Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Religião, a rainha das manipulações

Por Luís Olímpio Ferraz Melo em 09/02/2010 na edição 576

Desde tempos imemoriais há no homem o desejo de manipular os demais; e diversos artifícios foram utilizados para tanto. A religião, rainha das manipulações, ainda hoje milagrosamente sobrevive quase sem contestação de sua veracidade e eficácia. A Bíblia é o livro mais vendido no mundo e também o mais controvertido, visto as inúmeras traduções, fraudes e adaptações sofridas no decorrer da história. Na Europa moderna, a Bíblia foi traduzida para 51 línguas entre 1456 e 1699; e textos ditos sagrados foram desmascarados, como o que transformou o soldado Iñigo – ferido na batalha de Pamplona, em 1521 –, que organizava festas e gostava mais de corridas de cavalo do que de missas, em santo Inácio de Loyola. Numa das traduções da Bíblia para o português, o tradutor confessou sem remorsos tempos depois ter cometido dois mil erros involuntários.

Difícil acreditar em tradução literal ao texto original na Idade Média, pois os dicionários bilíngües apareceram somente em 1580, francês-inglês; 1591, espanhol-inglês; 1596, francês-alemão etc., e a maioria dos europeus continentais não falava inglês e somente após a metade do século 17 é que virou costume o uso da língua inglesa.

Neste século, o holandês Adriaan Koerbagh publicou um dicionário de termos legais no vernáculo a fim de auxiliar as pessoas comuns a não serem manipuladas pelos advogados que já usavam linguagem hermética; e a tradução da Arte della guerra, de Maquiavel, para o espanhol acabou transferindo o diálogo do livro da Itália para a Espanha e transformou os dois interlocutores italianos em espanhóis.

Olhar criticamente os fatos

O periódico do século 18 Gazette de Leyde, publicado em francês na República Holandesa de 1677 a 1811, intitulado originalmente Traduction libre des gazettes flamandes et autres (Tradução livre de gazetas flamengas e outras), disponibilizava para os leitores franceses notícias que geralmente não eram publicadas na imprensa da França.

As piadas, por exemplo, são outro problema nas traduções, pois as anedotas são locais e não universais, e ficam sem graça quando muda de cultura, daí os tradutores, muitas vezes de boa-fé, tentarem adaptá-las. Passíveis de discussões são os textos que exigem hermeneutas e/ou exegetas; e há inegável influência do editor e do tradutor nas obras, pois há livros inconclusos e outros tantos ‘ganharam’ capítulos extras depois de repetidas edições, mesmo os autores já tendo falecidos.

A manipulação age indissociável da civilização de forma incontrolável, pois dá prazer aos manipuladores e somente pelo olhar crítico dos fatos e das coisas é que o sujeito consegue livrar-se dela.

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Advogado e psicanalista, Fortaleza, CE

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