Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

FEITOS & DESFEITAS > THE WASHINGTON POST

Quando o tema é a morte

16/01/2007 na edição 416

Em sua coluna de domingo [14/1/07], a ombudsman do Washington Post tratou de um tema delicado para ser escrito por jornalistas: a morte. O texto falou em especial das recentes mortes do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein e do ex-presidente americano Gerald Ford. ‘Respeito aos mortos. Estas são palavras poderosas, e são interpretadas de maneira bem diferente por alguns leitores e por editores e repórteres do Post‘, escreve Deborah Howell. ‘Leitores consideraram insensível a cobertura das recentes mortes de Saddam Hussein e de Gerald Ford. Alguns também queriam mais fotos dos 24 civis mortos na cidade iraquiana de Haditha [cidade onde fuzileiros navais americanos são acusados de ter matado civis, muitos deles mulheres e crianças, em novembro de 2005]. Editores do Post consideraram insensível fazer isto’.

Ford

Deborah faz uma retrospectiva cronológica e registra que alguns leitores criticaram a matéria de capa do dia 28/12/06, assinada por Bob Woodward um dia depois da morte de Ford. A peça detalhava a visão negativa do ex-presidente sobre a guerra do Iraque. ‘Gerald Ford está morto. Não podemos refletir sobre sua vida sem resgatar um argumento dele sobre um assunto atual?’, questionou o leitor Bill Thompson.

Woodward passou horas entrevistando Ford em 2004 e 2005 e afirmou que o ex-presidente teria claramente concordado com a divulgação de seus comentários após sua morte. ‘Este é um momento de discussão nacional sobre quem foi este homem e sobre seus pontos de vista. Ele desejava dizer o que pensava antes de deixar a Terra. Foi a interseção de sua morte com o assunto mais importante do país’, justificou Woodward. Jornalistas querem publicar as notícias, e não atrasar sua divulgação. Para os repórteres e editores do Post, publicar a entrevista não foi um desrespeito a Ford, argumenta Deborah.

Outros leitores consideraram a coluna de Dana Milbank, publicada no dia 31/12/06, desrespeitosa, pois informava que muitos VIPs não foram à cerimônia fúnebre de Ford em Washington. ‘Publicar a coluna supérflua e desagradável de Dana Milbank sobre quantas pessoas não foram ao funeral do presidente Ford, no meio da primeira página do Post de domingo, foi desrespeitoso e deselegante’, escreveu Ron Nessen, ex-secretário de imprensa de Ford. ‘As pessoas importantes que não compareceram foram uma parte importante do noticiário daquele dia’, explicou o editor-executivo Leonard Downie Jr.. Outros leitores chamaram atenção para uma discordância: a matéria principal sobre o funeral publicou que o ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld compareceu, enquanto a coluna de Dana dizia que ele não havia ido. Ele não foi ao funeral e uma nota de correção será publicada, informa a ombudsman.

Saddam

Alguns leitores ficaram chocados com a foto de Saddam na primeira página do dia 31/12/06, momentos antes de ele ser enforcado, com a corda ao redor do pescoço. Editores não costumam publicar fotos de execuções ou do morto, especialmente na capa, mas a foto em questão tinha alto valor jornalístico. ‘Eu poderia ter ficado sem a foto publicada no interior do jornal, de seu corpo, mas Downie esclareceu que a execução aconteceu muito próximo ao deadline da produção do Post, e a foto era a prova de que ele estava morto’, afirma Deborah.

Haditha

O repórter do Post especializado em assuntos militares, Josh White, teve acesso aos relatórios do Serviço Investigativo de Crimes Navais, ainda não divulgados, e, portanto, o Post é o único diário com as fotos do massacre em Haditha. Leitores queriam que mais fotografias fossem divulgadas – foram publicadas no total cinco delas. Fotos de vítimas de acidentes ou de crimes não são em geral publicadas – a não ser que tenham um ‘claro propósito jornalístico’, informa Downie. As fotos restantes não atingiam este critério, por isso não foram impressas no jornal.

Visões diferentes

‘É sempre problemático quando os leitores pensam que seus jornais são insensíveis diante da morte. Eu não concordei com as reclamações, mas fiquei um pouco preocupada com o fato de os jornalistas terem um filtro que nos impede de ver o que os leitores vêem mais claramente’, aponta a ombudsman.

Os leitores que quiserem ver como os jornais de todo o mundo retrataram com fotos a execução de Saddam podem acessar o arquivo das capas dos jornais do dia 31/12/06 no sítio do Newseum.

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