Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > LINGUÍSTICA

Quem tem medo do latim?

Por Luiz Guilherme Melo em 29/03/2011 na edição 635

Ao contrário do que muitos pensam, o latim não está morto, não. Se morreu mesmo, esqueceram de enterrar. É só observar quantas expressões são usadas no Direito (habeas corpus é só uma delas), na ciência ou até mesmo no nosso dia-a-dia – a maioria já deve ter mandado seu curriculum vitae para concorrer a uma vaga de emprego. Em alguns cursos de Letras, há uma disciplina chamada ‘Latim Clássico’. Inclusive, de vez em quando discute-se a sua retirada da grade curricular. Contudo, debater esse tema não é o objetivo principal desse texto. Meu objetivo é citar, mesmo que por cima, os benefícios de se estudar a língua latina.

Primeiro, estudar o latim clássico nos ajuda a ver claramente como essa língua ainda é tão presente em nossas vidas. Segundo, fornece-nos explicações para fenômenos da nossa língua – isso é deveras importante para um acadêmico de Letras; afinal, a língua latina é a língua-mãe das línguas ocidentais, entre elas o nosso português. Terceiro, o estudo do latim também amplia nossa visão de mundo, pois há uma vasta literatura deixada pelo universo romano, não só do campo da arte, mas também de outras áreas do conhecimento, como a filosofia e a antropologia. Apesar de haver traduções desses textos, ao compreendermos a língua latina, ou quando lemos e traduzimos por conta própria, desfrutamos muito mais dessas obras.

Mas não quero aqui fazer uma propaganda da língua latina. No fundo, só quero reparar essa injustiça de dizerem por aí que o latim está morto, ou pior, que estudar latim não serve para nada, frase muitas vezes dita pelos próprios estudantes de Letras. Estudar a língua latina é útil, sim, e pode ajudar e muito um professor em sala de aula. Por exemplo, um professor de português, durante uma aula de morfologia, é indagado por um aluno esperto: ‘Professor, por que se escreve `sapiência´ e não `sabiência´, já que a palavra é derivada de `sabedoria´ e o radical no português, portanto, é `sab´?’ Será um crime contra o desenvolvimento discente se o professor responder com um ‘porque é assim’.

Não é perda de tempo

Se esse professor tivesse prestado mais atenção nas aulas de latim na faculdade (se é que a universidade onde ele estudou ofereceu tal disciplina) ou se ele parasse de falar que latim era uma disciplina inútil já que não estava estudando para rezar missas (argumento preferido dos que odeiam essa disciplina), ele saberia dar uma resposta decente. Agora, se o aluno esperto dirigisse essa dúvida a um professor que desse o devido valor ao latim, responderia que a explicação para a dúvida dele se encontrava no latim. Olha só: o radical de ‘sapiência’ vem da palavra latina sapientia, que significa ‘sabedoria’ – olha o radical ‘sap’ de ‘sapiência’ aí.

Muitas palavras da língua portuguesa cujos radicais vêm do latim podem ser explicadas seguindo esse mesmo esquema. Como a palavra ‘maternidade’, que só não é escrita ‘mãeternidade’ porque o radical vem da palavra latina mater, que significa ‘mãe’ – olha só de onde vem o radical mater que forma a palavra ‘maternidade’.

É, distinto leitor, estudar latim definitivamente não é uma perda de tempo; é bastante trabalhoso, sim, mas vale muito a pena aos que levam essa disciplina a sério.

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Jornalista e acadêmico de Letras – Língua e Literatura Portuguesa da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) Manaus, AM

Todos os comentários

  1. Comentou em 31/03/2011 Roberto Ribeiro

    O pior não são os alunos, são os colegas de magistério. Muitas vezes eles mesmo dizem aos alunos que as aulas de latim poderiam dar lugar a mais aulas de linguística, literatura, ou o que seja.

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