Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > ELEIÇÕES 2010

Quem precisa de um marqueteiro?

Por Gil Castillo em 30/03/2010 na edição 583

Esta semana vários jornais publicaram as declarações dos coordenadores da campanha da senadora Marina Silva de que ela não terá um marqueteiro porque querem apresentar a candidata como ela é, sem mudar seu visual, ou sem ‘pirotecnia’, por exemplo. E daí, senti-me na obrigação de escrever algumas palavras. Vamos lá:

O marketing político tem sido a grande ‘Geni’ nacional: sinônimo para definir jogadas escusas, fabricação de candidatos enlatados e artifícios pouco louváveis de manipulação do eleitor. Mas, será esta uma arma tão poderosa, usada contra um eleitor tão frágil, que sucumbe passivamente à sua força? Bem, nem uma coisa, nem outra: nem o marketing político pode tudo, nem o povo é isento de percepção e capacidade de decisão. Muito pelo contrário: assim como em qualquer segmento do marketing, ele fundamenta-se no estudo dos movimentos do mercado. E no caso do marketing eleitoral, esse mercado a ser estudado é, obviamente, o eleitorado.

É com base numa extensa análise dos anseios, das tendências, das necessidades desse mercado, que um candidato deverá ser apresentado. Lembrando que o candidato não é um produto racionalmente desenvolvido, mas uma pessoa, com passado, história, ações e personalidade que não podem ser fabricados. E cujos atributos, que devem ser respeitados, podem ou não estar em sintonia com o que o eleitor espera, dependendo de uma infinidade de variáveis.

Um verdadeiro exército de Brancaleone

Nesse mar de estigmas é que entra em cena o famoso personagem chamado marqueteiro, ora visto como um mago onipotente, ora como um oportunista que aparece apenas nas eleições. Mais uma vez, aqui, cabem algumas explicações, a começar pela própria palavra marqueteiro.

O profissional de marketing é denominado consultor político. Se atua na área política, esse especialista também pode ser chamado de consultor político. marqueteiro é um termo pejorativo. Surgiu como referência aos aventureiros que se lançavam, sem muito conhecimento de causa, pelas vastas águas do marketing. Aos poucos, esse termo foi associando-se exclusivamente a quem ‘mexe com política’. Não é difícil entender o porquê e nem condenar essa confusão, afinal realmente, em épocas de eleição, aparece uma horda de pseudo-especialistas, que imaginam ter encontrado o Eldorado nas campanhas eleitorais. Junte-se a isso, o fato de que a classe política é um dos segmentos sociais com menor credibilidade e está feita a confusão.

O marquetólogo ou o consultor político, como queiram chamar, é um profissional altamente especializado e qualificado que vai aplicar a ciência Marketing a serviço da política. Sua atuação não se restringe à época eleitoral, mas neste período, especificamente, domina e aplica as técnicas do Marketing Eleitoral. Precisa ter o conhecimento global das várias áreas que compreendem essa empreitada e que vão desde as pesquisas, até a comunicação.

Não é ele quem manda no candidato, não é ele quem aparece mais que o candidato, mas é ele quem orquestra todas essas frentes, orientando a campanha como um todo e sua expertise é fundamental para atuar à frente de um verdadeiro exército de Brancaleone, formado por pesquisadores, publicitários, jornalistas, profissionais de rádio e TV etc. etc.

Exercício sério e ético da profissão

Ninguém critica o papel de um maestro, nem de um treinador de futebol, por exemplo, pois é consenso que, apesar dos talentos individuais, é necessário alguém que unifique e estabeleça um caminho único, respeitando os atributos já existentes, se me permitem fazer essa comparação. Ou ainda, se preferirem: ninguém enfrenta um júri, sem a orientação de um advogado, ninguém submete-se a uma cirurgia sem a orientação de um médico, assim como ninguém enfrenta outro exército sem as estratégias de um general, para utilizar uma analogia bélica.

É preciso entender que, quanto mais conseguirmos desmistificar a imagem equivocada que tem o marketing político e seus profissionais, mais ganharemos em transparência em nosso constante exercício de democracia. É um equivoco também acreditar que a figura do consultor político é uma coisa do Brasil. Estados democráticos no mundo todo vêem nesses profissionais importantes contribuições. Ditaduras não combinam com o marketing político.

No Brasil, há 20 anos, a Abcop-Associação Brasileira de Consultores Políticos ocupa o papel de defender o exercício sério e ético dessa profissão, nos mesmos moldes de outros importantes representantes de classe no mundo todo, como a Alacop-Associação Latinoamericana, a AAPC-Associação Americana, a EAPC-Associação Européia, e a IAPC-Associação Internacional de Consultores Políticos.

Ao final dessa reflexão, pelo menos num ponto preciso concordar com a coordenação da campanha da senadora Marina Silva: eles não precisam de um marqueteiro. Mas precisam, urgentemente, de um consultor político.

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Consultora política, diretora de Relações Públicas da Abcop – Associação Brasileira de Consultores Políticos e editora do blog MarketingPolitico.com.

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