Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DE VEJA

Reflexão e debate, nota zero

Por José Alexandre em 10/11/2009 na edição 563

Mais uma vez, o semanário da Editora Abril [Veja, edição nº 2137, de 4 de novembro de 2009] dá uma de suas típicas contribuições para a resolução dos problemas educacionais no Brasil. Desta vez, o problema atacado são os gestores das escolas. A reportagem ‘Educação Má gestão’ está amparada em pesquisas financiadas pela Fundação Victor Civita e desfila o corolário de idéias salvíficas que poderiam bem resolver o suposto problema da falta de formação dos gestores. Prevalece como receita a importação de políticas de gestão escolar que deram resultados no exterior, adoção de práticas do mundo empresarial no ambiente escolar e formação adequada para os gestores.

Outro aspecto interessante é que os gestores devem encarar como sua responsabilidade o que acontece de errado nas escolas, tendo em vista o não aprendizado que se dá em boa parte destas. Isto, em vez de culpar pais, professores, alunos ou o governo. Responsabilizar um agente pelo desfecho de uma situação complexa, como a que se dá no ambiente escolar, seria no mínimo questionável, caso o veículo da reportagem fosse outro que não Veja.

Abordagem superficial

O trecho a seguir ilustra outros elementos:

‘A experiência internacional chama atenção para um conjunto de práticas que tem contribuído para formar e manter bons diretores à frente das escolas. Elas podem funcionar também no Brasil. Uma medida eficaz é proporcionar aos aspirantes ao cargo uma experiência prévia, como um período em que atuam como assistentes de diretor. Em alguns países, como Singapura, chega-se a exigir dos candidatos até estágio numa grande empresa privada, período em que se espera que absorvam os conceitos básicos de gestão.’

Como fica bem evidente acima, a formação dos gestores pode ser adquirida até em empresas privadas. Fazer distinção entre instituições de ensino e empresas é um erro, de acordo com a receita de bolo dada pela reportagem. O importante para os gestores são as metas, os resultados a serem atingidos e sem uma formação que lhes façam agir dessa forma a Educação não tem futuro. Conceitos como gestão democrática, que trazem no seu bojo a escolha do diretor em eleição direta pela comunidade escolar, são deletérios de acordo com esta visão. Afinal, o gestor tem que pensar a longo prazo e, completando o que a jornalista não escreveu, permanecer por bastante tempo à frente de sua escola.

Se os resultados não forem atingidos que se demitam os gestores, de acordo com um exemplo nova-iorquino, pois em tal cargo é necessária a permanência de pessoas capazes. Diferente do que ocorre no Brasil, onde a maioria destes são professores que ascenderam ao cargo, atraídos pelos ganhos de salário, geralmente por indicação. E não havendo cursos preparatórios para que estes assimilem as noções modernas de liderança e gestão eficiente, estamos diante de mais uma chaga da educação apontada por esta útil revista semanal brasileira. Uma revista que trata os problemas educacionais de forma abertamente superficial.

Tom pontificador e intransigência

Acreditamos que alguns elementos devem ser ponderados sobre a reportagem: a experiência internacional, considerando que a reportagem traz exemplos dos EUA, México e Cingapura, tomada como exemplo para o desempenho de qualquer setor, neste caso a Educação pública, sem as devidas matizações sobre as peculiaridades de ordem social, cultural e econômica de cada país, só pode constituir exercício estéril. Em caso de formação deficitária dos gestores e tempo demasiado gasto por estes mesmos, em burocracia qualquer início de solução seria um debate sério sobre estes problemas.

Qualquer publicação séria se furtaria a interferir no debate educacional brasileiro de maneira tão rasa apregoando soluções falaciosas e Veja não é o único veículo do Grupo Abril a agir de tal forma. Grupo que, por sinal, tem uma fundação e uma revista dedicada exclusivamente ao meio educacional e proporcionando vários desserviços a este, como podemos ver. O tom pontificador demonstra toda a intransigência da revista. Estímulo à reflexão e debate: nota zero.

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Professor de História, Ponta Grossa, PR

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