Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > CRISE POLÍTICA

Que país, este

Por Ivan Berger em 12/05/2015 na edição 850

Salas de aula depredadas, estádios novinhos vandalizados, torcedores se digladiando dentro e fora das praças esportivas, ônibus urbanos incendiados, estátuas e monumentos públicos destruídos e pichados. Subproduto da mentalidade delituosa que permeia nossa sociedade de cima a baixo, a reboque da criminalidade desenfreada e corrupção generalizada que grassam na sociedade, a recorrência das cenas de selvageria que se alastram indiferentemente ao alhar atentos da mídia e dos onipresentes recursos eletrônicos – ou quem sabe, exatamente por conta disso, dado o mórbido narcisismo e voyeurismo que caracteriza a geração high tech –, não são apenas vergonhosas e assustadoras, mas evidências cabais da degradação moral e institucional que campeia no país.

Inevitável não associar esse deprimente estado de coisas ao inepto e corrupto regime petista, e a leis cuja réproba leniência pairam como um convite a delinquência. Forçoso reconhecer que nem a imprensa e muito menos a classe política tem contribuído concretamente para uma mudança de patamar, ambas irmanadas muito mais no sentido de desbancar o PT do poder do que encaminhar e apoiar propostas que possam tirar o país do atoleiro. Algo que ficou explícito na escrachada tentativa do PSDB de sabotar a aprovação de medidas do ajuste fiscal, submetidas ao Congresso na última semana, que constavam de seu próprio programa de governo na campanha eleitoral de Aécio Neves. Ou seja, tudo farinha do mesmo saco.

Com um Estado fragilizado pela iniquidade da classe política e refém de um arcabouço jurídico que favorece a impunidade, não é à toa que a barbárie avance a olhos vistos, a ponto de já não se poder sair tranquilamente as ruas, ir à praia, a um estádio de futebol, sem o risco permanente de ser assaltado, agredido ou morto em plena luz do dia, na frente de todo mundo. Ocorrências em franca expansão por conta do virtual salvo-conduto a criminalidade, e em particular, a adolescentes protegidos pelo anacrônico Estatuto da Criança, cujas ações marcadas pela ousadia e deboche a sociedade não tolera mais, como atestam as pesquisas amplamente favoráveis a diminuição da idade penal.

Dois pesos e duas medidas

Fiel ao compromisso visceral com políticas populistas e práticas deletérias, não surpreende que o governo e a depauperada bancada petista sejam contra a emenda constitucional para a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, sob a tosca alegação de que a medida iria agravar o problema da delinquência juvenil, em função do descalabro do sistema prisional no país. Ao invés de cobrar do governo e dos setores competentes a tão reivindicada e premente reforma do sistema penitenciário, preferem deixar as coisas mal-paradas, ou seja, não fazem nada e não querem que outros façam.

Ora, se não há dúvida de que a redução da idade penal por si só não resolve o problema da criminalidade, pior é deixar como está, ainda mais com o crescente recrutamento de jovens por parte do crime organizado. O ideal, aliás, seria a redução da idade penal para 14 anos, condicionada, é claro, a adequação de unidades específicas para os menores, como já se tem em relação as mulheres. Verbas para isso poderiam advir, por exemplo, dos nada modestos valores recuperados do desmonte dos propinodutos e esquemas fraudulentos que finalmente tem alcançado medidas práticas.

Isto, é claro, se o empenho e a determinação que norteiam as investigações da Operação Lava Jato não passem de um caso isolado, de motivação política ou mérito pessoal do juiz Sérgio Moro e sua equipe. Dúvida que persiste em função do tratamento notoriamente diferenciado em relação aos outros dois casos que apontam para desfalques ainda maiores, ou seja, as bilionárias contas secretas do HSBC e os quase R$ 20 bilhões em autuações a vários pesos-pesados de nossa economia, apagadas dos registros da Receita Federal.

Dois pesos e duas medidas que, como todo mundo sabe, são de praxe na métrica  conservadora da grande imprensa, que por conta disso convive com rótulos desabonadores, como as recorrentes acusações de golpismo e de fazer franca oposição ao regime petista. O que não significa que se deva dar crédito a tradicional cantilena entoada por manjados sabujos governistas, que investem contra a chamada imprensa hegemônica como se coubesse a ela – e não ao caótico governo Dilma -, a responsabilidade pelo descontentamento reinante. Como se fossem indevidas ou injustas as denúncias e críticas aos sucessivos escândalos e desatinos ligados ao petismo, fonte inspiradora por excelência da mentalidade delituosa que justifica nossa triste fama de país de bandidos.

Supressão de consciência

Notável estudioso dos meandros da mente humana, Nietzsche concluiu, a grosso modo, não ser a consciência o que impede o homem de transgredir as leis, e sim o medo de ser apanhado com a boca na botija. Daí, provavelmente, as costumeiras vociferações do ex-presidente Lula contra a imprensa, para quem, obviamente, a mídia vigilante e onipresente de hoje em dia é um grande transtorno. Daí a liturgia capciosa e fraudulenta de setores mais retrógrados que sonham com a bolivarização do chamado marco regulatório da mídia. Por bolivarização, entenda-se, mais poder ao Estado para interferir e restringir o desempenho da imprensa.

Sim, pois embora disfarcem, façam apologia da liberdade de expressão, defenestrar o protagonismo da mídia independente é ponto basilar do ideário petista. Mas por mais que critiquem e esbravejem contra as motivações e interesses iminentemente mercantilistas dos oligopólios que controlam o setor, a mídia chapa branca padece dos mesmos pecados da imprensa formal, pois obviamente não vive de brisa, não é de graça e desinteressadamente que se dispõe a varrer a sujeira para debaixo do tapete. É igualmente remunerada e/ou subvencionada para fazer o chamado trabalho sujo.

Razão pela qual soa cada vez mais inconvincente o dogmatismo canhestro, o sectarismo raivoso, a autoexaltação vaidosa que os fatos desmentem, ou seja, toda aquela manjada falácia sobre a opressão exercida pelas classes privilegiadas. Discurso centrado e concentrado na mesma valoração que inspira a barbárie que se alastra pelo país afora, potencializada pelo fenômeno da supressão de consciência oriundo dessa nefasta racionalização política.

Valores que extrapolaram sob a permissividade do regime petista e seu séquito de parasitas e serviçais, e diante dos quais é obrigatório ter sempre um pé na frente e outro atrás em relação a tudo o fazem e dizem. Como ninguém dá ponto sem nó, ninguém faz nada de graça, não é à toa que pareçam sempre exíguas as chances de entendimento na base das boas intenções. Afinal, tudo gira em torno de interesses pessoais e conchavos, daí o protagonismo e a longevidade de raposas velhas que pontificam no meio político não obstante reputações pra lá de duvidosas. O que explica o isolamento e a virtual terceirização do segundo mandato de Dilma, que com o PT transformado numa espécie de zumbi no meio político, se vê literalmente nas mãos dos notórios presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, do ex-aliado PMDB. Menos mal que chegam não apenas para agitar e azucrinar ainda mais a vida da presidente, mas destravando uma pauta obstruída há anos pelo governo petista e seus aliados.

Fiel da balança

A redução da idade penal, a nova lei da terceirização, e, sim, a PEC da Bengala, que com a ampliação da aposentadoria compulsório dos juízes de 70 para 75 anos, retira de Dilma o poder de indicar, de uma cambulhada cinco novos ministros do STF, são pontos positivos que sugerem um papel de inesperado fiel da balança do PMDB. Se para bem ou mal, só o tempo dirá.

De qualquer forma, não deixa de ser curioso ver a imprensa mais confusa do que nunca, dividida entre aplaudir ou enjeitar as “pirraças” da dupla que dá as cartas no Congresso, feliz por ver o PT sangrar mas desacorçoada com o papel subalterno do PSDB nesse processo de transição. Que ficou ainda pior na foto com a absurda inabilidade com que o governador paranaense Beto Richa lidou com a greve dos professores, que culminou com o massacre aos manifestantes promovido pela Polícia Militar do Paraná.

Como dizia Tom Jobim, o Brasil não é para amadores. É um país complexo, bizarro, em que não só as prostitutas gozam como políticos na lista negra da corrupção posam de salvadores da pátria; em que a fina flor da picaretagem se propõe a sabatinar a mais alta corte de justiça do país, e finórios vigaristas se sentem injustiçados, a ponto de apelar para o famoso “que país é esse ?!”, consagrado há décadas atrás na música-protesto de Renato Russo. Como fez descaradamente outro Renato, o Duque, um dos operadores gatunos do Petrolão, em conversa grampeada com seu advogado, pouco antes de ser preso pela PF.

Pois é. Que país, este.

***

Ivan Berger é jornalista

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