contato com o padre, a jornalista desenvolvia à sorrelfa a manjada tática de Veja: simular uma grande entrevista para coletar uma frase ou palavra que comprometa a vítima da vez ou que corrobore as mirabolantes teorias engendradas pelos editores da revista. Afinal, as matérias do semanário já estão prontas antes que os personagens sejam ouvidos. O contato com a realidade constitui-se em mera alegoria na práxis vejística. Aproveita-se no texto, na moldagem sutil ou na martelada, apenas o que convém aos ‘roteiristas’.


10. Surpreende que o mesmo padre satanizado pela revista tenha estrelado uma das capas de Vejinha, em 27 de dezembro de 1995, na qual era festejado como ‘Papai Noel de verdade’.


11. Por fim, a seção de cartas da edição seguinte de Veja escancara no desequilíbrio da seleção de opiniões mais uma molecagem. Exagera-se em número e intensidade o que serve para desqualificar a vítima. Reduz-se na peraltice o que lhe possa ser favorável. No caso presente, os que reconhecem a beatitude foram ignorados. Imagina-se que as manifestações indignadas de entidades, clérigos, políticos e cidadãos seguiram despachadas, em via inversa, nas produtivas latrinas da redação.

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Jornalista

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  1. Comentou em 20/01/2006 Léo Bueno

    ‘Há algo de podre na Marginal, e não é o Rio Pinheiros.’ Alguém escreveu isso numa destas faixas de comentários, e peço desculpas por não me lembrar quem foi. Mas está correto.

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