Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

FEITOS & DESFEITAS > LINCHAMENTO NO GUARUJÁ

Reflexões sobre o boato mortal

Por Luciano Martins Costa em 06/05/2014 na edição 797

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 6/5/2014

O linchamento de uma mulher de 33 anos na cidade de Guarujá, no litoral paulista, choca e demonstra como estava certo o filósofo Michel Foucault ao afirmar, já em 1961, que parte da vida social transcorre no campo da loucura.

A imprensa busca explicações, mas não há compêndios capazes de dar conta de uma violência como essa. A campeã dos lugares-comuns é a afirmação de que o crime coletivo só se consumou porque a comunidade onde ocorreu é um desses lugares onde supostamente falta a presença do Estado. A tese considera que, para funcionar bem, a sociedade precisa ser policiada permanentemente.

A dona de casa Fabiane Maria de Jesus, mãe de duas filhas, sofria de transtorno bipolar desde o primeiro parto, tomava medicamentos e vivia sob controle da família. No sábado (3/5), após tingir os cabelos de louro para ir a uma festa, saiu de casa sem ser notada. Na rua, foi apontada como a loura que seria suspeita de raptar crianças para rituais de magia negra. Daí para o linchamento e a morte, bastou que fosse vista por um bando de delinquentes e desocupados.

O mito urbano sobre a mulher que estaria usando crianças em rituais satânicos, que se espalhava pelas redes sociais, vinha sendo alimentado por uma página do Facebook intitulada “Guarujá alerta”. Uma visita ao “Guarujá alerta” (ver aqui) revela que se trata de uma página de avisos de interesse geral, denúncias e boatos, com pretensão a jornalismo.

No mesmo dia em que Fabiane de Jesus foi espancada e morta por moradores do bairro de Morrinhos, outra mulher que vinha sendo confundida com o retrato falado da suposta raptora de crianças havia publicado um comentário na rede social pedindo aos responsáveis pela página que retirassem a imagem, porque ela vinha sendo ameaçada por desconhecidos.

Há claros sinais de irresponsabilidade no conteúdo publicado pelos supostos jornalistas, que claramente atuam como cabos eleitorais de oposição à atual prefeita do Guarujá, Maria Antonieta de Brito, do PMDB. Os textos evidenciam que seus autores são pouco versados no idioma e desconhecem as regras básicas do jornalismo.

Noticiário estimula violência

Há muita superficialidade nas análises publicadas pelos principais jornais do País sobre o crime coletivo insuflado pelo boato. A melhor contribuição para o debate sobre o acontecimento é certamente a ponderação da socióloga Ariadne Lima Natal, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, citada pelo Globo.

A pesquisadora, que estudou casos de linchamento ocorridos entre 1980 e 2009 na região metropolitana de São Paulo, considera que não se trata de uma ação bárbara, irracional, mas de um crime cometido conscientemente pelos agressores. Ela passa ao largo da maioria das opiniões reproduzidas pela imprensa, quase todas se referindo à “falência do sistema de segurança pública e à falta de credibilidade das instituições democráticas por parte da população”. Para Ariadne Lima Natal, há causas mais concretas do que a suposta omissão do Estado democrático. Afinal, nem é necessária muita lucubração para se concluir que linchamentos resultam da má educação social e que não é possível nem recomendável que a sociedade seja vigiada pelo Estado.

O que a socióloga constatou, em suas pesquisas de três décadas, foi uma coincidência marcante: os linchamentos se repetem logo após um caso de grande repercussão na mídia. Portanto, comprova-se novamente, em relação aos crimes cometidos por uma coletividade, o que já foi demonstrado quanto aos suicídios – ou seja, que o noticiário intenso sobre um caso acaba deflagrando uma espécie de epidemia de eventos semelhantes.

“Cheguei à conclusão de que picos observados ao longo desses 30 anos na Grande São Paulo foram desencadeados por um caso de grande repercussão noticiado pela imprensa” – disse explicitamente a socióloga.

Portanto, cabe também uma reflexão interna nas redações. Ao assumir o discurso radical de alguns de seus colaboradores, os jornais não estariam estimulando o linchamento moral de certos personagens da vida pública e o descrédito nas instituições republicanas?

A opção preferencial por versões catastrofistas da realidade não estaria contribuindo para o abandono do bom senso e da racionalidade?

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