Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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FEITOS & DESFEITAS >

Reina o pensamento único?

21/04/2009 na edição 534

Stanislaw Ponte Preta fazia-nos atravessar ventos de risos entre o fígado e a alma com seu Febeapá – Festival de Besteiras que Assola o País. Isso, há quatro décadas, quando aquele jornalista satirizava as mazelas da pátria.

Pensando nas tais besteiras, pousa-me à mente aquele chavão a dizer que a história se repete, mesmo que como farsa. Pois falo do pensamento único a reinar no mundo de hoje – no Brasil, sobretudo. Ocorre que a terrinha deixou para trás o hábito sociológico de discutir idéias. E passa ao largo de aventar um regime democrático pautado na liberdade de pensar, na pluralidade de abordagens, sem conduzir a massa à luz da opinião da nobreza e do alto clero econômico.

Pois, hoje, parte da mídia dita um padrão comum que robotiza mentes. O grande público virou maquininha, come as informações e não rumina? Digere sem exercitar os neurônios da reflexão e perde a capacidade de duvidar, de investigar, de exercitar a massa neuronal com que a natureza ou a obra divina os dotou. As opiniões em contrário são abolidas dos círculos sociais, hoje impregnados pela saga consumista, dizem as vozes dissonantes.

Inversão de valores

Vamos aos exemplos:

A Polícia Federal fez diversas operações e mostrou que é instituição ativa rara na República. Prendeu bandidos graúdos, deu show nos serviços de inteligência e, no ápice, enquadrou aquele que é considerado o mais graúdo dos peixes dos fundos de pensão.

Eis que, no ato, o chefe da Alta Corte emite dois habeas corpus para soltar o peixe. E mais: pariu uma súmula vinculante condenando o uso de algemas em presos vips. Ofensa à inteligência? Achincalhe à deusa vendada e imparcial da Justiça? O poder do dinheiro falou alto, como em trocentas vezes, crêem os incrédulos botões de vovó Mafalda.

De resto, o delegado da PF que enquadrou o dito-cujo sofre um processo disciplinar, é afastado do caso e do cargo e sofre ostracismo. Eis que surge nossa grande imprensa a tomar as dores do peixe rechonchudo capturado e a condenar o abuso de poder do delegado Protógenes, o Ibsen Pinheiro da vez. Envergadura já conhecida.

A história se repete? O festival de besteiras voltou a assolar o país? A sociedade percebe a inversão de valores que parte da mídia provoca neste Estado republicano? A Polícia Federal virou vilã porque saiu das amarras e exibe ao Brasil sua carta de alforria ao enquadrar figurões etc…

Critério dispensa o debate

Não se recomenda pensar o contrário, sequer cogitar o contraditório. Esqueça a Tropicália de Caetano Veloso a cantar ‘… emite acordes dissonantes, pelos cinco mil alto-falantes’. Voz dissonante é alijada do processo, adquire o estereótipo do radicalismo. Uma conjuntura não menos temerosa do que o controle ideológico-social.

Acredita-se que o jornalismo deva, assim como fez o Projeto Folha em 1984, dar espaço ao contraditório, à outra versão – por isso não vejo por que usar o critério do ‘distanciamento’ das redações para excluir os atores que pensam diferente em qualquer discussão.

A supervalorização do novo na sociedade consumista pouco aprecia, em nosso caso, a bagagem que os jornalistas veteranos têm a passar – o que explica, entre outros males, sua ‘expulsão’ das redações. Debater idéias é sempre salutar. Chato é não colocá-las à disposição do público e privá-lo de beber de outras fontes – por critério ideológico ou pragmático que dispensa o debate em favor de um pensamento único.

‘Minta você mesmo’

Os desprovidos de formação acadêmica, ou mesmo os papagaios de telejornal (epíteto de um compositor à classe média), têm dificuldade de captar, abstrair a mensagem oculta de uma simples notícia formatada, empacotada e digerida aos tombos num ritual antropofágico que, ao contrário do original, nada de bom aproveita. Se enganado estou? Talvez.

Jornalismo é exercício desabrido do espírito crítico. O Brasil? Um cenário de publicações alternativas abominadas pelo status quo, acusadas de semear a subversão e esvaziadas de anunciantes. Fim à palavra libertária, criadora.

Encerro este ensaio em busca de diálogos possíveis. Escrevi na busca de não esquecer que estou vivo e que um dia terei minha unicidade premiada. E viva o pensamento autêntico e a realidade caleidoscópica!

Sobre a luta da sociedade contra mordaças e viseiras, cabe dar voz à Fela Anikulapo Kuti: ‘Observation is no crime.’ Quanto ao agendamento da grande imprensa, não se assuste com as mesmas notícias em todas as chamadas e o mesmo enquadramento dado à informação. Também não dá para seguir ao pé da letra a sugestão ‘Não compre jornais. Minta você mesmo’, tal qual recomendava uma pichação num muro do bairro de Pinheiros, em São Paulo, durante a greve dos jornalistas paulistas, no final dos anos 1970.

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Estudante de Jornalismo, Cachoeiro de Itapemirim, ES

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