Quinta-feira, 24 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > SENSACIONALISMO

Raio pode partir um Boeing em pedaços?

Por José Albino em 24/08/2010 na edição 604

A pergunta ‘raio derruba avião?’ para muitos foi respondida quando esta possibilidade surgiu entre as diversas hipóteses para o acidente aéreo com o Airbus da Air France, voo AF 447, que caiu no Oceano Atlântico há pouco mais de um ano. Muitos atribuíram a um possível raio a causa da queda do avião. Pode ser que sim, pode ser que não. Mas um raio pode partir um avião, confeccionado de espessas chapas metálicas resistentes, em pedaços?

No site do UOL, publicou-se a manchete, com foto, do acidente aéreo na Colômbia, ocorrido na segunda-feira, 16 de agosto de 2010: ‘Raio parte Boeing em três e mata um; Brasileiros estão bem.’

Estarrecido com a notícia, procurei outros sites para me certificar do que havia ocorrido. Procurei então o G1, onde li sobre o ocorrido, também com foto: ‘Avião se parte durante pouso no Caribe e três brasileiros sobrevivem.’

Ainda à procura de maiores informações e perplexo diante da notícia no UOL de que um raio teria partido o avião em três, fui a outros sites, como o do Estadão, onde encontrei, também ilustrada com foto, a manchete: ‘Avião cai após tempestade na Colômbia. Acidente deixou um morto e mais de cem feridos.’

A estas alturas, a notícia de que um raio havia partido o avião em três começou a ficar mais duvidosa do que já o seria pelo senso comum. Teria o UOL se tornado uma versão eletrônica do antigo Notícias Populares, onde a notícia não é devidamente averiguada antes de ser publicada?

Manchete mais cuidadosa

Bom, continuei então a pesquisa da notícia em outros sites, para ver a versão dada ao ocorrido. Comecei pelo Terra, já antigo conhecido meu de notícias sensacionalistas. Ali encontrei a manchete: ‘Brasileiros escapam ilesos de avião partido por raio.’ E na foto do avião, havia embaixo a legenda: ‘Colômbia. Polícia: Quatro brasileiros estariam em avião partido por raio’. De novo, de acordo com o Terra, o raio voltava à cena como protagonista da ruptura do avião.

Continuando, fui visitar outro site sensacionalista, o IG. Lá encontrei a manchete: ‘Avião que se partiu levava três brasileiros. Acidente com Boeing 737-700 ocorreu na Colômbia, durante pouso. Ao menos 115 das 127 pessoas a bordo ficaram feridas. Uma mulher morreu após sofrer infarto.’ Ainda na legenda da foto publicada, lia-se: ‘Boeing 737 é atingido por raio e se parte’. Quase que o IG saiu ileso de atribuir ao raio a causa do avião ter se partido em três. Quase. Ficou no quase.

Decidi então checar os sites de notícias estrangeiros, já que as notícias nos sites brasileiros deixavam em dúvida o leitor que quisesse saber das causas do acidente baseando-se somente nas manchetes.

Fui então visitar o New York Times, onde encontrei a manchete com foto: ‘Crash landing in Colombia kills one – ou seja – Choque em pouso na Colômbia mata uma pessoa’. OK, menos mal, manchete mais cuidadosa. Ainda abaixo da manchete um texto dizia: ‘Um Boeing 737 com 131 passageiros a bordo chocou-se e se quebrou em três pedaços durante pouso em ilha de Resort, na Colômbia, segunda-feira pela manhã’, já traduzido. Não há menção ao raio como causador da ruptura do avião em três.

Esperemos respostas dos especialistas

Visitei o jornal Le Figaro, francês, onde encontrei a manchete: ‘Avião choca-se na Colômbia’. Na legenda da foto, um texto dizia: ‘O Boeing 737 de uma empresa colombiana chocou-se na tentativa de pouso após ser atingido por um raio’.

Consultando o Corriere della Sera, italiano, li: ‘Avião colombiano choca-se na aterrissagem. Um morto e seis feridos graves’. Na legenda: ‘O Boeing 737 com 131 passageiros se parte em três ao aterrissar na ilha de San Andrés’. Nenhuma menção ao raio.

Ah, tem mais sensacionalismo na América do Sul, não é exclusividade da imprensa brasileira. No El Clarín, Argentina: ‘Um raio partiu avião na Colômbia. Um morto e mais de cem feridos’. Já que tem sensacionalismo na América do Sul, porque não checar o Notícias Populares americano, o tal USA Today? Ah, batata! Manchete do USA Today: ‘Raio parte avião colombiano’.

Ficou então a pergunta: um raio pode partir um avião em três? É possível ao editor-chefe autorizar a manchete atribuindo ao raio o fato do avião encontrar-se em três pedaços sem que se pense se isto é ou não factível?

Teria sido o Grand Canyon obra de um grande raio? Teria a Pangéia se repartido após um estrondoso raio? Estamos correndo risco de termos nossas casas repartidas em duas ou três por ação de um raio? Corremos algum risco de viajar de avião e este ser atingido por um raio e se partir em dois, três ou mais pedaços?

Esperemos as respostas dos especialistas em acidentes aéreos. Para quem contestar as manchetes descritas acima, aviso que capturei uma a uma das manchetes, transformei-as em imagens para posterior averiguação e teria um enorme prazer de apresentá-las aos interessados.

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Engenheiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/08/2010 Marcelo Idiarte

    Eis uma prova concreta do que acontece com um avião (automóvel, ônibus, caminhão) quando é atingido por um raio: http://www.youtube.com/watch?v=P2LbdKxCVww E eis aqui exemplo prático do princípio da Gaiola de Faraday sendo testado: http://www.youtube.com/watch?v=bZwlD-Z0zmE Pelo que vi numa propaganda antes deste final de semana, o Fantástico abordaria a questão do acidente no Caribe, mas como não assisti o programa eu não faço a menor ideia da abordagem que eles fizeram (e confesso que estou saturado até de procurar coisas na web em relação à Globo). Espero que, pelo bem da Física e da engenharia aeronáutica, tenham feito a única coisa sensata neste caso: explicar que aviões não se partem em vários pedaços quando recebem uma descarga elétrica – mesmo que esta seja a de um raio. Aliás é bem provável que um avião atingido por um raio só venha a cair se ocorrer uma série imensurável de eventos em sequência, com pane elétrica total e pane hidráulica grave. Ou então se cegar piloto e copiloto ao mesmo tempo, que é a minha concessão ‘Luis Fernando Verissimo’ ao caso. Fora isso, é a velha especulação (e espetacularização) de uma imprensa totalmente despreparada para eventos extraordinários – que no caso da aviação para os jornalistas é até uma simples arremetida. Na mesma segunda-feira do acidente eu comentei no Twitter: http://twitter.com/midiarte/status/21338154646

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