Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Quando a mídia não ‘se toca’

Por Thalita Pacini em 20/05/2008 na edição 486

A iniciativa da reportagem ‘Se toque’, da revista Gloss (nº 8, maio de 2008), foi relativamente boa. Mulheres posam para fotos vestindo uma camiseta e afirmando, de maneira expressa: eu me masturbo. Até pouco tempo atrás, a masturbação era uma prática de difícil aceitação (de uma forma geral) relativamente tolerada desde que concentrada apenas no universo masculino.

Tente imaginar que todos os homens do Brasil se masturbam, aceitam isso (até se gabam) e tem livre acesso para transitar pelo assunto. Agora imagine que as mulheres nunca se tocaram. As que se tocaram, mentem ou fingem que não e as poucas que fazem propaganda sobre são classificadas como levianas, pelo grupo mais politicamente correto.

Atualmente, o comportamento é outro. O afrouxamento da fé católica – entre outras conquistas femininas, científicas e até um maior apoio masculino para que as mulheres tenham os mesmos direitos que os homens, como seres humanos – enfraqueceu os mencionados estereótipos e preconceitos, havendo ainda exceções nos dois extremos: os liberais e os mais conservadores, sobre o assunto sexo. O espírito é que a sexualidade é assunto individual e cabe a cada ser tratar dela como convier. Divulgá-la, reprimi-la, enfim, hoje podemos dizer que é mais uma opção do que uma obrigação moral, como antigamente.

‘Profanar com as mãos’

Porém, extremamente imprudente é a afirmação e divulgação pela mídia, sem o devido respaldo de um especialista, que consta na página 8, de uma das calorosas entrevistadas:

‘Lá em casa, masturbação é assunto de família. Minha mãe é viúva e eu compro vibradores para ela porque quero que ela seja feliz. Minha filhinha tem três anos e já se masturba. Quando a flagra brincando, minha empregada tenta reprimir e eu não deixo.’

Explícita falta de bom senso da redação, ao publicar, como bom exemplo ou recomendação, o fato da mãe estimular que uma criança de três anos se dedique, como ela, ao prazer sexual. Afirmar com tal desprendimento, orgulho, ou forma de apoiar a campanha, caracterizou total falta de informação, tanto da mãe quanto da redação da revista, o que representa imperícia e difusão não criteriosa de informações relevantes. Inicialmente, porque crianças nesta idade (fase fálica, segundo a teoria freudiana) realmente descobrem as genitálias como órgãos que proporcionam prazer, porém não é o caso do prazer da fase adulta, com abstração fantasiosa. Para a criança, trata-se, praticamente, de uma descoberta fisiológica, não permeada de desejos ou impulsos estritamente eróticos ou pornográficos. Fica elucidada, então, esta imensa e tão importante diferença. A própria palavra, em sua etimologia, não soa adequada (oportunamente desconsiderada na concepção atual): ‘masturbação’ significaria ‘profanar com as mãos’, uma tentativa religiosa de embutir o pecado ao prazer, a fim de tolher o ato.

Direitos da criança

Divulgar o ato como necessário e sadio, importante para o auto-conhecimento, registrar a repressão desta prática como erro, certamente consiste em matéria de utilidade pública. Anunciar indistintamente que a prática pessoal consiste apenas em auto-afirmação ou sei lá o quê. Pois consiste em uma prática tão simples e íntima que não vejo necessidade de queimar sutiã em praça pública. Agora, concepções de modernidade à parte, orgulhar-se da masturbação de uma criança de três anos beira o absurdo. Não é preciso reprimir, porém também nada saudável é estimular. Inteligente seria canalizar a atenção da criança para atividades mais compatíveis com seu desenvolvimento físico, intelectual e motor. Uma vida sexual saudável exige maturidade. É desnecessário, e até incoerente, incentivar a prática explícita neste período (que afeta o limite espacial do outro e expõe o praticante) ou permitir que se torne um hábito precocemente é uma atitude tão irresponsável quanto reprimir.

Ainda como agravante, uma criança, que é pessoa de direitos, ter suas experiências íntimas, mesmo que normais, divulgadas publicamente e desta forma, pode caracterizar ameaça aos direitos da própria criança, tanto hoje como a longo prazo. O que me faz discordar parcialmente da proposta da matéria: ‘Importância de exercer sua cidadania sexual’.

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Formada em Letras, poeta e colabora de diversos sites e revistas eletrônicas

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