Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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Quem está a falar?

Por Fernando Schweitzer em 02/12/2008 na edição 514

Ao assistir à sabatina da Folha de S.Paulo, em 28/11/1980, com o escritor lusitano José Saramago, tive algumas satisfações pessoais em meu âmago. É interessante ver que vários posicionamentos que tenho e pelos quais sou sistematicamente criticado no meu dia-a-dia, sendo coincidentes ao pensador português, são para mim um conforto incólume. O fato de ter alguém de indubitável capacidade e reconhecido discernimento sobre a vida concordando com você é algo que alivia a dor de viver em um país em que, para se ser valorizado, tem-se de ser podre e imbecil, quando não as duas coisas. Se fores decente, serás no mínimo ridicularizado, senão perseguido por este ato radical e incoerente nos dias atuais.

Certas falas que já cometi, semanticamente senão exatamente, em público e de veras já fui rechaçado por, me chamaram a atenção:

‘O mundo está totalmente errado e eu faria e faço de tudo para modificá-lo.’ ‘Após a inquisição, como você continua a crer no cristianismo?’ – se auto-citando quando fora perguntado, em uma entrevista anterior, do porquê nos dias de hoje ainda ser comunista.

‘Como tenho em uma parte do corpo um hormônio que me faz crescer a barba, há um hormônio que me obriga, mesmo que eu não quisesse, por uma espécie de fatalidade de lógica, a ser comunista’ – quando questionado e ao explicar por que seria um ‘comunista hormonal’.

Para chegar a essa conclusão óbvia que a atualidade impõe que Marx nunca teve tanta razão como agora.

Ser sincero e estar sincero

Onde poderia eu querer chegar com essa minha colocação inicial, citando estas frases posteriormente? Simples. Essas frases fortes perante uma sociedade irracional proferidas por qualquer um pareceriam uma retórica bulcefálica de um revoltado fracassado perante as maravilhosas possibilidades do mundo atual. Mas ao ser dita por Saramago levava a risos de concordância e aplausos de pé da platéia da sabatina.

O Nobel de Literatura falou sobre como teve a idéia para escrever Ensaio sobre a Cegueira. Que surgiu quando comia em um restaurante. Ao se perguntar ‘E se todos nós estivéssemos cegos?’, ele mesmo respondeu: ‘Mas nós estamos todos cegos.’ Esta cegueira, creio eu que está ligada diretamente ao mote atual do status versus qualidade.

Neste, como em outros momentos, a sinceridade cavalar de Saramago seria ponto de retaliação, caso dito por outra pessoa que não ele:

‘Por que precisamos de Deus? Nós o vimos? A Bíblia demorou 2000 anos para ser escrita e foi redigida por homens’, disse o escritor. Para ele, a Bíblia é um ‘desastre’, cheia de ‘maus conselhos, como incestos, matanças’.

Ele ainda voltou a criticar a Igreja, afirmando que ela inventou o pecado para controlar o corpo humano. ‘O sonho da Igreja é transformar todos em eunucos, quer dizer, os homens, porque as mulheres não podem ser eunucas.’

Muitas pessoas crêem que deva existir um momento dado e específico para cada tema, nisso até compactuo. Mas que, independente disso, se confundem nesta argumentação pessoas que dizem que existem momentos específicos para se ser sincero. Pois será que existe diferença entre ser sincero e estar sincero? Com certeza!

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Ator, diretor teatral, cantor, escritor e jornalista, Florianópolis, SC

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