Terça-feira, 20 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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FEITOS & DESFEITAS >

Que imagem de Obama chegou até você?

Por Ary Moraes em 05/08/2008 na edição 497

Nas últimas semanas, a eleição presidencial norte-americana proporcionou uma reflexão oportuna sobre os caminhos do jornalismo neste começo de século. Em sua viagem de campanha, o senador democrata Barack Obama percorreu um itinerário indispensável para suas pretensões eleitorais, passando por pontos-chave do Oriente Médio e Europa.

Obama tentou encenar em Berlim um quadro que o aproximasse de outro mito da política norte-americana, de modo a colocar mais um tijolo na edificação de sua imagem como monumento da novidade no cenário político norte-americano e internacional. Exatamente como Kennedy fizera, em outro contexto político e sob outras circunstâncias, Obama programou deixar-se ver em público, num evento que reunisse uma audiência considerável para afirmar suas propostas ao Velho Mundo, apresentando-se como a ‘novidade’.

Em sua primeira escala na Europa, protagonizou um discurso que reuniu cerca de 200 mil pessoas diante da Coluna da Vitória, no Tiergarten Park, na quinta-feira, 24 de julho, em Berlim. O discurso que pronunciou tinha como foco a necessária (re)aproximação entre os Estados Unidos e a Europa. A imagem que construiu, entretanto, foi planejada para alimentar o mito político que o senador de Illinois escreve a respeito de si mesmo. Sua figura alta e esguia, em contraste com a multidão que se apertava diante do palanque para vê-lo, evoca a transcendência das figuras religiosas de El Greco, ao mesmo tempo em que representava o curioso contraste de um homem negro diante de uma muralha de brancos que o aclamam. Bastante representativo para a construção desse mito, uma vez que se trata de um negro norte-americano, ou melhor, de um afro-descendente norte-americano: aquele que pode trazer a novidade, resgatar a glória do país, vem do meio do povo, daqueles um dia rejeitados pelos compatriotas.

A sintaxe visual

Um batalhão de fotojornalistas registrou esse momento histórico, mas foram as fotos feitas por Jae C. Hong, da Associated Press, que ganharam notoriedade, ao ocupar boa parte das capas e páginas da cobertura que os jornais de diversos países fizeram do comício de Obama. Hong fez o registro que entrará para a História por representar esse momento. Porém, sua foto trouxe, indiretamente, uma contribuição à discussão acerca do futuro do jornalismo, debate que tomou corpo com o advento das novas tecnologias de comunicação. Boa parte das pessoas que estavam diante de Barack Obama tinha nas mãos os mais diversos tipos de câmeras: fotográficas, digitais, de vídeo, DVD e – sério – até um laptop (com câmera).

Todos fizeram registros do senador e do comício, sem ter, obviamente, grandes preocupações com a resolução da imagem, a composição ou outros elementos técnicos importantes para a difusão profissional. Ao fotografar o senador, tinham em mente fazer o registro de sua própria presença no comício. Todos produziram parte de um relato, que completaram posteriormente ao escrever, descrever ou narrar o momento registrado pelas câmeras, dando sentido às imagens: literalmente, são centenas de pontos de vista. Todos reportaram. Os fotojornalistas também lá estavam, posicionados em pontos distintos, mas sobretudo na área reservada à imprensa, fazendo o registro segundo uma abordagem já estabelecida pela cultura jornalística, ou seja, de acordo com sua sintaxe visual.

A plasticidade da cena

O povo, por sua vez, fez os registros sem levar em conta essa sintaxe, um registro que lhe servirá, que atenderá a seus propósitos pessoais. Se existe uma motivação documental num ato político como esse, o povo também a partilha e, de posse das novas tecnologias, pode obter seus próprios registros do momento, o que também pode ser tomado como um ato político.

Em termos semânticos, não há como não associar a foto de Hong a uma velha foto do então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva, hoje presidente da República. Tirada numa assembléia de metalúrgicos realizada no estádio da Vila Euclides em 1979, a imagem também é o registro de um ato político que faz parte de um outro mito. Em preto e branco, uma multidão tão grande quanto a de Obama ocupa o estádio, tendo ao centro Lula, em pé num suporte que coloca seus pés na altura dos ombros dos companheiros, elevado como num andor. Em pleno governo militar, Lula discursa sem aparelho de som, vendo os companheiros repetirem suas palavras até que todos no estádio as tenham escutado.

Diferentemente do que aconteceu em Berlim, a plasticidade da cena não foi planejada; ninguém pensou em associar a imagem de Lula à de Kennedy ou à de quem quer que fosse. O fato acontecia enquanto alguém o documentava. [O registro, feito por alguém cuja identidade não consegui descobrir, faz parte do acervo pessoal do presidente e pode ser consultado na Fundação Perseu Abramo ou acessado no site da revista Época].

Um registro ‘panorâmico’

Apesar da plasticidade, foi a História que lhe conferiu sentido. Existe uma dramaticidade no quadro, que transcende o contraste do preto e branco e se fixa no gestual tenso dos personagens, sobretudo no de Lula, muito distante do relaxamento ensaiado de um Obama envolto pela histeria do público, denominada ‘Obamamania’. Ao observar a foto de Hong nas páginas é impossível não pensar na difusão da imagem (e do discurso) do senador, potencializada pelos aparelhos que tomavam a praça: não acontece aqui o que ocorreu com as palavras de Lula, repetidas até que todos as conhecem? Num primeiro momento, foi, entre outros fatores, a presença física do jornalista no cenário dos fatos e, mais tarde, o uso de aparelhos que permitiam a reprodução e difusão dos relatos que contribuíram para autorizar historicamente o relato jornalístico diante dos demais.

No atual contexto, onde aparelhos que reproduzem e difundem relatos são portáteis e estão disponíveis para grande parte da população, a questão que se coloca está ligada à legitimação do relato jornalístico. A própria foto de Hong indica que, diante da diversidade de relatos, a intermediação da imprensa é importante para que se preserve ou se faça perceber o sentido dos fatos. De outra maneira, tal sentido seria pulverizado pelos diversos relatos possíveis. Desnecessário lembrar que a imparcialidade é inerente a essa intermediação. O enquadramento mostra a intenção de registrar o discurso de Obama de modo ‘panorâmico’, digamos assim, incluindo num mesmo quadro o senador, sua numerosa assistência e tudo aquilo que lhes pertence (o gestual, a indumentária, os aparelhos que portam etc.). Tal posicionamento possibilitou o relato em sua amplitude – incluindo-se aí a presente discussão –, além de estabelecer, pelo distanciamento, a posição daquele que reporta o fato, diferente daquela adotada por quem o encena.

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Jornalista e professor de Design e Jornalismo da Faculdade de Jornalismo da UERJ

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