Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA MUSICAL

Quinze anos do grunge

Por Alexandre Figueiredo em 23/01/2006 na edição 365

Na década de 90, que encerrou o século 20, um cenário musical se tornou mais popular entre os jovens contemporâneos. O rock de Seattle, do noroeste dos EUA, que gerou até mártires como Kurt Cobain, figura tão controversa até hoje, mesmo depois de sua morte, está em evidência na grande mídia, pelo menos nas programações das rádios do mundo inteiro.

O rock de Seattle se tornou, praticamente, um fenômeno de imprensa. Foi a imprensa musical que deu impulso à projeção do fenômeno, mas também foi ela que, depois, na empolgação de ver o estilo alcançando as paradas de sucesso, pecou na superestimação do fenômeno que deu margem a mitificações e equívocos, além de sua pressão ter sido prejudicial a ponto de influenciar, mesmo diretamente, nas mortes de Cobain e Layne Staley, respectivos vocalistas do Nirvana e Alice In Chains.

Projeção brasileira

O que se convencionou chamar de grunge começou a se tornar mundialmente conhecido quando o jornalista inglês Everett True, do semanário britânico Melody Maker (extinto antes do alvorecer do século 21), no fim do ano de 1990, realizou uma reportagem sobre o cenário de bandas de Seattle.

Sobre Seattle, vale lembrar que é capital do estado de Washington (não confundir com Washington DC, localizada no Distrito de Columbia, o Distrito Federal dos EUA). O músico mais famoso nascido em Seattle foi o genial guitarrista Jimi Hendrix, músico que, em sua breve trajetória nos anos 60, revolucionou a maneira de tocar guitarra, além de ter gravado pouco mais de cinco LPs e uma grande quantidade de canções postumamente lançadas ao longo de seus 35 anos de ausência.

Sobre Everett True, vale citar uma curiosidade. Durante parte da primeira metade da década de 90, o jornalista divulgou várias bandas de rock brasileiro que gravavam repertório em inglês, do Sepultura ao grupo baiano Brincando de Deus (cujo líder, o jornalista Messias Bandeira, é coordenador de curso de faculdade em Salvador). True chegou a comentar que uma banda carioca, Second Come (surgida a partir da dissolução de um grupo dos anos 80, Eterno Grito), era musicalmente melhor do que o conjunto escocês Jesus & Mary Chain, um dos ícones do noise rock britânico. O noise rock foi iniciado por bandas como Sonic Youth e Hüsker Dü nos anos 80, e seu som é praticamente um cruzamento de Stooges com Velvet Underground. O noise foi popularizado no mundo, inclusive no Brasil, pelo conjunto Pixies. Os raros exemplares da Melody Maker impediram que boa parte do público soubesse dessa projeção das bandas brasileiras, o que prejudicou a popularidade de várias delas (com a óbvia exceção do Sepultura, já bastante popular no exterior).

Embrião de bandas

O grunge teve origem nos anos 80, não com essa denominação. O termo, portanto, veio em 1990, batizado pelos seus próprios divulgadores, os jornalistas Bruce Pavitt e Jonathan Poneman, responsáveis por um selo fonográfico, a Sub Pop Records, criada para contratar as bandas locais. Segundo eles, a idéia de batizar a cena rock de Seattle teria de vir deles, que não concordavam com rotulações, mas julgaram necessário dar um nome à cena antes que pessoas menos especializadas o fizessem.

Em 1982, duas bandas principais aqueciam o cenário musical de Seattle. Uma se chamava Screaming Trees, que existiu até o auge do grunge. Outra, o Green River, teve seu nome inspirado no local de atuação criminosa de um perigoso maníaco norte-americano (que hoje cumpre prisão perpétua) que vitimou várias mulheres.

O Green River foi o embrião para duas bandas surgidas após sua dissolução: Mudhoney e Mother Love Bone, surgidas no fim dos anos 80. O Mudhoney segue a linha barulhenta do noise rock, e está ativo até hoje. O Mother Love Bone, todavia, durou muito pouco, terminando tragicamente em março de 1990, quando o vocalista Andrew Wood foi encontrado morto por overdose de drogas. O grupo nem havia lançado seu primeiro LP, lançado postumamente.

Nunca inovador

No entanto, a tragédia acabou abrindo caminho para o surgimento de uma das bandas mais populares de Seattle, ativa até hoje, o Pearl Jam. Os remanescentes do Mother Love Bone estavam procurando um novo vocalista, quando encontraram um jovem surfista que tocava violão e cantava em voz grave, Eddie Vedder. Ele se entrosou com os outros músicos e o nome da nova banda, conta-se, era inspirado na geléia que a avó de um deles, chamada Pearl, preparava para os rapazes.

Com o tempo, vieram outras bandas, como Soundgarden, Alice In Chains e o mais famoso dos grupos, Nirvana. Essas bandas – com exceção do Soundgarden, surgido ainda na metade dos anos 80 e na segunda gravando seus primeiros discos – apareceram no fim dos anos 80 e na virada dessa década com a seguinte, começaram a gravar seus primeiros discos.

Ao contrário do que a imprensa musical do mundo inteiro geralmente diz, o grunge nunca foi um movimento musical inovador. Musicalmente, ele não apresenta novidades. O cenário do rock de Seattle na verdade é influenciado ainda pelo rock dos anos 70, entre Deep Purple, Neil Young & Crazy Horse e Thin Lizzy. O Nirvana era diferente dos demais porque assimilava o punk rock e o noise, sobretudo os Pixies, banda na qual Kurt Cobain se inspirou para compor o maior sucesso de seu grupo, Smells like teen spirit, que chegou a ter uma paródia feita pelo comediante norte-americano Weird Al Yankovic (o mesmo que parodiou o Beat It do Michael Jackson).

O mito da ‘atitude’

A badalação em torno do rock de Seattle se deu quando o Nirvana tirou o astro Michael Jackson no topo das paradas de sucesso. Para a imprensa musical, foi a forma dos críticos sentirem a esperança de verem suas bandas favoritas fazerem estrondoso sucesso. Mas a coisa não se mostrou tão positiva quanto se pensava. O underground não derrubou as paradas de sucesso. Pelo contrário, foi o hit-parade que acabou engolindo algumas definições associadas ao rock de garagem, iludindo a própria crítica.

Naquele ano de 1991, houve então o estouro do rock pesado nas paradas de sucesso. Até então, tendências como o hard rock de Van Halen e similares e o funk metal de grupos como Faith No More entraram nos listões das paradas. E o rock pesado criou sua própria facção comercial, o poser-metal, representado sobretudo por Bon Jovi, Guns N´Roses, Poison e Mötley Crüe, considerado cafona pelo público de heavy metal.

A própria imprensa acabou difundindo os clichês da cultura indie com a supervalorização do rock de Seattle. De repente, muitos críticos passaram a pensar que rock de qualidade teria que ser necessariamente barulhento, não precisando ter criatividade. Criava-se o mito da ‘atitude’, na prática como uma compensação para a falta de criatividade. Tudo que era barulhento era generalizadamente classificado como ‘genial’, quando boa parte dela era apenas um heavy rock que variava do mediano ao medíocre e ao simplesmente ruim.

Barulho pelo barulho

O cenário de rock de Seattle, superestimado pela imprensa musical do mundo inteiro, deu margem a vários equívocos e, em parte, criou no universo hit-parade simulacros de cultura indie dentro da grande mídia. Revistas de grande porte passaram a usar uma linguagem coloquial e debochada de vários zines. Rádios comerciais mudavam seu vitrolão para o rock barulhento, e no Brasil houve várias FMs popularescas ou de dance music que, sem mudar essencialmente sua equipe, passaram a ser rotuladas de ‘rádios rock’ apenas pelo cardápio musical. Situações cômicas como os mesmos locutores que na véspera elogiavam Wando e Fábio Jr. e passaram a bajular os Ramones aconteceram. Também houve outro caso, constrangedor, de selos ‘independentes’ que na verdade eram subsidiárias das grandes gravadoras. O pior, aqui, é que boa parte da crítica musical, por boa-fé, acreditou na ‘independência’ destes selos, só porque seu diretor era geralmente um crítico ou um produtor musical que aparecia dando entrevistas sem usar terno e gravata.

Para completar, muitas bandas passaram a fazer rock de garagem, mesmo soando um tanto forçadas. O RPM tentou soar como um Pearl Jam brasileiro, enquanto os Titãs tentaram soar como Mudhoney. Grupos novos como Okotô, Killing Chainsaw e Pin Ups também encararam a tendência, soando entre Nirvana e Sonic Youth.

A superestimação do rock barulhento acabou deixando para trás o cenário de rock britânico do início dos anos 90, alheio ao indie dance contemporâneo naquele país. Bandas como Ride, Wedding Present, House Of Love, Wonder Stuff e Catherine Wheel eram bem mais criativas e melodiosas do que o rock norte-americano ‘guiado’ por Seattle. Mas a obsessão da mídia musical pelo rock barulhento não só não reconheceu tais talentos – que só raramente são lembrados pela imprensa fora do Reino Unido – como a mídia preferiu cultuar o barulho pelo barulho, gerando uma estereotipação. De repente o ‘máximo’ no culto ao grunge era a postura niilista, as letras escatológicas, o som brutal, a falta de melodia (quando muito, vocalistas de timbres diferentes cantando juntos diante de uma ‘muralha’ de guitarras) e um certo ar de desprezo.

Ramificações criativas

A situação complicou quando Kurt Cobain viveu seus últimos meses de vida, já no segundo semestre de 1993. Acabou com o Nirvana depois do lançamento de In Bloom (o que fez com que o baterista Dave Grohl passasse a ser guitarrista, montando outra banda, a excelente Foo Fighters). Teve problemas de relacionamento com a mulher, Courtney Love, então cantora/guitarrista do Hole, com quem gerou uma filha, Frances Bean. Em março de 1994, Kurt fez sua primeira tentativa de suicídio, com uma overdose de comprimidos. Em abril, ele foi encontrado morto, baleado na cabeça.

A decadência do grunge provocou um colapso no rock mainstream. A ele seguiram tendências sem muita criatividade, como o folk rock monocórdico e com elementos grunge de Matchbox 20, Semisonic, Fastball, Dishwalla e outros. Depois, numa tentativa de reverter o baixo astral, veio o poppy punk de grupos como Green Day (que depois passou a se aproximar do punk original) e Offspring. E vieram bandas ecléticas como Smash Mouth e Sugar Ray, misturando, sem muita criatividade, poppy punk, soul music e até ritmos caribenhos. No raiar do século 21, o grunge já via crescer seu subproduto, com elementos também herdados da fase comercial (e anti-Napster) do Metallica: o nu-metal (‘nu’ é corruptela, bem ao estilo gangsta rap, de ‘new’), que mistura uma forma comercial e acessível de thrash metal com gangsta rap, por sua vez uma forma recente de hip hop, bastante popular atualmente.

Só mais recentemente, quando o revival dos anos 80 – que tinha um cenário de música alternativa riquíssimo, em vários de seus estilos – fez relembrar o variado período do ‘style wars’ (guerra de estilos), com as várias ramificações criativas do pós-punk. E aí vieram bandas como Strokes, Franz Ferdinand, The Donnas, Kaiser Chiefs e Bloc Party, mostrando que a barulheira não está acima da criatividade.

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Jornalista

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