Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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FEITOS & DESFEITAS >

Que jornalismo é este, companheiros?

Por Simone Silva Jardim em 17/03/2009 na edição 529

Frases tiradas de seu contexto, que por causa desse ‘recorte’ tornam-se polêmicas; estatísticas estarrecedoras que ficam guardadas na gaveta até que uma notícia ‘quente’ motive sua divulgação; histórias de pessoas reais narradas por apresentadores, com complexo de ficcionista, transformadas da noite para o dia em espetáculos públicos macabros na televisão brasileira.

Diariamente, tudo isso entra, repercute, desaparece e reaparece nos veículos da imprensa ‘grande’ do país sem que a perspectiva das equipes envolvidas nestas coberturas capengas se renove, torne-se mais apurada ou ética.

A pergunta que não pode calar frente a esse cenário: os jornalistas seriam ‘produtores industriais da distorção’, como quer nos convencer Nassim Nicholas Taleb, em seu polêmico livro O Cisne Negro?

Taleb é um pensador contemporâneo provocativo e adepto do que ele chama do ‘anticonhecimento’, ou a busca pelos livros não lidos na biblioteca de Umberto Eco. Ele faz uma análise ácida da imprensa: ‘Não existe uma medida absoluta do que é bom ou ruim. O que importa não é o que você está dizendo para as pessoas, e sim, como está dizendo.’

Prevalece o vale-tudo

Se as afirmações de Taleb nada mais são que frases de efeito, ingrediente básico de qualquer best seller, fiquemos com os fatos que cercam a imprensa grande dentro e fora da Terra Brasilis.

As ‘manchetes do dia’ são sempre bem ‘empacotadas’. É que, em qualquer lugar do planeta, a informação virou ‘produto’ e como tal precisa ser de fácil vendagem e digestão. Não importa se para isso são sacrificadas honras e vidas alheias, se são usados mecanismos para ‘anestesiar’ o senso critico da população, se se recorre a artifícios como o de inflar pré-conceitos e preconceitos.

Já há algum tempo prevalece o vale-tudo nesse meganegócio da informação. Caso os fatos tenham força própria para mostrar uma face diferente daquela que o editor preferiu jogar os holofotes, o recurso quase invisível da errata está sempre à mão.

A ‘toxicidade da informação’

A superposição das mídias também é outro fato que atordoa profissionais e ‘destinatários da notícia’ mais conscientes e que, numa atitude heróica, tentam emergir dessas águas turvas e pegajosas.

É impressionante como rádios, TVs, portais de notícias, jornais e revistas semanais da mídia grande parecem envolvidos no complô da ‘toxicidade da informação’, pois todos adotam um mesmo padrão de análise sobre os fatos. Paradoxalmente, quanto mais lemos, vemos ou ouvimos a notícia, menos informados estamos. Que jornalismo é este, companheiros?

Nesta era de pensamentos e ações que facilmente ultrapassam os extremos, de possibilidades tecnológicas jamais vistas, de compartilhamento sem fronteiras de olhares e de experiências diversas de vida, jornalistas só conseguem ‘nadar’ na superfície do que acontece no mundo?

Pergunto mais: por que colegas em cargos de comando, que trabalham para a mídia grande, colocam tanto suor nesse movimento de transformar em fósseis aspectos como a missão social de nossa profissão, o espírito crítico que deve estar na base da apuração de uma pauta, o compromisso com a realidade dos fatos?

Pautas ‘costuradas’

A imparcialidade que nos ensinaram na faculdade, que consiste em ouvir os ‘dois lados da questão’, funciona tão-somente num mundo preto-e-branco.

‘Mesmo de uma perspectiva anatômica, é impossível para nosso cérebro ver qualquer coisa de maneira crua e sem alguma interpretação. Podemos nem sempre estar conscientes disso’, acrescenta o provocativo Taleb.

A realidade do século 21 é caleidoscópica e, admitam ou não, os conglomerados da comunicação estão a serviço de projetos políticos determinados. Não por acaso patrocinam o lobby para acabar com o diploma de jornalista. Não por acaso não se fazem mais pautas como antigamente. Pois hoje elas chegam bem ‘costuradas’, com o nome de quem ‘pode’ ser ouvido e o que se espera saia de sua boca. Um jornalista não tem mesmo que se prestar a esse papel.

Coberturas ‘cegas’ ao que manda o velho e ético jornalismo só podem resultar no que vimos recentemente no caso Paula de Oliveira e tantos outros que não vamos enumerar aqui. Em comum, todos revelam a crise, gravíssima, galopante e fora de controle, de que a mídia grande é portadora.

Mais: emissoras de TV e rádio são concessões públicas, mas quem leva isto a sério no Brasil?

Um debate aqui, outro acolá. Os promotores dessas iniciativas são merecedores de elogio, como faz este Observatório da Imprensa, mas ainda são Dom Quixotes lutando contra gigantes.

A banalização da violência

O caso Madeleine, a menina britânica que desapareceu em Portugal em 2007, pode nunca vir a ser desvendado, mas a maneira como a imprensa mundial lidou com essa história está sendo alvo de um importante debate. O pai da garota, Gerry McCann, participou, no dia 11/03, de audiência na comissão do Parlamento inglês que realiza um inquérito sobre os padrões da imprensa, privacidade e difamação no país.

Como um desabafo, McCann afirmou que algumas reportagens publicadas sobre o caso pela mídia britânica traziam informações inventadas pelos jornalistas, como a de que a menina já estaria morta.

‘Embora alguns elementos da cobertura da mídia tenham sido úteis na busca por Madeleine, nossa família certamente foi o foco de uma das mais sensacionalistas, mentirosas, irresponsáveis e prejudiciais [coberturas] da história da imprensa’, disse McCann.

Ele criticou o modo como as empresas pressionaram os jornalistas a escreverem sobre o desaparecimento de sua filha, mesmo quando não havia informação nova. ‘Madeleine foi transformada em commodity e os lucros tinham que ser mantidos’, disse.

Gerry McCann defendeu a existência de algum tipo de controle sobre os jornalistas, pois, segundo ele, ‘os jornais teriam o potencial para arruinar a vida das pessoas’.

O jurista Luiz Flavio Gomes faz um comentário oportuno sobre o comportamento da mídia brasileira e ainda arrisca uma previsão:

‘Com o aumento da violência, pode explodir o `populismo penal´ do legislador. Tudo depende do comportamento da mídia, que retrata a violência como um `produto´ de mercado. A criminalidade (e a persecução penal), assim, não somente possui valor para uso político (e, especialmente, para uso `do´ político), senão que é também objeto de autênticos melodramas cotidianos que são comercializados com textos e ilustrações nos meios de comunicação. São mercadorias da indústria cultural, gerando, para se falar de efeitos já notados, a banalização da violência (e o conseqüente anestesiamento da população, que já não se estarrece com mais nada). Em 2009, podem anotar: tudo o que o Congresso Nacional está esperando é a eclosão de mais um delito midiático.’

Leia aqui a integra do artigo.

O desvirtuamento de uma profissão

Para a crise da mídia, anunciada e globalizada, temos muitas perguntas e poucas respostas. Jornalistas levam a sério demais as coisas que pensam que sabem? Este profissional pode se dar ao luxo de apenas ver as conseqüências óbvias e visíveis dos fatos que apura e não as que são invisíveis ou menos óbvias?

Editores estariam trapaceando o público ao ampliar ou diminuir a importância de fatos ou de certos aspectos desses fatos? Eles teriam consciência de que tais intervenções podem ter resultados explosivos na vida das pessoas? Por que o jornalista sempre tem que oferecer uma ‘razão’ ou ligação nem sempre lógica para os fatos que noticia? É para transmitir a impressão – exatamente isto, apenas a impressão – de que tem conhecimento sobre a causalidade do que narra?

Finalmente, em respeito ao consumidor do ‘produto informação’, cada matéria editada e veiculada teria de anunciar, como em embalagens de certos remédios, os efeitos colaterais próprios da informação jornalística?

Estas são perguntas para todos nós refletirmos com seriedade.

A ‘aura’ que cerca nossa profissão está perdendo rapidamente sua força. Simplificar e reduzir histórias em vez de contá-las. Explicar fatos em vez de compreendê-los. Pode ser que esta seja a face nua e crua do jornalismo contemporâneo. Ou o lado perverso de mais um processo de desvirtuamento de uma profissão que, apesar de limites, ainda tem um papel importante a cumprir nesses tempos tão difíceis.

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Jornalista, há duas décadas faz cobertura da temática ambiental e das editorias de finanças e negócios para diversos veículos como repórter especial; seu blog

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