Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Quem conta um conto… não faz a lição de casa

Por Celio Levyman em 25/03/2008 na edição 478

Pode ser redundância vez por outra retornar ao assunto básico, mas creio que é melhor contribuir de modo positivo que criticar como rebelde, com ou sem causa. Para variar, como uma simples nota de um site médico vai parar em um jornal, daí para as agências de notícias e se espalha pela mídia – sem verificação de autenticidade, as tais das evidências.

Resumo da opereta: na quarta-feira (19/3), o jornal The Independent publicou em sua versão online a seguinte manchete: ‘Música de Mozart ajuda a curar doentes graves, dizem pesquisadores’ (ver aqui). Ora, estamos falando de importante órgão de imprensa do Reino Unido – quem não prestaria atenção a tal assunto? Logo, várias agências de notícias reproduziram o mesmo, em geral encurtado.

Ora, ouvir música, e de Mozart, pode curar doentes graves? E gastando-se tanto com tecnologia e medicamentos! Só pode ser boa notícia. Só que as coisas não são bem assim…

O Independent deu que um paciente de 46 anos, portador de epilepsia de difícil controle, subitamente passou a ter controle das crises. Investigando o fenômeno, descobriu-se que nos 45 dias prévios à melhora o referido doente havia passado a escutar Mozart por pouco menos de uma hora ao dia.

Cinco minutos de pesquisa

E mais, segundo o jornal: a música de Mozart também agiria sobre a inteligência, aumentando a capacidade matemática e visual, melhorando dores crônicas, além de melhorar (sic) o cérebro de bebês. Também cita que em testes com ratos e carpas houve melhora no senso de orientação e humor, especialmente com uma obra em especial do mestre de Salzburgo, Eine Kleine Nachtmusik. Já a sonata K 448 para dois pianos aumentou em até oito pontos o QI de voluntários humanos.

Pois então, aí vem; o repórter da matéria, Roger Dobson, contentou-se com isso? Não achou extraordinário apenas agora poderem ter verificado tal coisa? Nada mais fez além de entrevistar um pesquisador (sic), John Hughes, da Universidade de Illinois, e citar o paciente inicial como sendo do Instituto de Neurologia de Londres. E mandou bala.

Ao ler aquilo, fiz algo muito simples, certamente mais ainda para qualquer jornalista, especialmente com a internet. Primeiro, fui ler o artigo na íntegra no site do Independent. Daí, fui para os sites do Instituto de Neurologia de Londres e depois para a Universidade de Illinois. Em menos de cinco minutos, já tinha mais elementos que os publicados, que me motivaram a escrever o presente texto.

Lendo e aprendendo

Quanto ao Instituto de Neurologia de Londres, localizado na Queens Square, é conhecido dentre os neurologistas com o nome da rua mesmo. Já foi um dos mais importantes centros mundiais de pesquisa, diagnóstico, tratamento e ensino da especialidade; está um pouco fora da moda nos dias de hoje, mas mantém um padrão de qualidade. E o que aparece no site? Algum trabalho publicado em revista científica? Notícia prévia de alguma grande novidade? Não, nada disso: apenas o relato dessa aparente coincidência da melhora do paciente com o início de suas sessões diárias de Mozart, em um pequeno link que, curiosamente, remete à notícia do Independent! Inversão meio amalucada, pois não deu para saber quem veio primeiro, o ovo ou a galinha… Seja como for, aprofundando-se no site do instituto, deu para descobrir que o dito paciente, após ser atendido pelos clínicos, estava sendo estudado pelo Setor de Epilepsia Experimental, chefiado pelo professor D. Khullmann, autoridade inconteste na área. E só.

Quanto à Universidade de Illinois, curiosamente, pesquisando em seus três campi norte-americanos, o tal do Hughes não aparece nem no corpo docente, nem entre alunos, fellows, ex-alunos ou assemelhados na pesquisa geral em seu mecanismo de buscas por nomes. Entrando na Faculdade de Medicina, não o encontrei no Departamento de Neurologia nem em qualquer outro. Procurei refinar a pesquisa no Departamento de Psicologia e também nada: curiosamente, descobri que a Faculdade de Psicologia da dita universidade não fica no Departamento de Ciências da Saúde ou equivalente, mas no Departamento de Artes Liberais! Lendo e aprendendo…

A ‘casa’ da medicina

A única coisa semelhante na Universidade de Illinois é a referência ao Instituto Howard Hughes de Pesquisa, não tendo nada a ver com o assunto – o falecido bilionário aviador, cineasta, envolvido com indústria da defesa e possivelmente portador de distúrbios psiquiátricos graves ao final da vida, obviamente não poderia ter nada a ver com isso.

Voltando: a história de que a música de Mozart melhoraria a capacidade intelectual de bebês já é velha e formalmente desmentida por pesquisas sérias desde o ano retrasado. Certamente isso deixou muitos fabricantes de equipamentos de som para crianças pequenas e a indústria fonográfica descontentes. E por que só Mozart? Alegações de que suas composições teriam uma estrutura especial para estimular determinadas áreas cerebrais, não encontráveis em outros compositores, são puramente opinativas e não corroboradas por um único estudo minimamente sério sequer.

Mas eis que Mozart volta como manchete: será que o jornalista Dobson nunca ouviu falar nessa história já antiga de ouvir Mozart na infância e melhorar a capacidade intelectual? É estranho, mas significativo. Assim como não encontrar o tal do Hughes, que dá declarações entre aspas ao Independent, nem como zelador ou bedel da Universidade de Illinois.

É de novo a velha história: fazer o dever de casa, no caso em poucos minutos, como eu mesmo fiz, para checar as informações de algo tão chamativo. Ou má-fé, já que não encontrei o Hughes. E, certamente, sem levar em conta ou mesmo saber daquilo a que volta e meia me refiro, à medicina baseada em evidências, útil não só para profissionais de saúde, mas para a sociedade e jornalistas em especial, pois não precisam se basear em supostas fontes famosas ou ligadas a universidades ou instituições de grife, e sim, no mais próximo da verdade científica que se pode ter nos dias de hoje na área biomédica. E basta entrar no site do Centro Cochrane Internacional, a ‘casa’ da medicina baseada em evidências, por sinal baseado lá mesmo na ilha bretã…

O link que virou notícia

E ninguém achou estranho, ao menos, duas composição de Wolfgang Amadeus levar a esse scoop? Tampouco a história da melhora de humor das carpas? A propósito, qual a metodologia para se aferir esse tipo de coisa em peixes ou roedores?

Eu gosto, e muito, de ouvir Mozart. Certamente me dá prazer, me acalma e melhora meu humor. Pode até reduzir o estresse, mas a relação entre fatores emocionais e desencadeamento de crises convulsivas é dúbia até hoje, principalmente em pacientes de difícil controle. Gosto e ouço Mozart (e muitos outros compositores e estilos de música) há muitos anos, mas além do prazer lúdico e talvez intelectual (desculpem se parece esnobe), nunca sua música me fez ficar mais sábio, melhor em matemática e outras funções cognitivas. Ah,alguém pode dizer, mas isso poderia ser só no meu caso. Mas a matéria também não trata de apenas um caso? Daí o retorno à medicina baseada em evidências…

Concluindo: jornalistas responsáveis devem checar suas matérias. Em não o fazendo, um singelo link do Queens Square virou notícia em todo o mundo. Realmente, quem conta um conto, aumenta bem mais que um ponto!

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Médico, mestre em Neurologia pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo

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