Domingo, 17 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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Quando ser rico é uma vergonha

Por Rosane de Bastos Pereira em 28/05/2011 na edição 643

A revista Forbes publicou a nova lista dos mais poderosos do mundo, como o faz anualmente, e a Folha de S.Paulo (21/5) traz uma matéria com o título “São Paulo é a 6ª cidade em número de bilionários”, assinada por Álvaro Fagundes, de Nova York. O texto informa:

“De acordo com o levantamento, São Paulo tem 21 bilionários (como Antônio Ermírio de Moraes e Abílio Diniz), que, juntos, acumulam um patrimônio de US$ 85 bilhões – mais que o dobro de todos os bens e serviços produzidos no Uruguai no ano passado, por exemplo”.

Curiosamente, acabo de ler As veias abertas da América Latina, do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano. Publicada no começo da década de 1970, a obra é, infelizmente, atual. As palavras de Galeano, lançadas ao vento e recém-absorvidas, ainda soavam nos meus ouvidos – como soarão por toda a minha vida – quando vi a matéria da Folha. E não havia nenhuma crítica, nada. Apenas a informação isolada de que aumentou o número de ricos no Brasil. Aliás, subiu de 14 em 2010 para 21, em 2011. Sim, existem pessoas que conseguem ficar bilionárias nesse país num curto espaço de tempo, embora elas jurem de pés juntos que tudo é fruto de uma longa e trabalhosa jornada.

Fonte de renda para editores

A realidade, embora alguns teimem em dizer que as coisas são assim mesmo, insiste em nos trazer, há décadas, exemplos de que alguma coisa não vai bem, que a desigualdade assombrosa entre ricos e pobres em solo brasileiro não deve ser obra divina, nem um lance de azar. Afinal, como poderia tanta gente trabalhadora ter tão pouca sorte na vida? Minha mente não para de se perguntar por que será que um país que figura entre os mais miseráveis e atrasados do mundo também abriga os mais ricos do planeta? E logo me vem a resposta: para que uns poucos se regalem, a maioria continua a carregar pedra, literalmente, visto que centenas de crianças ainda são exploradas em pedreiras, por exemplo, a troco de centavos, de migalhas, quando deveriam estar em escolas.

Sim, mas em escolas não se fala por aqui com seriedade. No mesmo dia em que a Folha nos apresentava nossos conterrâneos mais ricos, que não necessariamente vivem aqui, o New York Times publicava uma matéria sobre Bill Gates – também integrante da lista da Forbes –, que em 2009 investiu, por meio da Bill and Melinda Gates Foundation, US$ 373 em educação. A preocupação de Gates agora é promover debates e criar estratégias que interfiram nas políticas públicas de educação nos Estados Unidos. Para isso, contratou especialistas renomados para conhecer a realidade das escolas. Nossos ricaços nem com isso se preocupam.

Quem, em sã consciência, perderia seu tempo visitando escolas públicas para ver de perto a situação delas? Para ver que aqueles muros altos, mais parecidos com presídios, recebem diariamente centenas de crianças e jovens cujo futuro está comprometido pela falta de acesso à educação de qualidade? Quem se preocupa em dizer que os livros de literatura que o Ministério da Educação (MEC) envia todos os anos às escolas públicas, por meio do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), e que custa milhões de reais aos cofres públicos, nem são lidos? Ou que os livros de literatura enviados pelo governo de São Paulo para compor as “Salas de Leitura”, um programa criado em 2009 no governo de José Serra, são apenas uma ótima fonte de renda para os editores?

À espera da esperança

Mas por que se preocupar, se os bilionários da lista Forbes não têm filhos em escolas públicas, não é mesmo? Penso que o mais estarrecedor não é a lista. Sabe-se que, desde que o Brasil é Brasil, somos usurpados por vários tipos de exploradores, sejam nacionais ou importados. O que mais encabula é saber que nos acostumamos a achar que tudo isso é normal. Qualquer país civilizado sentiria vergonha de ter uma matéria como essa estampada no maior jornal em circulação.

Não creio que tudo esteja perdido, como anunciam os pessimistas de plantão. Há inúmeras possibilidades para que o nosso futuro seja diferente. Nos anos 1970, em Montevidéu, Eduardo Galeano terminou seu livro com as seguintes palavras: “Há quem acredite que o destino descansa nos joelhos dos deuses, mas a verdade é que trabalha, como um desafio candente, sobre as consciências dos homens.” Acredito que um dia este país terá sua consciência despertada a partir da educação, a começar pela valorização dos professores das escolas públicas, que hoje lidam com as veias abertas do ensino, à espera da esperança.

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Jornalista e doutoranda na Faculdade de Educação da Unicamp, com bolsa de produtividade do CNPq

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